terça-feira, agosto 18, 2026

10 de Agosto de 2026

Hoje o meu irmão de sangue faz 66 anos.

Dizer isto devia trazer alegria. Afinal, fazer anos é celebrar a vida.

Mas hoje, para mim, não é assim.

Hoje sinto tristeza.

O meu irmão escolheu caminhos que não devia ter escolhido. Caminhos que o levaram a passar mais tempo numa prisão do que na vida cá fora. E custa escrever isto. Custa ainda mais aceitar.

É meu irmão. De sangue. Parte da minha história, da minha família, da minha mãe e, inevitavelmente, também de mim.

E há uma pergunta que me acompanha há muitos anos.

Será que fiz tudo o que podia ter feito?

Não sei.

Quero acreditar que sim. Acho que sim. Mas não tenho certezas.

Talvez nunca venha a ter.

Podia ter estado mais perto? Podia ter insistido mais? Podia ter percebido qualquer coisa antes? Podia ter feito diferente?

São perguntas que não têm resposta e que, às vezes, voltam quando menos esperamos.

A minha mãe sofreu muito. Talvez mais do que qualquer um de nós conseguiu perceber. Uma mãe não deixa de ser mãe porque um filho escolheu mal. Continua a esperar, continua a sofrer, continua a acreditar.

E talvez tenha sido essa a sua maior dor: saber que amava o filho, mas não conseguia escolher a vida por ele.

Eu também não consegui.

Ninguém consegue.

Hoje não quero falar das prisões, dos erros, nem dos caminhos que ficaram para trás.

Hoje quero apenas lembrar que, antes de tudo isso, havia um irmão.

O meu irmão.

Faz 66 anos.

E apesar de tudo o que aconteceu, apesar de tudo o que ficou por dizer, apesar das mágoas e das perguntas para as quais nunca encontrei resposta, continuo a desejar-lhe aquilo que talvez tenha faltado em tantos anos da sua vida: paz. Não sei se algum dia conseguiremos recuperar o tempo perdido, penso que não é sinceramente penso que não vale a pena .

Sei apenas que o tempo perdido não volta.

E talvez seja isso que mais me dói hoje.

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