quarta-feira, maio 27, 2026

Conversa com amigos que partiram

 De vez em quando volto a encontrar amigos que já partiram.

Não na rua, nem à mesa de um café qualquer.
Encontro-os dentro da memória.


Vejo-lhes o rosto com uma nitidez estranha, quase cruel.
Oiço as gargalhadas, as discussões, os silêncios.
Lembro-me das palavras que ficaram suspensas no ar sem sabermos que seriam das últimas.


E às vezes dou comigo a falar com eles.
Como se ainda estivessem aqui.
Como se fossem responder a qualquer momento com aquela frase que já conhecia de cor.


Não sei explicar isto a quem nunca perdeu amigos verdadeiros.
Há pessoas que partem fisicamente, mas continuam sentadas connosco em pequenos pedaços da vida.
Num banco de jardim.
Numa música antiga.
Num copo partilhado noutra época.
Num domingo mais silencioso.


Talvez seja esta a forma que o coração encontra para resistir ao desaparecimento.
Guardar vozes.
Guardar afectos.
Guardar presença onde já existe ausência.


E no fundo, enquanto continuarmos a lembrar-nos deles assim, talvez nunca partam completamente.


segunda-feira, maio 25, 2026

Mas que vida é esta

 Mas que vida é esta?


Uma vida onde o tempo passa depressa
e as contas chegam primeiro que os sonhos.
Onde há quem trabalhe uma vida inteira
e continue cansado de sobreviver.


Uma vida onde a solidão cresce
no meio das multidões,
e onde tanta gente sorri por fora
para não desabar por dentro.


Mas depois…
há um abraço inesperado.
Um amigo que telefona.
Um neto que ri.
Um cão à espera.
Um café partilhado sem pressa.
Um poema.
Uma memória antiga que regressa
como quem vem dizer:
“ainda estás vivo.”


Vale a pena?
Às vezes custa responder.
Há dias em que a vida pesa mais
do que os ombros conseguem levar.


Mas talvez a vida não seja
uma grande vitória permanente.
Talvez seja isto:
continuar.
Mesmo ferido.
Mesmo cansado.
Mesmo desiludido com o mundo.


Continuar a acreditar
que a justiça importa,
que a ternura não é fraqueza,
e que um homem vale mais
pela bondade que deixa
do que pelo dinheiro que junta.


E enquanto houver alguém
capaz de estender a mão,
de amar a família,
de defender a verdade
e de se indignar perante a injustiça,
então sim,
apesar de tudo,
vale a pena.


domingo, maio 24, 2026

A história do Manel serapilheira

 Hoje lembrei-me de uma história antiga, nem sei bem porquê.


Tinha um colega chamado Manel, entre amigos conhecido como Manel Serapilheira. Já nem sei se escrevo bem, mas era assim que lhe chamávamos. Era daqueles adeptos ferrenhos, quase doentes, do Salgueiros. Futebol vivido com o corpo todo, sem filtros nem moderação.


O cão dele era uma espécie de relógio fiel. Andava sempre pelo pátio, à espera, sobretudo nos dias de jogo, como se percebesse qualquer coisa do mundo humano que nós fingimos que ele não entende.


Dizem que os cães não distinguem se o dono chega triste ou feliz. Pois… histórias dessas são bonitas para quem nunca viu a realidade de perto.


O Manel bebia uns copos valentes. E quando o Salgueiros perdia e ele chegava a casa carregado da derrota, a frustração tinha sempre destino certo. O cão acabava por pagar uma conta que não era dele. Levava no lombo.


Hoje olho para isto com outra idade e outra cabeça. Era uma história dura, sem poesia nenhuma, só vida crua daquela altura. Não sei se o Manel ainda anda por aí para confirmar isto ou para o negar. Mas ficou-me na memória como ficam as coisas que não encaixam bem naquilo que hoje consideramos aceitável.




Porque hoje fico em casa

 Porque hoje fico em casa.


Hoje é dia de cortejo.

A cidade veste-se de festa, de capas ao vento, de músicas, abraços e despedidas. É bom para Coimbra. Os restaurantes enchem-se, as ruas ganham vida, as famílias chegam para ver os filhos num dos dias que mais guardarão na memória. E ainda bem que assim é.

Eu próprio sou suspeito para falar. Já tive duas filhas nestas andanças. Vivi a emoção, a ansiedade, o orgulho silencioso de pai a olhar para elas naquele ritual tão coimbrão, tão único. A terceira não viveu essa experiência porque não tirou o curso em Coimbra, mas percebo bem o significado destes dias.

Hoje prefiro ficar em casa. Talvez porque os anos também nos mudam a forma de viver as coisas. Há festas que começamos a olhar mais à distância, com ternura, memória e algum silêncio dentro de nós.

Respeito profundamente a alegria de quem celebra e até a tristeza de quem parte. Porque quem foi estudante em Coimbra dificilmente esquece a cidade, os amigos, os amores, as noites longas, as conversas sem fim e aquela sensação de que a vida inteira ainda estava pela frente.

Há cidades que passam por nós. Coimbra não. 

Coimbra fica.

Mas isto é um coimbrinha a falar que foi estudante do ISCAC numa altura em que este e outros eram parentes pobres do ensino em Coimbra . 

Dia do cortejo

 


Quadra Popular Malandra


No Cortejo há brincadeira,

beijo roubado na brincadeira;

Coimbra finge ar de recato…

mas sabe bem da bandalheira.


Coimbra Finge Que Não Viu


Coimbra acorda cedo,

mas hoje faz de conta que não.

É dia de Cortejo:

a cidade põe tampões nos ouvidos

e um sorriso nos lábios,

como quem recebe visitas barulhentas

e diz que está tudo bem.


Os carros passam,

cada um mais absurdo que o anterior,

pintados com as cores das faculdades

como se a sabedoria viesse em pantone.

Lá em cima, futuros doutores

bebem como se estivessem a estudar

para um exame de resistência alcoólica.

E passam.

E acenam.

E tropeçam na própria importância.


Os pais aplaudem,

orgulhosos, emocionados,

como se ver o filho em cima de um carro

a beber às onze da manhã

fosse o auge da vida académica.

E talvez seja.

Quem sabe.


A cidade, coitada,

aguenta firme.

Finge que não vê a cerveja no chão,

os cânticos desafinados,

as filosofias de bêbedo

que duram até à próxima esquina.

Coimbra é paciente:

já viu gerações inteiras

a jurar que “é só hoje”.


E é verdade:

a loucura passa,

a bebedeira evapora-se,

o orgulho parental adormece.

Amanhã, todos acordam sérios,

responsáveis,

adultos outra vez.

Ou pelo menos tentam.


Coimbra, essa,

limpa o rosto,

estica as costas,

e volta ao normal 

como quem diz:

“Pronto, meus queridos,

já se divertiram.

Agora deixem-me respirar.



quarta-feira, maio 20, 2026

Uma jovem a pedir na baixa

 Uma jovem a pedir na baixa da cidade.


Jovem obesa, aparentemente com algum atraso, grávida, sentada no chão, embalando o corpo para trás e para a frente, enquanto cantarolava músicas quase indecifráveis. À sua frente, uma pequena caixa para esmolas e um cartaz feito à mão onde se lia:


“Estou a pedir porque estou grávida. Estou a viver na rua…”


Não consegui ficar indiferente a uma situação destas.


Dei comigo a pensar: terá família? O que a levou até aqui? Que caminhos, abandonos, sofrimentos ou falhas a empurraram para esta realidade? O Estado terá feito tudo o que podia? E nós, sociedade, fazemos realmente alguma coisa além de passar ao lado?


Acabei por lhe dar uma esmola. Normalmente não dou. Mas naquele momento não foi a moeda que importou. O importante foi o choque de perceber como situações destas continuam a existir diante dos nossos olhos.


E depois há o mais inquietante: a indiferença. Uns passam e nem olham, como se fosse uma paisagem normal da cidade. Outros olham por segundos e seguem caminho, talvez para não se sentirem desconfortáveis. Como é possível habituarmo-nos à miséria humana?


Vivemos numa sociedade onde uns têm tanto e outros não têm absolutamente nada. Onde se fala de progresso, crescimento e modernidade, enquanto uma jovem grávida, claramente vulnerável, tenta sobreviver sentada numa rua qualquer à espera que alguém repare nela.


O que mais me ficou não foi a esmola que dei. Foi a pergunta que continua dentro de mim:

que sociedade é esta quando a dor dos mais frágeis já quase não nos incomoda?

domingo, maio 17, 2026

Café e torrada no skipper

 Há conversas que não se aprendem nos livros.

Aprendem-se à mesa,
num copo servido devagar,
entre silêncios, memórias e gargalhadas antigas.


Os amigos chegam
com o peso dos anos
e a leveza rara
de quem ainda sabe escutar.


Um traz as histórias.
Outro traz os sonhos pintados de impossível.
E nós ficamos ali,
a aprender sem dar por isso.


Porque envelhecer também pode ser isto:
continuar curioso perante a vida,
continuar humano,
continuar amigo.


sábado, maio 16, 2026

Essas 2 personagens rubio e Rangel

 Rubio diz uma coisa. Rangel diz outra.

Um afirma que avisou, o outro garante que não foi assim.


Quando as versões se atropelam, a confiança desaparece.
E, sinceramente, não considero nenhum dos dois particularmente confiável.”


Não quero estragar a festa da subida da Académica

 Não quero estragar a festa.


Fui sócio desde os anos 60. Apenas deixei de o ser em dois períodos particularmente tristes da vida do clube. Não explicarei as razões, porque não quero alimentar divisões entre academistas.


Na próxima semana voltarei a fazer-me sócio. Não porque agora cheire a vitória, mas porque este é o meu clube de sempre. O clube da minha vida, da minha cidade, de tantas memórias e afectos.


Foi bonita a festa, malta. Merecida. Sentida. Vivida por todos aqueles que nunca deixaram morrer a esperança.


Mas agora chega a dura realidade da II Liga.
E, pelo que dizem os entendidos, serão precisos pelo menos 4 milhões de euros por época, além da resolução de dois processos de insolvência: um em fase final e outro ainda nos tribunais.


Terá Coimbra condições para um investimento desta dimensão?
Tenho muitas dúvidas.


Talvez sejam necessárias novas soluções, criatividade, união e gente capaz de pensar o clube para lá dos entusiasmos momentâneos, sem nunca perder aquilo que não pode ser negociado: a identidade da Académica.


Pode parecer despropositado escrever isto num momento de alegria e festa. Talvez seja.
Mas apeteceu-me falar não como dirigente, especialista ou candidato a alguma coisa. Apenas como um cidadão desta cidade, alguém que ama profundamente o clube e que se preocupa genuinamente com o seu futuro.


Porque os clubes históricos não vivem apenas de vitórias.
Vivem da memória, da resistência, da identidade e das pessoas que continuam presentes quando tudo se torna mais difícil.


sexta-feira, maio 15, 2026

Pobreza

 15 de Maio de 2026

Notícia do dia.


“Pobreza infantil, trabalhadores pobres, famílias inteiras a sobreviver com ajudas apesar de trabalharem todos os dias. Mais de um milhão de pessoas em privação material severa. Crianças a viverem em casas sem condições mínimas. E depois perguntamo-nos como é possível haver descrença, revolta e afastamento das pessoas da política e das instituições.”

O mais assustador nem é apenas a pobreza. É a capacidade de muitos se habituarem a ela. Como se fosse normal existirem pessoas que trabalham e continuam pobres. Como se fosse inevitável haver crianças sem o básico enquanto outros vivem no excesso, na futilidade e no esbanjamento permanente.Culpar este ou aquele lado político é sempre o mais fácil. A culpa nunca é dos próprios, é sempre dos outros. Mas um país não pode continuar décadas a discutir responsabilidades enquanto tanta gente vive sem dignidade.

Sou agnóstico. Mas acredito profundamente nos princípios básicos da vida: humanidade, justiça social, solidariedade e respeito pelo outro. E confesso que me impressiona ver tantos que falam diariamente de moral, religião e valores cristãos conseguirem conviver tão tranquilamente com esta realidade.

Porque nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente civilizada quando há crianças sem condições mínimas de vida e trabalhadores pobres a precisarem de ajuda para sobreviver.

Porque me sinto vazio ?

 Dia   14 de Maio de 2026

Porque me sinto vazio?


Tenho problemas? Tenho.

Quem não os tem?


Os 72 anos afectaram-me? Sim.

O enfarte afectou-me? Muito.


Tenho problemas financeiros? Tenho, infelizmente como grande parte das pessoas neste país desigual.

Tenho dívidas? Não.

Tenho saúde? Já tive mais.


Tenho problemas familiares? Tenho aqueles problemas comuns a quase todas as famílias.

Isso preocupa-me? Muito.


A minha vida foi limpa? Nem sempre. Fiz coisas que hoje talvez não tivesse feito.

Prejudiquei alguém? Conscientemente não. Mas admito que algumas decisões que tomei possam não ter sido as mais correctas.


Tenho amigos? Poucos, mas presentes. E muitos desapareceram quando deixei de lhes ser útil. Talvez a vida também seja isto: uma lenta selecção entre os que ficam e os que apenas passam.


Tenho uma relação estável? Sim. E foi uma das melhores decisões da minha vida.


A relação com as minhas filhas? Já foi melhor. Talvez por excesso de preocupação com os caminhos delas, com as escolhas, com o futuro. Nunca quis mandar na vida de ninguém. Dou conselhos apenas quando mos pedem, e mesmo assim tento não ultrapassar certos limites.


Porque estou a escrever este texto?

Porque escrever é uma forma de limpar a cabeça. Uma tentativa de desdramatizar aquilo que me martela diariamente o pensamento.


Este texto não é dirigido a ninguém em particular. É apenas uma forma de pensar alto.


Precisava de dizer mais algumas coisas. Talvez importantes. Talvez demasiado pessoais. Não sei se este é o momento certo.


Talvez o meu maior medo seja este: não ter tempo para dizer tudo aquilo que ainda gostava de dizer.

Vou tentar continuar este texto mais tarde.


terça-feira, maio 12, 2026

Consulta no Centro de Saúde de Eiras

 Consulta no Centro de Saúde de Eiras-Coimbra 

As notícias sobre SNS são quase todas com queixas de mau funcionamento , desperdício , atrasos e no privado é que é bom . 

Hoje tive consulta de enfermagem e consulta de médico de família , marcado através da aplicação , atendimento exemplar por todos os profissionais , serviço de excelência 

Nunca fui a um hospital privado , tive um enfarte , internamento , consultas , fisioterapia Cardiorespiratória ( serviço de excelência ) , apneia do sono , Centro de Saúde , não tenho nada que dizer dos vários tratamentos e internamentos . Perguntarão , correu tudo bem , não , mas não foi o sistema , alguns profissionais menos profissionais e podemos culpar um sistema porque um ou outro funcionário não cumpre , não , o sistema não tem culpa. 

Como me sinto agradecido ao SNS e como me preocupa o que aí vem 

72 já cá cantam 6 de Maio 2026

 72 já cá cantam

Setenta e dois já cá cantam,  

e a vida não pediu licença.  

Trouxe rugas, trouxe memória,  

e uma calma mais intensa.

Já não corro atrás do vento,  

nem me perco em vaidade.  

Dou mais valor ao silêncio,  

e menos pressa à saudade.

Setenta e dois já cá cantam,  

com a firmeza do que foi.  

Cada dia é uma conquista,  

cada manhã, um novo sol.

“Little boy blue” de Seixas Peixoto


Trabalho do pintor Seixas Peixoto que agora está na minha sala 

 O trabalho do pintor e artista plástico Seixas Peixoto tem uma força muito própria. Nestas imagens sente-se uma linguagem quase visceral, feita de rasgões, manchas, colagem, fragmentos de texto e matéria. Não é uma pintura para decorar paredes. É uma pintura que inquieta, provoca e obriga a olhar duas vezes.


O “Little Boy Blue” parece nascer precisamente desse choque entre inocência e perturbação. O título vem das nursery rhymes inglesas, ligadas à infância, mas a obra desmonta qualquer ideia confortável da infância como lugar puro e protegido. Há uma tensão constante entre o jogo e a sombra, entre o acaso e a construção.


A própria apresentação escrita ajuda a entrar nesse universo:


“Rasgar o cartão. Rasgar — Liberdade.”


Esta frase quase funciona como manifesto artístico. O rasgo não aparece como destruição gratuita, mas como libertação da forma tradicional, da narrativa organizada, da imagem limpa. A matéria ganha direito ao erro, à mancha, ao acidente.


A figura que aparece na imagem central é ambígua. Parece um corpo, um brinquedo partido, uma personagem deformada pela memória. O preto intenso da china, as zonas riscadas e os recortes tipográficos criam uma sensação de narrativa interrompida. Como se houvesse uma história impossível de contar por inteiro.


Também gostei muito do texto do desdobrável. Há ali uma dimensão poética rara:


“O sonho interpela, provoca, confronta.”


É exatamente isso que estas obras fazem. Não entregam respostas fáceis. Trabalham o inconsciente, o acaso, a memória fragmentada e até uma certa violência silenciosa do mundo moderno.


E Coimbra sente-se ali. Não como postal turístico, mas como lugar de criação, de atelier, de experimentação livre. “Adro de Baixo – Coimbra 2015” dá à obra uma espécie de raiz humana e concreta.


Há artistas que pintam o mundo visível. Outros pintam as fissuras do mundo. O trabalho de Seixas Peixoto parece estar muito mais nesse território das fissuras, da memória rasgada e da liberdade de criar sem domesticar a emoção.


Reunião dos vendedores de remédios

 Reunião anual de antigos colegas  propagandistas , vendedores de remédios , dims , gestores de território e outros nomes que já não me lembro 

9 de Maio de 2026

Local : Rui dos Leitões 


Há fotografias que não são apenas retratos.

Guardam décadas inteiras.


Nesta escada não estão só pessoas.

Estão histórias cruzadas, turnos longos, almoços rápidos, gargalhadas antigas, pequenas zangas já esquecidas e amizades que o tempo, apesar de tudo, não conseguiu gastar.


Cada rosto traz consigo uma vida inteira.

Uns com cabelos brancos, outros com passos mais lentos, mas todos com aquele brilho raro de quem partilhou uma parte importante do caminho.


O tempo passou.

Passou depressa demais, como sempre passa quando olhamos para trás.

Mas há qualquer coisa de bonito em perceber que ainda sabemos os nomes uns dos outros, ainda reconhecemos os sorrisos, ainda conseguimos rir das mesmas histórias de há quarenta anos.


Nestes encontros há sempre um silêncio escondido entre abraços.

O silêncio dos que já partiram e continuam sentados connosco na memória.

Porque ninguém desaparece totalmente enquanto houver alguém que o recorde.


E talvez seja isso que verdadeiramente celebramos aqui.

Não apenas o passado.

Mas a sorte rara de ainda podermos dizer:

“Lembras-te?”


Num mundo cada vez mais apressado e distante, continuar a encontrar-nos é uma forma de resistência.

Contra o esquecimento.

Contra a solidão.

Contra o tempo.


E durante algumas horas voltamos todos a ser jovens outra vez.



segunda-feira, maio 04, 2026

25 de Abril de 2026 
25 de Abril de 2026

 

Maquilhagem e maquilhadores

 


Contrato com maquilhadores para melhorar imagem nas entrevistas 

Milhares de euros em maquilhagem e cabeleireiro pagos com dinheiro público. Num país onde faltam médicos, onde a escola pública perde qualidade e onde tantos contam os euros até ao fim do mês.Não é uma questão de imagem. É uma questão de prioridades.Quem governa deve dar o exemplo de sobriedade. A política não é passadeira vermelha. É serviço público. Ajuste direto para serviços de estética pode ser legal, mas legal não significa sensato nem eticamente defensável.O problema não é a maquilhagem. É a cultura de poder que acha normal gastar em aparência enquanto pede contenção aos cidadãos.Transparência total nos contratos. Valores claros. Critérios claros. E acima de tudo respeito por quem trabalha e paga impostos.O Estado não é uma agência de imagem. É uma responsabilidade e tenham juízo 

Sem ilusões

 Hoje olho para trás sem ilusões.


Durante muito tempo achei que estava a escolher livremente. Caminhos, decisões, prioridades. Mas se for honesto comigo, o dinheiro esteve quase sempre ali, à frente. Não como ambição desmedida, mas como necessidade. Como condição. Como limite. Muitas vezes não escolhi o que queria, escolhi o que dava para fazer.


E isso deixa marcas.


A vida vai passando e vamos aprendendo a negociar connosco próprios. Dizemos que é só por agora. Que mais à frente compensamos. Que um dia vamos viver com mais tempo, mais calma, mais verdade. Mas esse dia nem sempre chega como imaginámos.


Não me arrependo de tudo. Fiz o que achei certo com o que tinha. Defendi quem era meu. Trabalhei. Aguentei. Caí e levantei-me. Isso ninguém me tira. Mas também não fecho os olhos ao que ficou por viver, ao que foi adiado, ao que foi sacrificado em nome de uma segurança que nunca é total.


Hoje percebo melhor.


O dinheiro faz falta. Muita. Dá estabilidade, evita humilhações, abre portas. Mas não resolve o essencial. Não substitui o tempo perdido. Não recompõe relações. Não devolve a leveza dos dias que passaram demasiado depressa.


O que fica, no fim, é mais simples e mais exigente.


A forma como tratámos os outros.

A forma como resistimos quando era mais fácil ceder.

A capacidade de manter valores quando o mundo puxava noutra direção.


Justiça, liberdade, dignidade. Palavras grandes, mas que se vivem nas coisas pequenas do dia a dia.


Hoje já não corro atrás de tudo. Escolho melhor. Dou mais valor ao que é verdadeiro. À família, à palavra, à consciência tranquila. E isso, curiosamente, não se compra.


Se há coisa que esta fase da vida me ensinou é isto

não vale tudo


E o pouco que vale mesmo a pena, esse não tem preço.

80 anos do menino Henrique

 


80 anos do menino Henriquinho 

Há coisas simples que dizem muito sobre a vida. Fazer 80 anos é uma delas.


O primo, o menino Henriquinho, chegou lá com um percurso cheio, feito de trabalho, viagens e memória. Passou por Moçambique, por Angola, trouxe pedaços de mundo e histórias que não cabem todas numa tarde. Agora está em Portugal, mais quieto, mas não parado. Quem viveu assim não pára por dentro.


Teve uma ideia bonita. Juntar os primos. Aqueles que hoje quase só se encontram quando alguém parte. Noutros tempos havia casamentos, baptizados, a feira de Seiça. A vida foi mudando o calendário dos encontros. Talvez por isso este convite tenha ainda mais valor.


Vieram os de fora de Lisboa, de comboio, como antigamente. Um ar de excursão, conversa solta, memória a puxar memória. Só faltou o garrafão a passar de mão em mão. Muitos cabelos brancos, é verdade. Mas sobretudo muita vida vivida. E isso pesa mais do que os anos.


À mesa houve de tudo. Histórias boas, outras que ainda doem. Riram-se, lembraram quem já não está, falaram do que ficou por fazer e do que ainda pode ser feito. Porque enquanto há encontro, há caminho.


No fundo foi isso. Não foi só um aniversário. Foi um regresso. À família, às raízes, ao que resiste ao tempo. Num tempo em que se perdem referências e valores, ter família continua a ser refúgio e porto seguro. E isso não é pouco.

E foi bonita a festa. Filhos e netos juntos, vindos do Brasil, da Suíça e de Inglaterra. Tudo à volta de um homem que chegou aos 80 com vida dentro. E isso vê-se. Sente-se. E fica.

Saco de arroz do convento de Seiça

 


Para muitos será apenas um saco de arroz e não fará nenhum sentido esta conversa . Para mim é outra coisa. É uma ligação viva à família Carriço, via prima Zulmira que muito me apoiou quando eu mais precisava , a minha infância, à Leirosa, ao Convento de Seiça. É o cheiro da terra,  do arroz , do descasque dos tratores, os primeiros momentos ao volante, a feira de Seiça, os verões que ficaram dentro de mim e que não podiam ter sido de outra maneira.

Foi-me dado ontem pela Dacilde, uma das Carriço desses tempos. Não foi uma oferta. Foi memória. Foi história. Foi um pedaço de vida que voltou às mãos certas.

E chegou num dia com peso. Os 80 anos do meu primo e padrinho, Henrique Carriço. Como se tudo fizesse sentido ao mesmo tempo.

É só uma história que para muitos é mais uma sem interesse , mas para mim é história , agradecimento e para memória futura