Conversa minha com o meu eu
Eu
Sentes que a velhice
te empurra para um canto.
Eu próprio
Empurra se eu deixar. A idade pesa, mas não me tira a cabeça nem a consciência.
Eu
Há dias em que parece que já não contas. Que o mundo anda depressa demais.
Eu próprio
O mundo sempre andou depressa para quem só olha para a superfície. Eu olho para o fundo. Já vi ciclos, entusiasmos e desilusões. Isso não é pouco.
Eu
Mas já não produzes como antes. Já não tens cargo, nem poder formal.
Eu próprio
Produzir não é só receber salário. Penso, escrevo, intervenho. Tenho memória. Tenho liberdade para dizer o que penso sem medo de perder carreira.
Eu
E a solidão. Não falas dela.
Eu próprio
Falo sim. Existe. Há silêncios longos. Mas também há escolha. Posso transformar silêncio em reflexão, ou em amargura. A decisão é minha.
Eu
Temes tornar-te irrelevante.
Eu próprio
Temo acomodar-me. Irrelevante é quem desiste de participar. Enquanto tiver lucidez e voz, não sou sobra de ninguém.
Eu
Então a velhice não é inutilidade.
Eu próprio
A inutilidade é um rótulo que outros colocam quando só valorizam força e velocidade. Eu valorizo consciência e coerência.
Eu
E o futuro.
Eu próprio
O futuro não é só dos novos. É também responsabilidade dos que já viveram. Se me calo, falho. Se participo, continuo presente.
Eu
No fundo, continuas a lutar.
Eu próprio
Sempre. Não contra a idade. Contra a indiferença.