Na mesa do canto do café
junta se a tertúlia dos velhos marretas
cada um com a sua verdade
mais dura que a madeira da bengala
Falam alto
como se o mundo dependesse
daquele ruído de chávenas
e da espuma já morna do café
Um cita governos
outro cita memórias
todos citam o passado
como se o passado fosse tribunal
Ali julga se tudo
o preço do pão
a falta de vergonha
a juventude distraída
Há quem bata com a mão na mesa
há quem sorria de lado
há quem finja indiferença
mas ninguém falta à chamada
São marretas sim
teimosos como pedra antiga
mas guardam nas rugas
mapas de outras lutas
Entre críticas e gargalhadas
há uma coisa séria
o medo de se tornarem silêncio
num mundo que já não os escuta
Quando a tarde cai
levantam se devagar
cada um leva a sua convicção
como quem leva um estandarte invisível
E no dia seguinte
voltam
porque a tertúlia não é só conversa
é resistência.
Sem comentários:
Enviar um comentário