Ausência e proximidade
Todos os dias acordamos com alguma coisa em mente e eu escrevo o que me vai na alma , sem preocupações estéticas , escrevo para mim .
Sem plateia. Sem necessidade de aplauso.Noutros tempos havia diários. Cadernos guardados na gaveta, segredos dobrados em papel. Eu nunca os tive. A vida foi feita de folhas de Excel, relatórios, números certos, contas fechadas. Hoje escrevo o que me apetece. Troquei a precisão fria pela palavra que respira. É a arma que escolhi. Não fere ninguém, mas não pede licença.
Dizem que me exponho. Talvez. Mas quem já viveu o suficiente perde o medo do julgamento. Tenho tempo. Uso-o como quero. Escrever é uma forma de estar vivo.
Três filhas. Três caminhos. Cada uma com a sua pressa, a sua vida, os seus compromissos. Sei que gostam de mim. Sinto isso. Mas há uma verdade simples que me acompanha: um clique não é presença. Uma mensagem não é um abraço. A tecnologia encurtou distâncias físicas e, ao mesmo tempo, deixou espaços vazios no que realmente importa.
Há diferença entre amar e estar. Nem sempre coincidem. Não é maldade. É fragilidade humana. Mesmo assim dói.
Penso na minha mãe. Viúva cedo. Dois filhos pequenos. Fiquei até ao fim. Não por heroísmo mas por dever, por gratidão, por amor traduzido em presença concreta. Quem viu esforço não esquece. Quem recebeu cuidado aprende o peso da responsabilidade.
Hoje fala-se em outros tempos. Talvez sejam. Mas às vezes parece apenas uma justificação para a pressa permanente. Cada um corre pela sua pista. Carreira, projetos, contas, distrações. E nós os pais aprendemos a ocupar menos espaço, para não pareceremos exigentes.
Escrevo porque não quero desaparecer por dentro. É um exercício de lucidez. Digo a mim próprio que existo. Que sinto. Que penso. Que não sou apenas memória do que fui.
A idade traz perguntas silenciosas. Que lugar tenho na vida dos que amo. Não é vaidade. É necessidade de vínculo. Todo o ser humano precisa de sentir que conta para alguém.Talvez seja apenas isso. Humanidade imperfeita. Amor que nem sempre sabe traduzir-se em tempo. Continuo a escrever. Não para acusar. Não para pedir. Para me manter inteiro. Para que a minha voz não se apague dentro de mim.
Manhã de domingo calmo , com sol , a ver o mar , com o cafezinho matinal , com quem quero estar e a escrever para ocupar o tempo , desculpem qualquer coisinha e quem não gosta não perca tempo , porque o tempo pode ser curto
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