segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Votar ou não votar

 Dia de eleições 


Nunca tinha votado antes do 25 de Abril. Tinha vinte anos e outras preocupações. Andava desligado da política, mas não da vida. Já havia inquietações sociais, já havia medo. O vizinho da frente era da PIDE. Comprava a Seara Nova a meias com outro vizinho. Estava atento à possibilidade de ir para a guerra. A tropa acabou por não se concretizar. Inspeções a 19 de Abril de 1974. Passagem à reserva territorial. Sem cunhas, coisa rara nesses tempos.


Digo isto hoje por uma razão simples. Vou votar. E sabe bem. Sabe bem poder escolher. Sabe bem cumprir um dever que durante décadas nos foi negado.


Voto em quem acredito, mesmo sabendo que quase sempre me enganam. Admito sem rodeios que aqueles em quem voto nunca ganharam nada. Mesmo assim continuo. Chova ou faça sol, vou sempre. Teimosamente. Porque acredito que votar é uma obrigação cívica, não um favor que faço a ninguém.


Estou farto das promessas. Farto das palavras ocas. Farto de políticos que mentem. Mentem antes, durante e depois. Todos, sem exceção. Ainda assim, não abdico. Não desisto. Porque desistir é entregar tudo de mão beijada.


Vou hoje cumprir os meus deveres cívicos. Façam o mesmo. Não por entusiasmo, mas por responsabilidade. Porque a democracia não morre de repente. Vai-se gastando. E um dia, quando dermos por isso, as próximas eleições podem mesmo ser as últimas.

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