terça-feira, março 10, 2026

Desinformação

 A desinformação sempre existiu. O que mudou foi a escala e a velocidade. Hoje há máquinas de amplificação. Algoritmos que empurram o que gera mais reação, não o que é mais verdadeiro. O choque, o medo, a indignação vendem mais do que a análise calma.

Quando o negócio dos média depende de audiências e cliques, o risco é evidente. O debate perde espaço para o espetáculo. O comentário substitui a reportagem. A pressa vence a verificação.

Há também outra realidade dura. Quem tem poder económico ou político tenta sempre influenciar a narrativa pública. Não é novo na história. A diferença é que agora a influência pode circular em segundos e chegar a milhões de pessoas sem filtro.

Perante isto há duas respostas possíveis. A resignação ou a lucidez.A lucidez começa por algo simples. Procuro várias fontes. Leio posições diferentes. Dou mais valor a quem mostra .  A responsabilidade do jornalismo sério continua a ser fundamental. Sem imprensa livre e exigente a democracia fica frágil.Mas há também uma dimensão individual. Cada pessoa que recusa partilhar uma mentira, cada pessoa que procura compreender antes de reagir, cada pessoa que exige mais rigor aos média está a fazer uma pequena resistência cívica.

A luta é desigual. Sempre foi. A verdade raramente tem a força imediata da mentira. A mentira espalha se depressa porque é simples e emocional. A verdade exige tempo, contexto, pensamento.Mesmo assim a história mostra uma coisa. Sociedades que abandonam a verdade acabam prisioneiras da manipulação e do medo. Não abdico 


Por isso manter a lucidez já é uma forma de resistência. Não ceder ao ruído. Não abdicar de princípios. Continuar a procurar o que é justo e verdadeiro mesmo quando o ambiente à volta empurra para o contrário. Isso nunca foi o caminho mais fácil. Mas muitas vezes é o único que preserva a dignidade.


Sentado no Tucano

 Aqui há paz.

O mar aberto.

A calma que parece infinita.


O horizonte lembra a imensidão do mundo e a pequena dimensão das nossas inquietações.


Mas noutros lugares há morte.

Há barbárie.

Há a loucura dos homens.

E há a mentira que tantas vezes tenta esconder tudo isso.


O mesmo planeta.

A mesma humanidade.

Dois rostos que coexistem todos os dias.

Memória de elefante de ALA

 Antonio Lobo Antunes 


O romance Memória de Elefante de António Lobo Antunes é um livro muito marcado pela memória da guerra, pela solidão e pela sensação de desencontro com a vida. O protagonista é um psiquiatra que passa um dia em Lisboa enquanto revisita lembranças, frustrações e o desgaste . 

A memória como peso

  O livro a memória não é uma virtude. É quase uma ferida permanente. O personagem recorda a guerra colonial, relações falhadas e a sensação de que o passado nunca passa.A solidão urbanaLisboa aparece como uma cidade cheia de gente mas emocionalmente vazia. As pessoas cruzam-se sem verdadeiramente se encontrarem.

O desencanto com a vida adulta

O protagonista olha para a sua própria vida com ironia e amargura. A profissão, o casamento falhado e a rotina parecem não trazer sentido.

A marca da guerra colonial

A experiência em Angola atravessa o livro. Não aparece apenas como memória histórica mas como trauma psicológico que continua dentro dele.

Algumas frases curtas que refletem o tom do livro


Há dias em que a vida parece uma sala de espera sem porta de saída


A memória regressa sempre quando pensamos que finalmente nos deixou em paz. 

Lisboa continuava a girar indiferente à tristeza dos homens .As  pessoas vivem rodeadas de ruído para não ouvirem aquilo que lhes vai por dentroÉ um livro muito cru e muito honesto. Mostra um país cansado e uma geração marcada pela guerra e pela desilusão.


 Pensamento do dia:* 

“Por vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas."- Friedrich Nietzsche

Algoritmos , mentira e consciência

 


Interpretem como entenderem


Algoritmos , mentira e consciência 


A desinformação sempre existiu , não é um exclusivo destes tempos . O que mudou foi a escala e a velocidade. Hoje há máquinas de amplificação. Algoritmos que empurram o que gera mais reação, não o que é mais verdadeiro. O choque, o medo, a indignação vendem mais do que a análise calma.Quando o negócio dos média depende de audiências e cliques, o risco é evidente. O debate perde espaço para o espetáculo. O comentário substitui a reportagem. A pressa vence a verificação.Há também outra realidade dura. Quem tem poder económico ou político tenta sempre influenciar a narrativa pública. Não é novo na história. A diferença é que agora a influência pode circular em segundos e chegar a milhões de pessoas sem filtro.Perante isto há duas respostas possíveis. A resignação ou a lucidez.A lucidez começa por algo simples. Procurar várias fontes. Ler posições diferentes. Dar mais valor a quem mostra dados, contexto e responsabilidade do que a quem vive da frase fácil e da provocação.Nem todos terão essa capacidade ou essa disponibilidade. Por isso a responsabilidade do jornalismo , comentadores e jornalistas sérios continua a ser fundamental. Sem imprensa livre e exigente a democracia fica frágil.Mas há também uma dimensão individual. Cada pessoa que recusa partilhar uma mentira, cada pessoa que procura compreender antes de reagir, cada pessoa que exige mais rigor aos média está a fazer uma pequena resistência cívica.A luta é desigual. Sempre foi. A verdade raramente tem a força imediata da mentira. A mentira espalha se depressa porque é simples e emocional. A verdade exige tempo, contexto, pensamento.Mesmo assim a história mostra uma coisa. Sociedades que abandonam a verdade acabam prisioneiras da manipulação e do medo.Por isso manter a lucidez já é uma forma de resistência. Não cedo  ao ruído. Não abdico de princípios. Continuo a procurar o que é justo e verdadeiro mesmo quando o ambiente à volta empurra para o contrário. Isso nunca foi o caminho mais fácil. Mas muitas vezes é o único que preserva a dignidade. Não  prescindo disso , acreditem enquanto por aqui andar e como abomino a mentira e a trafulhice . Opiniões diferentes sim , trapaça e mentira não , mesmo aqueles que dizem que são mesmo amigos 


A dignidade de olhar para a realidade sem se vender à manipulação.

sexta-feira, março 06, 2026

 Fim de tarde ventosa na Figueira 


Lá fora está frio

O vento passa nas ruas

As árvores ficam quietas

O inverno faz o seu trabalho


Aqui dentro a casa está quente

Não só pelo fogo ou pelas paredes

Mas pelo silêncio tranquilo

Pelas memórias que vivem na mesa

Pelo tempo que abranda


Lá fora o mundo corre

Aqui dentro a vida respira


E às vezes é assim

No meio do frio do mundo

Basta uma casa

Um pouco de calor

E alguma paz para ficar. ❄️🔥


domingo, março 01, 2026

Ausência e proximidade

 Ausência e proximidade

Todos os dias acordamos com alguma coisa em mente e eu escrevo o que me vai na alma , sem preocupações estéticas , escrevo para mim . 

Sem plateia. Sem necessidade de aplauso.Noutros tempos havia diários. Cadernos guardados na gaveta, segredos dobrados em papel. Eu nunca os tive. A vida foi feita de folhas de Excel, relatórios, números certos, contas fechadas. Hoje escrevo o que me apetece. Troquei a precisão fria pela palavra que respira. É a arma que escolhi. Não fere ninguém, mas não pede licença.

Dizem que me exponho. Talvez. Mas quem já viveu o suficiente perde o medo do julgamento. Tenho tempo. Uso-o como quero. Escrever é uma forma de estar vivo.

Três filhas. Três caminhos. Cada uma com a sua pressa, a sua vida, os seus compromissos. Sei que gostam de mim. Sinto isso. Mas há uma verdade simples que me acompanha: um clique não é presença. Uma mensagem não é um abraço. A tecnologia encurtou distâncias físicas e, ao mesmo tempo, deixou espaços vazios no que realmente importa.

Há diferença entre amar e estar. Nem sempre coincidem. Não é maldade. É fragilidade humana. Mesmo assim dói.

Penso na minha mãe. Viúva cedo. Dois filhos pequenos. Fiquei até ao fim. Não por heroísmo mas por dever, por gratidão, por amor traduzido em presença concreta. Quem viu esforço não esquece. Quem recebeu cuidado aprende o peso da responsabilidade.

Hoje fala-se em outros tempos. Talvez sejam. Mas às vezes parece apenas uma justificação para a pressa permanente. Cada um corre pela sua pista. Carreira, projetos, contas, distrações. E nós os pais aprendemos a ocupar menos espaço, para não pareceremos exigentes.

Escrevo porque não quero desaparecer por dentro. É um exercício de lucidez. Digo a mim próprio que existo. Que sinto. Que penso. Que não sou apenas memória do que fui.

A idade traz perguntas silenciosas. Que lugar tenho na vida dos que amo. Não é vaidade. É necessidade de vínculo. Todo o ser humano precisa de sentir que conta para alguém.Talvez seja apenas isso. Humanidade imperfeita. Amor que nem sempre sabe traduzir-se em tempo. Continuo a escrever. Não para acusar. Não para pedir. Para me manter inteiro. Para que a minha voz não se apague dentro de mim.

Manhã de domingo calmo , com sol , a ver o mar , com o cafezinho matinal , com quem quero estar e a escrever para ocupar o tempo , desculpem qualquer coisinha e quem não gosta não perca tempo , porque o tempo pode ser curto 

De um lado a barbarie do outro a paz aparente

 O caminho faz-se caminhando

passo a passo

sem atalhos para a consciência


De um lado

a morte

a barbárie

a guerra a rasgar a carne do mundo


Do outro

uma paz aparente

varandas com sol

cafés cheios

vidas a correr como se nada fosse


É bom aproveitar

dizes

e é


Mas a paz que não olha para o sofrimento

é descanso vazio

é conforto sem honra


O mundo não é dividido por fronteiras

é dividido por escolhas


Caminhar é escolher

não a indiferença

mas a vida


Não o silêncio

mas a dignidade


Porque hoje é longe

amanhã pode ser aqui


E o caminho

faz-se caminhando

com consciência

com coragem

com humanidade


Coimbra e as castas

 


      Coimbra e as castas 

Falar de castas é falar de estruturas do poder acumulado ao longo de séculos. A Universidade de Coimbra não é apenas uma instituição de ensino. É o maior empregador qualificado da cidade, é produtora de prestígio simbólico, é rede de contactos nacionais e internacionais. Quem passa por ali integra um circuito que se estende aos tribunais, à administração pública, à política, à advocacia, à magistratura, à comunicação social. Isto cria continuidade de influência.Quando uma cidade depende fortemente de uma única instituição, torna-se uma elite orgânica. Não é necessariamente ilegal nem conspirativa. É estrutural. Professores recomendam alunos. Antigos alunos promovem antigos colegas. Conselhos gerais e fundações cruzam nomes repetidos. O capital académico transforma-se em capital social e depois em poder real.O problema surge quando essa elite se fecha. Quando o recrutamento é pouco transparente. Quando a progressão parece depender mais de proximidade do que de mérito. Quando os cargos circulam sempre entre os mesmos grupos. A perceção de casta nasce aí.Há também a dimensão económica. Coimbra perdeu indústria, perdeu peso empresarial , perdeu peso político  e sem tecido económico diversificado, a universidade torna-se ainda mais central. Quem não está nesse circuito sente menor mobilidade social. Jovens qualificados acabam por sair. Fica a dependência.Historicamente, a própria divisão simbólica entre estudantes e população local consolidou uma hierarquia cultural. A tradição académica tem valor. Mas quando tradição se transforma em barreira social, cria distância.Por outro lado, a universidade trouxe conhecimento, investigação, saúde, cultura. A saúde , os polos tecnológicos, a projeção internacional. Não se pode ignorar isso. O que está em causa não é a existência de uma instituição forte. É o equilíbrio de poder.Uma cidade democrática precisa de diversidade económica, transparência nos cargos públicos, participação cívica ativa, imprensa local forte, escrutínio real. Sem isso, qualquer núcleo dominante cristaliza.A questão central não é se Coimbra tem castas. É se existe mobilidade entre elas. Se um jovem de origem modesta consegue entrar, progredir e decidir. Se a influência serve o interesse comum ou se se protege a si própria.Castas não se combatem com ressentimento. Combatem-se com regras claras, concursos transparentes, limitação de mandatos, abertura à sociedade civil e cultura de prestação de contas.Sem igualdade de oportunidades, a tradição transforma-se em privilégio. E privilégio prolongado gera estagnação. E qual a razão deste texto , porque sinto isso , e porque sou um homem de pensamento livre sem a preocupação de agradar ou afrontar e porque me estou nas tintas para os críticos que por aqui aparecem e me criticam constantemente 

Manhã de domingo com sol , luz , mar e paz

 Manhã de domingo com sol, luz e mar


O sol levanta-se limpo

sem pedir licença a ninguém.

A luz abre o dia

como quem abre uma janela para dentro.


O mar respira fundo.

Vai e vem com firmeza,

sem pressa,

sem medo.


Na areia ficam marcas

que a água apaga com serenidade.

Lição simples

nada é definitivo,

nem a dor, nem a alegria.


O ar cheira a sal e a verdade.

Há crianças que riem,

há passos soltos,

há silêncio suficiente para pensar.


Numa manhã assim

o mundo parece possível.

A luz não é só claridade,

é consciência.


E o mar, vasto e inteiro,

recorda-nos que a liberdade

não é grito,

é espaço aberto para viver com respeito.