terça-feira, maio 12, 2026

“Little boy blue” de Seixas Peixoto


Trabalho do pintor Seixas Peixoto que agora está na minha sala 

 O trabalho do pintor e artista plástico Seixas Peixoto tem uma força muito própria. Nestas imagens sente-se uma linguagem quase visceral, feita de rasgões, manchas, colagem, fragmentos de texto e matéria. Não é uma pintura para decorar paredes. É uma pintura que inquieta, provoca e obriga a olhar duas vezes.


O “Little Boy Blue” parece nascer precisamente desse choque entre inocência e perturbação. O título vem das nursery rhymes inglesas, ligadas à infância, mas a obra desmonta qualquer ideia confortável da infância como lugar puro e protegido. Há uma tensão constante entre o jogo e a sombra, entre o acaso e a construção.


A própria apresentação escrita ajuda a entrar nesse universo:


“Rasgar o cartão. Rasgar — Liberdade.”


Esta frase quase funciona como manifesto artístico. O rasgo não aparece como destruição gratuita, mas como libertação da forma tradicional, da narrativa organizada, da imagem limpa. A matéria ganha direito ao erro, à mancha, ao acidente.


A figura que aparece na imagem central é ambígua. Parece um corpo, um brinquedo partido, uma personagem deformada pela memória. O preto intenso da china, as zonas riscadas e os recortes tipográficos criam uma sensação de narrativa interrompida. Como se houvesse uma história impossível de contar por inteiro.


Também gostei muito do texto do desdobrável. Há ali uma dimensão poética rara:


“O sonho interpela, provoca, confronta.”


É exatamente isso que estas obras fazem. Não entregam respostas fáceis. Trabalham o inconsciente, o acaso, a memória fragmentada e até uma certa violência silenciosa do mundo moderno.


E Coimbra sente-se ali. Não como postal turístico, mas como lugar de criação, de atelier, de experimentação livre. “Adro de Baixo – Coimbra 2015” dá à obra uma espécie de raiz humana e concreta.


Há artistas que pintam o mundo visível. Outros pintam as fissuras do mundo. O trabalho de Seixas Peixoto parece estar muito mais nesse território das fissuras, da memória rasgada e da liberdade de criar sem domesticar a emoção.


Sem comentários: