segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Sair ou desertar

 



Sair ou desertar

Estar numa organização não é um compromisso eterno. A melhor altura para sair é quando já não estamos bem. Sem dramas. Sem culpas. Sem acusações. Com lucidez. Aceitar que os ciclos acabam é um ato de maturidade, não de fraqueza.Sair não é um gesto contra alguém. Não é contra os amigos que ficam, nem contra as pessoas com quem partilhámos caminhos. É algo mais fundo. Uma ruptura com o papel, com a utilidade, com o sentido da própria organização. Quando deixamos de perceber para que serve, ou quando percebemos que já não serve aquilo em que acreditamos, algo essencial desaparece. A permanência passa a ser apenas formal.Muitas vezes ficamos não por convicção, mas por carência. Carência de amigos. Carência de espaços onde ainda seja possível conversar a sério, pensar, discordar, trocar ideias sem medo. Isso prende-nos. Mas também nos engana. Confunde pertença com sentido. Quando o tempo deixa de parecer infinito, essa pergunta pesa mais. Vale a pena ficar por hábito, por conforto, por receio do vazio. Ou vale mais sair com respeito e clareza, libertando tempo e energia para o que ainda faz sentido.Cortar não é falhar. É reconhecer limites. É escolher com honestidade. Às vezes, sair é o gesto mais leal que se pode ter consigo próprio e também com os outros.  Permanecer  sem acreditar é que seria uma forma de deslealdade.Esta não é uma decisão súbita nem impulsiva. É uma reflexão antiga, pensada e repensada, consciente da sua dificuldade. É uma decisão pessoal, não discutida, que me pertence por inteiro. E por isso mesmo é assumida sem ruído.A saída nunca será um fim. Será um recomeço. Porque fechar um ciclo com dignidade é, muitas vezes, a única forma de abrir outro com verdade.

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