terça-feira, agosto 18, 2026

com papas e bolos se enganam os tolos

Com papas e bolos…


Com papas e bolos se enganam os tolos,

diz o velho ditado, sem pedir licença.

Hoje já nem é preciso tanto,

basta um sorriso, uma promessa

e uma conferência de imprensa.


Mudam-se as palavras,

embrulham-se os factos,

vende-se esperança em saldo,

e quem faz perguntas

passa a ser o culpado.


Há quem aplauda o vazio,

confunda propaganda com verdade

e troque a liberdade de pensar

pelo conforto da conformidade.


Mas nem todos se deixam iludir.

Há quem prefira a verdade amarga

à mentira doce.


Porque papas e bolos passam.

A verdade, mais cedo ou mais tarde,

fica sempre à mesa.

um dia vencido , outro dia vencedor

Um dia vencido,  

outro, vencedor.  


A vida não cabe  

no saldo de vitórias ou derrotas.  


Há dias em que o mundo pesa,  

outros em que a coragem volta.  


Ser vencido não é o fim:  

é nas derrotas que se aprende  

o que a vitória não ensina.  


Ser vencedor não é chegar primeiro,  

é não trair os nossos valores  

quando desistir seria mais fácil.  


No fim, somos a soma  

das vezes que caímos,  

nos levantámos,  

e insistimos em acreditar  

que amanhã pode ser melhor.


uma semana com Kiko e Manelito

Esta semana e como é bom não ser dono de iPhones , iPads e companhia durante uma semana


Esta semana decretei a minha própria falência digital. Não tenho telemóvel, o iPad desapareceu do meu raio de visão e o computador virou um adereço decorativo. Quem tomou conta do “departamento de telecomunicações e multimédia” cá de casa foram os meus netos. O resultado? Uma paz impecável.

A parte mais curiosa é que, ao cruzar-me com alguns amigos, percebi que a epidemia é geral: estamos todos na mesma situação, alegremente expropriados dos nossos dispositivos pelas respetivas equipas de infantaria. Quase não nos falamos, e a verdade é que ninguém parece muito preocupado com isso.

Estar com os netos tem esta vantagem maravilhosa: a tolerância. Como qualquer avô que se preze, aplico aqui uma vista de olhos bastante mais generosa do que aquela que aplicava no tempo em que educava os pais deles. Sei perfeitamente que a ortodoxia pedagógica condena esta atitude, e sei ainda melhor que os meus filhos criticam o facilitismo. Mas, honestamente, podem criticar à vontade. O tempo que passo com os meus netos é um território soberano , pertence-me a mim e a eles, não aos pais. Não prescindo de uma única hora.A paciência que hoje tenho de sobra é a mesma que escasseava há umas décadas. Talvez porque a idade traga esta lucidez irónica de saber que o tempo não é infinito. Amanhã, tudo isto pode não passar de uma memória , mas, se assim for, que seja pelo menos a memória perfeitamente gravada de um avô manifestamente fixe.

E a semana está a passar , para a semana já tenho os meus instrumentos de comunicação , mais gastos , com umas quedas pelo meio , mas espero que funcionem ainda. Bom fim de semana com netos ou sem netos 

Não gostam? Ponham para o lado.

Não gostam? Ponham para o lado. Não escrevo para agradar a ninguém. Escrevo porque gosto de pensar, de questionar e de dizer o que acredito ser verdadeiro. Sei que tenho os meus ódios de estimação. Sei também que há quem goste do que escrevo, embora nem sempre o diga. E sei, sobretudo, que há amigos que me leem, muitas vezes sem concordarem com tudo, mas que fazem questão de me manifestar apoio e apreço. Alguns até me confessaram que desconheciam esta minha faceta de quem escreve, reflete e intervém.

Enquanto for livre, continuarei a escrever o que penso. Sem amarras, sem donos e sem obediências. Não pertenço a nenhum partido e não escrevo ao serviço de interesses políticos. Identifico-me com uma esquerda tolerante, democrática e não radical, porque acredito na liberdade, na justiça social, na igualdade e no respeito pelas diferenças.

Mas esta convicção choca-se, todos os dias, com a realidade que me cerca. E pergunto-me: fará sentido escrever assim, quando vivemos rodeados de tanta mentira, de tanta intolerância, de tão mau jornalismo e de comentadores tão claramente comprometidos com interesses que não são os do público? Ainda assim, eu tento. Tento ouvir, tento ler, tento interpretar, tento filtrar. Porque acredito que é nesse esforço solitário e cansativo que ainda consigo distinguir o que é verdade do que é encenação.

Não peço que concordem comigo. Peço apenas que respeitem o meu direito de pensar e de escrever. Da mesma forma que respeito o direito dos outros de discordarem de mim. É assim que entendo a liberdade. E é por ela que continuo, mesmo quando o ruído é ensurdecedor e a mentira parece vencer.

o Guerra fugiu

Será que o Guerra fugiu 


Amadeu fugiu? Está em parte incerta? Ou só a afinar estratégia com outro caso? Tudo muito coerente: a verdade é um bem escasso, o melhor é multiplicar versões até nenhuma fazer sentido.

Spinuviva arquivada , lítio não se sabe nada , Costa em Bruxelas à espera que o chamem . Tudo concertado nos bastidores do poder e dos lobbys  e grupos do WhatsApp 

Entre Hugo, Montenegro , , Luís Neves montes alentejanos e Braga, nasce o “montanismo jurídico”. Quando o caso aperta, o Alentejo é refúgio; Braga, plano B.

Costa e Galamba voltam às notícias. Os 75.000 de S. Bento? Heróis anónimos: nunca se sabe quem eram, mas estavam lá.

E o roubo do parlamento? Gabinete de Ventura vandalizado, documentos desaparecidos: CPI a Luís Neves e informação do gabinete do primeiro-ministro. Mistério num país onde o parlamento é fortaleza e casa aberta.

No fim, nada muda. Spinumviva em sussurro, Hugo e Alentejo nova geografia do poder, Braga plano B, Costa, Galamba e os 75.000 à espera da próxima vaga. Luís Neves no elenco principal. E assim cá estamos, neste país lindo, onde a realidade parece ficção e a ficção parece documento. 

“Fazem-nos tudo, tiram-nos tudo, quando passa a procissão.”

Miguel Torga 


“Fazem-nos tudo, tiram-nos tudo, quando passa a procissão.”


Em Portugal, a política transforma-se, ciclicamente, em procissão: promessas solenes, discursos inflamados, bandeiras desfraldadas. Mas, no fim, a procissão passa, o povo fica, e a mesma fome, a mesma precariedade, o mesmo desprezo

Este texto é dedicado e a pensar nele a um amigo direitolas ….

Este texto é dedicado e a pensar nele  a um amigo direitolas ….


O ódio de estimação ao Pedro Sanchez e tudo aquilo que ele representaA direita tem um problema antigo: não suporta ser contrariada e entra em histeria cada vez que a realidade desmente o seu catecismo.Em Espanha, a economia aguenta, o desemprego cai, os combustíveis e a energia são aliviados para quem precisa, e a imigração é assumida como aquilo que é: indispensável para o país funcionar. Mas para certa direita, nada disto conta. O que conta é destruir o adversário, mesmo à custa da verdade e da decência.

Transformam familiares em armas de arremesso, atiram suspeitas como quem lança lixo pela janela e vivem felizes nesse esgoto moral em que os “nossos” são sempre inocentes e os “outros” já nasceram culpados. Não é política: é ódio organizado.

E o mais grave é isto: há muita gente que se acha “moderada” mas aplaude esta caça ao inimigo. Chamam-lhe justiça, chamam-lhe rigor, chamam-lhe valores. Eu chamo-lhe outra coisa: intolerância com gravata.

Bom domingo e em particular para esse amigo que está em terras distantes 😂😂😂😂

estou a ficar cansado

Estou a ficar cansado.


Talvez esteja errado. Talvez esteja a exigir demasiado de mim. Talvez já não seja o meu tempo.

Há momentos em que nos cansamos de lutar, de pensar, de tentar compreender, de ver a mentira tantas vezes vencer a verdade e a injustiça encontrar sempre quem a justifique.

Não é necessariamente cansaço da vida. Talvez seja cansaço deste tempo, deste mundo onde tantas vezes parece que os valores que defendemos deixaram de contar.

Continuo a acreditar na liberdade, na igualdade, na justiça, na fraternidade. Continuo a acreditar na família, na amizade e nas pessoas.Mas também tenho direito a cansar-me.

Talvez precise simplesmente de parar um pouco. Respirar. Silenciar o ruído. Olhar para aquilo que realmente importa.

Talvez amanhã volte a ter forças.

Ou talvez aprenda que não é preciso estar sempre a lutar.

Por hoje, estou cansado. E digo-o sem vergonha.

porque é o que sinto hoje , amanhã logo se vê .

Sinto-me cansado e triste hoje , amanhã , se houver amanhã logo se vê 



Não é um grito. É quase um sussurro.Estou cansado. Cansado de verdade. Daquela sensação que pesa nos ossos, que não sai com uma noite de sono, que não se resolve com um café ou com um ,vai passar. Não é da vida. É deste tempo. É de olhar à volta e sentir que os valores que me ensinaram, ou não e que escolhi para mim, parecem já não ter lugar. A verdade a perder para a mentira. A injustiça a vestir-se de razão. E eu, no meio disto tudo, a tentar não me perder.

Ainda acredito nas pessoas. Acredito na família, nos amigos, na força de um abraço. Acredito que a liberdade, a igualdade e a fraternidade são mais do que palavras bonitas.

Mas, por dentro, há um cansaço que não sei explicar.

Talvez esteja a exigir demasiado de mim.

Talvez já não seja o meu tempo.

Talvez precise simplesmente de parar.

Hoje não vou lutar.

Hoje vou sentar-me com o meu cansaço. Vou deixá-lo estar. Vou ouvir o silêncio, mesmo que ele incomode.

Por isso, vou desligar um pouco. Guardar a voz para aquilo e para quem realmente merece a minha voz. Deixar o mundo girar sem mim durante umas horas.Hoje preciso de me lembrar de uma coisa simples: também sou humano. E também tenho direito a cansar-me.

Amanhã, quem sabe, volto.

Até amanhã, talvez.

Até daqui a pouco, quem sabe.Até quando as forças voltarem.Porque, apesar de tudo, quero acreditar que elas voltam.

Porque escrevi isto , porque é o que sinto hoje , amanhã logo se vê . 

10 de Agosto de 2026

Hoje o meu irmão de sangue faz 66 anos.

Dizer isto devia trazer alegria. Afinal, fazer anos é celebrar a vida.

Mas hoje, para mim, não é assim.

Hoje sinto tristeza.

O meu irmão escolheu caminhos que não devia ter escolhido. Caminhos que o levaram a passar mais tempo numa prisão do que na vida cá fora. E custa escrever isto. Custa ainda mais aceitar.

É meu irmão. De sangue. Parte da minha história, da minha família, da minha mãe e, inevitavelmente, também de mim.

E há uma pergunta que me acompanha há muitos anos.

Será que fiz tudo o que podia ter feito?

Não sei.

Quero acreditar que sim. Acho que sim. Mas não tenho certezas.

Talvez nunca venha a ter.

Podia ter estado mais perto? Podia ter insistido mais? Podia ter percebido qualquer coisa antes? Podia ter feito diferente?

São perguntas que não têm resposta e que, às vezes, voltam quando menos esperamos.

A minha mãe sofreu muito. Talvez mais do que qualquer um de nós conseguiu perceber. Uma mãe não deixa de ser mãe porque um filho escolheu mal. Continua a esperar, continua a sofrer, continua a acreditar.

E talvez tenha sido essa a sua maior dor: saber que amava o filho, mas não conseguia escolher a vida por ele.

Eu também não consegui.

Ninguém consegue.

Hoje não quero falar das prisões, dos erros, nem dos caminhos que ficaram para trás.

Hoje quero apenas lembrar que, antes de tudo isso, havia um irmão.

O meu irmão.

Faz 66 anos.

E apesar de tudo o que aconteceu, apesar de tudo o que ficou por dizer, apesar das mágoas e das perguntas para as quais nunca encontrei resposta, continuo a desejar-lhe aquilo que talvez tenha faltado em tantos anos da sua vida: paz. Não sei se algum dia conseguiremos recuperar o tempo perdido, penso que não é sinceramente penso que não vale a pena .

Sei apenas que o tempo perdido não volta.

E talvez seja isso que mais me dói hoje.

os SMTUC e a sua desvalorização

Os SMTUC e o seu fim não anunciado por falta de coragem 


Sou um cidadão de Coimbra que, normalmente , deixa o carro na garagem e decidiu apostar nos transportes públicos. Defendi o serviço no início. Hoje, vejo-me obrigado a denunciar o que está a acontecer.Não é obra do acaso. É um padrão. Os SMTUC estão a sofrer uma degradação diária: horários que falham, linhas que desaparecem sem justificação, autocarros sujos e motoristas no limite da paciência. E a pergunta que fica é: porquê?

A resposta, para quem observa o país, é clara. Este é o velho método: descapitalizar o serviço público para justificar a privatização. Compra-se equipamento novo, veja-se o investimento como os autocarros do Metro Mondego e da SIT , deixa-se o serviço velho definhar, e depois entrega-se tudo à iniciativa privada, como já vimos acontecer com a linha de Cascais.Mas o pior não é o modelo. O pior é a falta de coragem política.O anterior executivo (Professor José Manuel Silva) já andava a desvalorizar os SMTUC. O atual (Professora Ana Abrunhosa) segue o mesmo caminho, com cortes cegos e sem um plano estratégico. Ninguém tem coragem de dizer a verdade: os SMTUC estão a caminho do fim.

Coimbra tem potencial para ser uma cidade moderna, mas está a ser gerida como uma pequena mercearia, sem visão de futuro. É a cidade adiada.

Não podemos ficar quietos. Não podemos deixar que nos tirem o direito à mobilidade.

Cidadãos de Coimbra: acordem, exijam respostas e insurjam-se. A nossa cidade não merece gestores que a gerem aos trambolhões enquanto o transporte público definha.

Esta estratégia é clara substituir algumas linhas pelo Metro Mondego e SIT 

realidade virtual e real

Realidade virtual e realidade real

Hoje é prática comum. Influencers, empresas de comunicação, partidos, políticos, sem exceção, e os tais comentadores e jornalistas avençados vivem muitas vezes de uma realidade construída.

Os meios de comunicação social têm compromissos, têm contas para pagar e manter balanços positivos não é fácil. Mas fácil é aceitar notícias, fácil é reproduzir comunicados, fácil é anunciar grandes feitos e grandes obras, escondendo aquilo que está mal.

Quando vejo determinados comentadores, penso muitas vezes que deveriam estar num espaço partidário legítimo. Assim, pelo menos, não enganavam ninguém. Poucos são aqueles que vejo e ouço, não por estarem no meu quadrante político, mas porque tentam fazer aquilo que lhes compete: jornalismo sério. E isso, hoje, é coisa rara.

Então, como filtrar tudo isto?

Tenho a minha táctica. Nos jornais já não leio alguns jornalistas. Sei exactamente o que vão dizer, antes de começar a ler. Mudo de página. Na televisão, mudo de canal quando aparecem determinados comentadores. Nas redes sociais, tenho um núcleo restrito de pessoas que leio e comento. Outros, simplesmente, bloqueio.

Não é fugir da realidade. É tentar encontrá-la no meio de tanta realidade fabricada.

E porquê escrever isto hoje?

Estou sentado na mesa do costume. Café e copo de água. A olhar.

Vejo as pessoas a chegar ao trabalho, cada uma com a sua vida, os seus problemas, as suas preocupações. Vejo a Praça 8 de Maio. E a Praça 8 de Maio não sai do lugar.

Enquanto isso, nas televisões, nos jornais e nas redes sociais, todos os dias há grandes feitos, grandes conquistas, grandes anúncios e grandes discursos.

Mas a vida real continua ali.

As pessoas continuam a trabalhar, a pagar as suas contas, a esperar pelos serviços públicos, a enfrentar as dificuldades de todos os dias.

É por isso que gosto de parar, olhar e pensar.

Entre a realidade virtual que nos querem vender e a realidade real que está à nossa frente, eu prefiro sempre a segunda.

Porque a realidade não precisa de influencers, comentadores avençados ou comunicados de propaganda.

A realidade está ali.

Basta olhar.

Já agora , não se esqueçam temos eclipse , depois contem qualquer coisinha 

com base no artrigo do dámaso

Com base no artigo do Eduardo Dámaso  “ Sábado “



Quando a confiança nas instituições deixa de ser prioridade

Há artigos que merecem ser lidos não apenas pelo que dizem, mas sobretudo pelas perguntas que deixam.


O artigo de Eduardo Dámaso sobre Luís Neves é um desses casos. É um texto duro, incómodo e politicamente muito sério, porque coloca uma questão que vai muito para além de uma pessoa.

Pode um Governo exigir credibilidade às instituições quando mantém em funções alguém sobre quem existem dúvidas, polémicas e processos que atingem precisamente a confiança pública?

A política não pode ser apenas uma questão de legalidade formal. Há também uma dimensão ética, moral e política.

Quem exerce funções de Estado tem de perceber que a confiança dos cidadãos é um património que não pode ser tratado como propriedade partidária.

O problema não é apenas Luís Neves. O problema é o padrão.

É a ideia de que enquanto não houver uma condenação definitiva tudo pode continuar como se nada tivesse acontecido. É uma visão demasiado pobre da responsabilidade política.

Num Estado de direito, a presunção de inocência deve ser respeitada. Sempre.

Mas a presunção de inocência não pode ser confundida com presunção de confiança política.

São coisas diferentes.

Um cidadão pode não estar condenado e, ao mesmo tempo, um Governo entender que determinadas circunstâncias já são suficientes para exigir esclarecimentos, afastamento ou, pelo menos, uma avaliação séria da continuidade em funções.

É aqui que entra a responsabilidade de Montenegro.

Governar não é apenas nomear e defender os seus. É saber reconhecer quando a permanência de alguém começa a prejudicar a credibilidade do próprio Governo e das instituições que representa.

Durante anos fomos aceitando demasiadas coisas em nome da disciplina partidária, da estabilidade ou do velho argumento de que é preciso esperar pela Justiça.

E depois admiramo-nos quando os cidadãos deixam de acreditar na política.

A democracia não vive apenas de eleições.

Vive de confiança. E quando essa confiança é destruída, não basta dizer que está tudo dentro da lei.

Há momentos em que a política tem de ser mais exigente do que a própria lei.

É disso que estamos a falar.

dia de eclipse

O eclipse dos generais é comentadores 

Ontem tivemos um eclipse. Foi uma festa.

Televisões por todo o lado, directos, entrevistas, comentadores, especialistas, gente a olhar para o céu como se o fim do mundo estivesse marcado no calendário.

Foi um bom dia.

Pouco se falou de Luís Neves. Pouco se falou da Ucrânia. Pouco se falou do Médio Oriente. Pouco se falou de Ceuta. Durante algumas horas, as guerras, as polémicas e os problemas do mundo tiveram direito a uma pausa.

Eu nem sequer comprei óculos para o eclipse. E foi uma alegria.

Pela primeira vez em muito tempo, pareceu que o tempo parou. Até os generais e os comentadores das guerras ficaram por momentos sem guerra para comentar.

O Sol tapou a realidade durante uns minutos.

E, confesso, soube bem.

Hoje voltamos ao normal. Os generais voltarão às televisões, os comentadores voltarão a explicar-nos o mundo e as guerras continuarão onde estavam.

Mas ontem tivemos um eclipse.

E, por umas horas, até a televisão nos deixou respirar.

os casam , o padrão fica e surgiu a cunha

Os casos passam, o padrão fica


Pensar e pensar.

Porque as ideias não param. A cabeça fervilha com aquilo que vejo, com aquilo que leio, mas sobretudo com aquilo que ouço quando falo com pessoas comuns, pessoas que não fazem parte do meu círculo mais próximo. Felizmente, encontro muitas pessoas bem sucedidas, pessoas que lutaram, trabalharam e construíram a sua vida.

Não tenho inveja. Não acuso. Não sou juiz.

Tento perceber.

Tento perceber o país através dos casos que se foram acumulando ao longo dos anos. Casos que chegam às primeiras páginas, provocam indignação, alimentam debates, enchem os ecrãs durante semanas e depois desaparecem.

Os casos passam. O padrão fica.

Há dias em que tento lembrar os grandes casos que atravessaram a vida política, económica e institucional do nosso país.

E começo a fazer uma lista.

BPN. As ações de Cavaco Silva. Os submarinos. Face Oculta. Sócrates. Operação Marquês. BES e Espírito Santo. Banif. Vistos Gold. Raríssimas. Escária. TAP. Influencer. Tutti Frutti. Spinuviva. E agora Luís Neves.

Certamente há muitos outros de que neste momento não me lembro.

Mas talvez a questão mais importante não seja recordar todos os nomes.

É olhar para todos eles em conjunto.

Não quero dizer que todos estes casos são iguais. Não são. Não tiveram os mesmos protagonistas, não tiveram a mesma dimensão, não tiveram necessariamente irregularidades da mesma natureza e muitos tiveram desfechos completamente diferentes.

Também não quero transformar suspeitas em condenações.

Num Estado de direito, uma pessoa é inocente até prova em contrário. Para mim, isso é um princípio, não uma conveniência política.

Mas há uma coisa que não consigo deixar de pensar.

Ao longo de décadas, vamos assistindo sucessivamente a casos envolvendo política, grandes interesses económicos, instituições públicas, empresas, bancos, contratos, influência, decisões administrativas e relações entre pessoas com poder.

Mudam os governos.

Mudam os ministros.

Mudam os partidos.

Mudam os empresários.

Mudam os nomes dos processos.

Mas algumas perguntas permanecem exatamente as mesmas.

Quem conhecia quem?

Quem tinha acesso a quem?

Quem tomava as decisões?

Quem beneficiava?

Quem fiscalizava?

Quem sabia?

Quem não sabia?

E, sobretudo, porque é que tantas vezes só conhecemos determinadas histórias quando já passaram anos?

É isto que me incomoda.

Não é apenas o caso A, B ou C.

É a sensação de que Portugal tem uma memória muito curta.

Um caso ocupa os jornais durante semanas. Há debates, comentários, indignação, conferências de imprensa, acusações e defesas.

Depois aparece outro.

E o anterior desaparece.

Até que, anos mais tarde, já quase ninguém se lembra do que aconteceu.

E talvez seja precisamente aí que o sistema ganha.

Porque uma sociedade que esquece rapidamente é uma sociedade com dificuldade em exigir responsabilidades.

Não estou a falar apenas de responsabilidades criminais. Essas pertencem aos tribunais.

Falo também de responsabilidade política, responsabilidade institucional e responsabilidade moral.

Um ministro pode não cometer nenhum crime e, mesmo assim, ter responsabilidades políticas.

Um administrador pode não ser condenado e, mesmo assim, ter de explicar decisões.

Uma instituição pode cumprir formalmente a lei e, mesmo assim, deixar perguntas sem resposta.

E um jornalista pode informar sem mentir, mas também pode escolher aquilo que não investiga com a mesma intensidade.

É por isso que me preocupa quando vejo a política transformar tudo numa guerra entre partidos.

Porque esta questão é maior do que o PS, o PSD, o Chega, a esquerda ou a direita.

Os partidos passam.

O Estado fica.

As pessoas passam.

As instituições ficam.

E a democracia só funciona quando ninguém está acima do escrutínio.

Eu não quero viver num país onde se parte imediatamente para a condenação de alguém por razões políticas.

Mas também não quero viver num país onde a proximidade ao poder, ao dinheiro ou às instituições certas possa criar a sensação de que determinadas pessoas têm sempre mais portas abertas, mais tempo, mais recursos e mais possibilidades de defesa.

Entre a perseguição política e a impunidade existe uma coisa chamada Estado de direito.

É aí que quero estar.

Por isso continuo a juntar estes casos na minha memória.

Não para construir uma teoria da conspiração.

Não para dizer que existe uma mão invisível a controlar tudo.

Mas para tentar perceber se existe um padrão.

Um padrão de relações entre poder político, interesses económicos, influência e instituições.

Um padrão que merece ser estudado, investigado e explicado.

Porque talvez a verdadeira história de Portugal contemporâneo não esteja num único escândalo.

Talvez esteja na sucessão deles.

E é aqui que chego à conclusão que mais me incomoda.

No fim, muitas vezes, parecem perder sempre os mesmos.

Não necessariamente porque alguém tenha decidido que assim deve ser. Mas porque nem todos partem do mesmo lugar.

A justiça pode ser formalmente igual para todos, mas as condições para chegar à justiça não são necessariamente iguais.

O ensino é público, mas as oportunidades não são iguais.

A saúde é um direito, mas o acesso e a capacidade de procurar alternativas não são iguais.

Há quem tenha recursos para esperar, para recorrer, para contratar especialistas, para procurar a melhor solução.

E há quem simplesmente espere.

Espera por uma consulta.

Espera por uma resposta.

Espera por uma decisão.

Espera que alguém lhe abra uma porta.

E depois há aquilo que mais me incomoda: a sensação de que, para alguns, aparecem sempre soluções, contactos, oportunidades, relações e manobras dilatórias que o cidadão comum dificilmente consegue ter.

Não digo isto para condenar ninguém em particular.

Digo-o porque é uma perceção que existe na sociedade e que não pode ser ignorada.

Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições, tribunais, leis e instituições.

Mede-se também pela confiança que as pessoas têm nessas instituições.

E quando um cidadão começa a acreditar que existem dois países dentro do mesmo país, um para quem tem poder, dinheiro e relações e outro para quem apenas tem o seu trabalho, a sua reforma, a sua família e os seus direitos, alguma coisa está profundamente errada.

É por isso que continuo a fazer perguntas.

Quantos casos ainda serão necessários para percebermos que não basta mudar os protagonistas?

Também é preciso mudar aquilo que permite que determinadas relações de poder se repitam.

Eu não tenho todas as respostas.

Aliás, desconfio de quem diz ter.

Tenho perguntas.

Tenho memória.

E tenho o direito, como cidadão, de continuar a fazê-las.

Porque uma democracia saudável não tem medo das perguntas.

Tem medo é de um dia ninguém mais as fazer.

Depois de escrever este texto assaltou-me outra palavra “

A Cunha “, e o peso de ter amigos influentes nesta ou naquela área e a normalidade do pedido e a teia de interesses que se organiza como um polvo para simplificar processos , para fazer negócios