quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Conversa minha com o meu eu

 Conversa minha com o meu eu 


Eu

Sentes que a velhice 

 te empurra para um canto.


Eu próprio

Empurra se eu deixar. A idade pesa, mas não me tira a cabeça nem a consciência.


Eu

Há dias em que parece que já não contas. Que o mundo anda depressa demais.


Eu próprio

O mundo sempre andou depressa para quem só olha para a superfície. Eu olho para o fundo. Já vi ciclos, entusiasmos e desilusões. Isso não é pouco.


Eu

Mas já não produzes como antes. Já não tens cargo, nem poder formal.


Eu próprio

Produzir não é só receber salário. Penso, escrevo, intervenho. Tenho memória. Tenho liberdade para dizer o que penso sem medo de perder carreira.


Eu

E a solidão. Não falas dela.


Eu próprio

Falo sim. Existe. Há silêncios longos. Mas também há escolha. Posso transformar silêncio em reflexão, ou em amargura. A decisão é minha.


Eu

Temes tornar-te irrelevante.


Eu próprio

Temo acomodar-me. Irrelevante é quem desiste de participar. Enquanto tiver lucidez e voz, não sou sobra de ninguém.


Eu

Então a velhice não é inutilidade.


Eu próprio

A inutilidade é um rótulo que outros colocam quando só valorizam força e velocidade. Eu valorizo consciência e coerência.


Eu

E o futuro.


Eu próprio

O futuro não é só dos novos. É também responsabilidade dos que já viveram. Se me calo, falho. Se participo, continuo presente.


Eu

No fundo, continuas a lutar.


Eu próprio

Sempre. Não contra a idade. Contra a indiferença.

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