Como não tendo nada se tem tudo
Há quem pense que ter é possuir,
ter muito, guardar, acumular.
Mas eu aprendi que a vida
também se pode ganhar
quando pouco se tem
e muito se sabe amar.
Não tenho riquezas para deixar,
nem grandes coisas para mostrar.
Tenho memórias, tenho afectos,
tenho gente que posso abraçar.
Tenho o silêncio de uma tarde,
o cheiro da terra depois da chuva,
um café bebido devagar,
uma palavra amiga,
um olhar que não precisa falar.
Não tenho tudo o que quis,
nem tudo o que a vida prometeu.
Mas tenho aquilo que importa,
e isso ninguém me ofereceu,
foi a vida que me ensinou
a reconhecer o que é meu.
Tenho família, tenho amizade,
tenho liberdade para pensar.
Tenho consciência tranquila
e ainda vontade de sonhar.
E talvez seja essa a riqueza
que ninguém consegue comprar:
quando se aprende a viver com pouco,
descobre-se que se pode ter tudo
sem precisar de possuir quase nada.
Porque, no fim,
não é o que temos que nos define.
É aquilo que damos,
é aquilo que sentimos,
é quem fica ao nosso lado
quando o resto desaparece.
E assim vou caminhando,
sem grandes certezas,
mas com uma certeza profunda:
às vezes,
é precisamente quando pensamos
que não temos nada
que descobrimos
que temos tudo.
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