terça-feira, fevereiro 10, 2026

Populismo e outras coisas

 Nos Estados Unidos, a disfunção política, social e institucional dos últimos anos não caiu do céu. Resulta de uma convergência clara entre o poder das big tech e o projeto político de Donald Trump.As big tech não são neutras. Controlam infraestruturas essenciais do espaço público digital. Plataformas onde se forma opinião, se mobiliza raiva, se espalha mentira e se transforma conflito em negócio. O seu modelo assenta em atenção, polarização e amplificação do que divide. Não é acidente. É estrutural. Algoritmos premiam choque, ressentimento e medo porque isso gera cliques, dados e lucro.Trump percebeu isso antes de muitos. Usou as plataformas como arma política direta. Falou por cima das instituições, dos media tradicionais e da mediação democrática. Transformou redes sociais em comícios permanentes. Normalizou a mentira, o insulto e a deslegitimação do adversário. Não criou a lógica das plataformas, mas explorou-a até ao limite.Houve cumplicidade. As empresas sabiam o que estava a acontecer. Sabiam do impacto na radicalização, na desinformação e na violência política. Preferiram crescer, vender publicidade e adiar responsabilidades. Só reagiram quando o custo reputacional e institucional se tornou demasiado alto. O resultado foi a erosão da confiança democrática. Eleições permanentemente sob suspeita. Instituições tratadas como inimigas. Ciência, jornalismo e justiça desacreditados. A ideia de verdade substituída por lealdade tribal.Trump não é um acidente. É um produto. Um produto de um ecossistema tecnológico sem regulação séria, de um capitalismo de vigilância sem limites e de elites económicas que aceitaram brincar com o fogo enquanto lucravam.A lição é simples. Democracia não sobrevive quando o espaço público é controlado por empresas privadas sem escrutínio e usado por líderes que vivem do caos. Sem regras, sem responsabilidade e sem ética, a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser arma.

Não é uma nova ordem mundial no sentido clássico. Não há um plano único, nem um centro de comando. O que existe é algo mais perigoso: uma desordem global que corrói a democracia por dentro.A democracia não cai de um dia para o outro. Vai sendo esvaziada. Mantêm-se eleições, parlamentos e tribunais, mas perde-se substância. A verdade deixa de contar. O medo passa a mandar. A política transforma-se em espetáculo permanente. É aqui que entram as big tech e líderes como Trump.O poder deslocou-se. Estados eleitos perderam capacidade face a plataformas privadas que controlam informação, dados e atenção. Essas empresas não respondem ao voto, não prestam contas e moldam comportamentos à escala global. Quando este poder se cruza com projetos autoritários, o risco é real.Trump representa a normalização do ataque à democracia em nome do povo. Deslegitimar eleições. Tratar opositores como inimigos. Enfraquecer imprensa, justiça e instituições independentes. Tudo isto já aconteceu dentro do quadro formal democrático. É assim que as democracias morrem hoje. Mas não é inevitável. A história mostra que a democracia resiste quando há regulação séria,  separação  de poderes, jornalismo forte e cidadãos informados. A União Europeia, com todas as suas falhas, é hoje um dos poucos espaços a tentar impor limites às plataformas e defender direitos.Portanto, não é o fim automático da democracia. É um ponto de rutura. Ou as sociedades recuperam controlo político sobre tecnologia, economia e informação, ou a democracia continuará a existir apenas como fachada. A escolha ainda existe. Mas o tempo não é infinito.A Europa está numa posição decisiva. Não lidera o poder tecnológico nem o militar, mas ainda tem algo que os outros estão a perder: uma ideia clara de limites, direitos e interesse público.O papel da Europa é político, não messiânico. Defender a democracia quando ela deixa de ser útil para os mais fortes. Regular onde outros desregulam. Proteger cidadãos quando o mercado os trata como produto.A União Europeia foi a primeira a enfrentar as big tech com regras concretas. Proteção de dados, limites ao abuso algorítmico, responsabilidade sobre conteúdos, concorrência. Não é perfeito, é lento e muitas vezes tímido, mas é real. Nos Estados Unidos regula-se pouco porque o poder económico manda. Na China controla-se tudo porque o Estado manda. A Europa tenta um terceiro caminho.O problema europeu é a falta de músculo político e unidade. Depende tecnologicamente dos EUA, energeticamente de fora, militarmente da NATO. E internamente cresce uma extrema-direita que copia o discurso trumpista e mina por dentro aquilo que diz defender.Se a Europa ceder ao medo, ao nacionalismo e à lógica do homem forte, torna-se irrelevante. Se alinhar com o modelo americano de desregulação total ou com o modelo autoritário, perde a alma.O papel da Europa é simples e difícil. Manter direitos quando dão trabalho. Defender regras quando incomodam. Provar que liberdade, igualdade e justiça social não são fraquezas. Se falhar, não haverá alternativa democrática à escala global. Se resistir, pode não dominar o mundo, mas evita que o mundo deslize para o cinismo autoritário.É verdade. A Europa está dividida e muitos dos seus líderes são fracos. Não por falta de inteligência, mas por falta de coragem política.A União Europeia foi construída para gerir consensos, não para enfrentar choques. Funciona bem em tempos normais. Em crise, revela limites. Decisões lentas, linguagem ambígua, medo de confronto com interesses económicos e com os Estados Unidos. Isso passa uma imagem de hesitação e alimenta a ideia de irrelevância.A divisão interna é real. Leste e Oeste. Norte e Sul. Países que viveram ditaduras recentes e outros que nunca as sentiram na pele. Estados que dependem de fundos europeus mas atacam o próprio projeto europeu. Esta fragmentação é explorada por potências externas e por forças populistas internas.Mas convém dizer isto sem ilusões nem derrotismo. A fraqueza europeia não é inevitável nem permanente. Resulta de escolhas políticas concretas. Falta liderança com visão comum. Falta assumir conflito quando ele é necessário. Falta dizer não a Washington quando os interesses europeus são sacrificados. Falta travar a extrema-direita com políticas sociais sérias, não com imitações do seu discurso.A Europa não precisa de homens fortes. Precisa de instituições fortes e líderes responsáveis. A história europeia mostra onde levam os salvadores da pátria. O risco não é a falta de força muscular. É a perda de sentido político.Se a Europa continuar a gerir o presente com medo do futuro, encolhe. Se aceitar o conflito democrático, investir na coesão social, regular o poder económico e defender a verdade, pode voltar a pesar. O problema não é não ter poder. É não decidir usá-lo.Não há solução mágica nem atalhos. O avanço do populismo combate-se com política a sério, não com slogans nem com moralismos, justiça social real. O populismo cresce onde há insegurança, salários baixos, serviços públicos degradados e sensação de abandono. Enquanto a política falar de números e não de vidas concretas, o terreno é deles. Estado social forte não é ideologia. É defesa da democracia e verdade e conflito claro. Fingir que todos os lados são iguais só legitima quem mente. A democracia tem de voltar a dizer o que é aceitável e o que não é. Mentira sistemática, ataque às instituições, racismo e ódio não são opiniões. São ameaças. Regular o poder económico e tecnológico. Sem enfrentar big tech, finança desregulada e concentração de riqueza, não há democracia funcional. Quem manda sem ser eleito tem de ser limitado por lei. Ponto.Lideranças com coragem. Não tecnocratas escondidos atrás de comunicados. Líderes que assumam escolhas, expliquem custos e enfrentem interesses instalados. A ausência de liderança cria espaço para os demagogos.Participação cívica e educação política. Democracia não é consumo passivo. Exige cidadãos informados, escola pública forte, jornalismo independente e memória histórica. Sem isso, o medo vence. Europa a sério. Mais integração onde faz sentido. Política industrial comum. Fiscalidade justa. Defesa comum. Coesão social. Sem isso, cada país sozinho é presa fácil de populistas e potências externas.O populismo não é uma força imparável. Alimenta-se do vazio, da cobardia e da desigualdade. Quando a democracia volta a proteger, a decidir e a falar verdade, o populismo perde o oxigénio. É difícil. Dá trabalho. Mas é a única saída que não acaba em autoritarismo disfarçado.


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