Hoje olho para trás sem ilusões.
Durante muito tempo achei que estava a escolher livremente. Caminhos, decisões, prioridades. Mas se for honesto comigo, o dinheiro esteve quase sempre ali, à frente. Não como ambição desmedida, mas como necessidade. Como condição. Como limite. Muitas vezes não escolhi o que queria, escolhi o que dava para fazer.
E isso deixa marcas.
A vida vai passando e vamos aprendendo a negociar connosco próprios. Dizemos que é só por agora. Que mais à frente compensamos. Que um dia vamos viver com mais tempo, mais calma, mais verdade. Mas esse dia nem sempre chega como imaginámos.
Não me arrependo de tudo. Fiz o que achei certo com o que tinha. Defendi quem era meu. Trabalhei. Aguentei. Caí e levantei-me. Isso ninguém me tira. Mas também não fecho os olhos ao que ficou por viver, ao que foi adiado, ao que foi sacrificado em nome de uma segurança que nunca é total.
Hoje percebo melhor.
O dinheiro faz falta. Muita. Dá estabilidade, evita humilhações, abre portas. Mas não resolve o essencial. Não substitui o tempo perdido. Não recompõe relações. Não devolve a leveza dos dias que passaram demasiado depressa.
O que fica, no fim, é mais simples e mais exigente.
A forma como tratámos os outros.
A forma como resistimos quando era mais fácil ceder.
A capacidade de manter valores quando o mundo puxava noutra direção.
Justiça, liberdade, dignidade. Palavras grandes, mas que se vivem nas coisas pequenas do dia a dia.
Hoje já não corro atrás de tudo. Escolho melhor. Dou mais valor ao que é verdadeiro. À família, à palavra, à consciência tranquila. E isso, curiosamente, não se compra.
Se há coisa que esta fase da vida me ensinou é isto
não vale tudo
E o pouco que vale mesmo a pena, esse não tem preço.
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