Os casos passam, o padrão fica
Pensar e pensar.
Porque as ideias não param. A cabeça fervilha com aquilo que vejo, com aquilo que leio, mas sobretudo com aquilo que ouço quando falo com pessoas comuns, pessoas que não fazem parte do meu círculo mais próximo. Felizmente, encontro muitas pessoas bem sucedidas, pessoas que lutaram, trabalharam e construíram a sua vida.
Não tenho inveja. Não acuso. Não sou juiz.
Tento perceber.
Tento perceber o país através dos casos que se foram acumulando ao longo dos anos. Casos que chegam às primeiras páginas, provocam indignação, alimentam debates, enchem os ecrãs durante semanas e depois desaparecem.
Os casos passam. O padrão fica.
Há dias em que tento lembrar os grandes casos que atravessaram a vida política, económica e institucional do nosso país.
E começo a fazer uma lista.
BPN. As ações de Cavaco Silva. Os submarinos. Face Oculta. Sócrates. Operação Marquês. BES e Espírito Santo. Banif. Vistos Gold. Raríssimas. Escária. TAP. Influencer. Tutti Frutti. Spinuviva. E agora Luís Neves.
Certamente há muitos outros de que neste momento não me lembro.
Mas talvez a questão mais importante não seja recordar todos os nomes.
É olhar para todos eles em conjunto.
Não quero dizer que todos estes casos são iguais. Não são. Não tiveram os mesmos protagonistas, não tiveram a mesma dimensão, não tiveram necessariamente irregularidades da mesma natureza e muitos tiveram desfechos completamente diferentes.
Também não quero transformar suspeitas em condenações.
Num Estado de direito, uma pessoa é inocente até prova em contrário. Para mim, isso é um princípio, não uma conveniência política.
Mas há uma coisa que não consigo deixar de pensar.
Ao longo de décadas, vamos assistindo sucessivamente a casos envolvendo política, grandes interesses económicos, instituições públicas, empresas, bancos, contratos, influência, decisões administrativas e relações entre pessoas com poder.
Mudam os governos.
Mudam os ministros.
Mudam os partidos.
Mudam os empresários.
Mudam os nomes dos processos.
Mas algumas perguntas permanecem exatamente as mesmas.
Quem conhecia quem?
Quem tinha acesso a quem?
Quem tomava as decisões?
Quem beneficiava?
Quem fiscalizava?
Quem sabia?
Quem não sabia?
E, sobretudo, porque é que tantas vezes só conhecemos determinadas histórias quando já passaram anos?
É isto que me incomoda.
Não é apenas o caso A, B ou C.
É a sensação de que Portugal tem uma memória muito curta.
Um caso ocupa os jornais durante semanas. Há debates, comentários, indignação, conferências de imprensa, acusações e defesas.
Depois aparece outro.
E o anterior desaparece.
Até que, anos mais tarde, já quase ninguém se lembra do que aconteceu.
E talvez seja precisamente aí que o sistema ganha.
Porque uma sociedade que esquece rapidamente é uma sociedade com dificuldade em exigir responsabilidades.
Não estou a falar apenas de responsabilidades criminais. Essas pertencem aos tribunais.
Falo também de responsabilidade política, responsabilidade institucional e responsabilidade moral.
Um ministro pode não cometer nenhum crime e, mesmo assim, ter responsabilidades políticas.
Um administrador pode não ser condenado e, mesmo assim, ter de explicar decisões.
Uma instituição pode cumprir formalmente a lei e, mesmo assim, deixar perguntas sem resposta.
E um jornalista pode informar sem mentir, mas também pode escolher aquilo que não investiga com a mesma intensidade.
É por isso que me preocupa quando vejo a política transformar tudo numa guerra entre partidos.
Porque esta questão é maior do que o PS, o PSD, o Chega, a esquerda ou a direita.
Os partidos passam.
O Estado fica.
As pessoas passam.
As instituições ficam.
E a democracia só funciona quando ninguém está acima do escrutínio.
Eu não quero viver num país onde se parte imediatamente para a condenação de alguém por razões políticas.
Mas também não quero viver num país onde a proximidade ao poder, ao dinheiro ou às instituições certas possa criar a sensação de que determinadas pessoas têm sempre mais portas abertas, mais tempo, mais recursos e mais possibilidades de defesa.
Entre a perseguição política e a impunidade existe uma coisa chamada Estado de direito.
É aí que quero estar.
Por isso continuo a juntar estes casos na minha memória.
Não para construir uma teoria da conspiração.
Não para dizer que existe uma mão invisível a controlar tudo.
Mas para tentar perceber se existe um padrão.
Um padrão de relações entre poder político, interesses económicos, influência e instituições.
Um padrão que merece ser estudado, investigado e explicado.
Porque talvez a verdadeira história de Portugal contemporâneo não esteja num único escândalo.
Talvez esteja na sucessão deles.
E é aqui que chego à conclusão que mais me incomoda.
No fim, muitas vezes, parecem perder sempre os mesmos.
Não necessariamente porque alguém tenha decidido que assim deve ser. Mas porque nem todos partem do mesmo lugar.
A justiça pode ser formalmente igual para todos, mas as condições para chegar à justiça não são necessariamente iguais.
O ensino é público, mas as oportunidades não são iguais.
A saúde é um direito, mas o acesso e a capacidade de procurar alternativas não são iguais.
Há quem tenha recursos para esperar, para recorrer, para contratar especialistas, para procurar a melhor solução.
E há quem simplesmente espere.
Espera por uma consulta.
Espera por uma resposta.
Espera por uma decisão.
Espera que alguém lhe abra uma porta.
E depois há aquilo que mais me incomoda: a sensação de que, para alguns, aparecem sempre soluções, contactos, oportunidades, relações e manobras dilatórias que o cidadão comum dificilmente consegue ter.
Não digo isto para condenar ninguém em particular.
Digo-o porque é uma perceção que existe na sociedade e que não pode ser ignorada.
Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições, tribunais, leis e instituições.
Mede-se também pela confiança que as pessoas têm nessas instituições.
E quando um cidadão começa a acreditar que existem dois países dentro do mesmo país, um para quem tem poder, dinheiro e relações e outro para quem apenas tem o seu trabalho, a sua reforma, a sua família e os seus direitos, alguma coisa está profundamente errada.
É por isso que continuo a fazer perguntas.
Quantos casos ainda serão necessários para percebermos que não basta mudar os protagonistas?
Também é preciso mudar aquilo que permite que determinadas relações de poder se repitam.
Eu não tenho todas as respostas.
Aliás, desconfio de quem diz ter.
Tenho perguntas.
Tenho memória.
E tenho o direito, como cidadão, de continuar a fazê-las.
Porque uma democracia saudável não tem medo das perguntas.
Tem medo é de um dia ninguém mais as fazer.
Depois de escrever este texto assaltou-me outra palavra “
A Cunha “, e o peso de ter amigos influentes nesta ou naquela área e a normalidade do pedido e a teia de interesses que se organiza como um polvo para simplificar processos , para fazer negócios