segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Os marretas no peleiro

 Na mesa do canto do café

junta se a tertúlia dos velhos marretas

cada um com a sua verdade

mais dura que a madeira da bengala


Falam alto

como se o mundo dependesse

daquele ruído de chávenas

e da espuma já morna do café


Um cita governos

outro cita memórias

todos citam o passado

como se o passado fosse tribunal


Ali julga se tudo

o preço do pão

a falta de vergonha

a juventude distraída


Há quem bata com a mão na mesa

há quem sorria de lado

há quem finja indiferença

mas ninguém falta à chamada


São marretas sim

teimosos como pedra antiga

mas guardam nas rugas

mapas de outras lutas


Entre críticas e gargalhadas

há uma coisa séria

o medo de se tornarem silêncio

num mundo que já não os escuta


Quando a tarde cai

levantam se devagar

cada um leva a sua convicção

como quem leva um estandarte invisível


E no dia seguinte

voltam

porque a tertúlia não é só conversa

é resistência.

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