domingo, maio 24, 2026

Dia do cortejo

 


Quadra Popular Malandra


No Cortejo há brincadeira,

beijo roubado na brincadeira;

Coimbra finge ar de recato…

mas sabe bem da bandalheira.


Coimbra Finge Que Não Viu


Coimbra acorda cedo,

mas hoje faz de conta que não.

É dia de Cortejo:

a cidade põe tampões nos ouvidos

e um sorriso nos lábios,

como quem recebe visitas barulhentas

e diz que está tudo bem.


Os carros passam,

cada um mais absurdo que o anterior,

pintados com as cores das faculdades

como se a sabedoria viesse em pantone.

Lá em cima, futuros doutores

bebem como se estivessem a estudar

para um exame de resistência alcoólica.

E passam.

E acenam.

E tropeçam na própria importância.


Os pais aplaudem,

orgulhosos, emocionados,

como se ver o filho em cima de um carro

a beber às onze da manhã

fosse o auge da vida académica.

E talvez seja.

Quem sabe.


A cidade, coitada,

aguenta firme.

Finge que não vê a cerveja no chão,

os cânticos desafinados,

as filosofias de bêbedo

que duram até à próxima esquina.

Coimbra é paciente:

já viu gerações inteiras

a jurar que “é só hoje”.


E é verdade:

a loucura passa,

a bebedeira evapora-se,

o orgulho parental adormece.

Amanhã, todos acordam sérios,

responsáveis,

adultos outra vez.

Ou pelo menos tentam.


Coimbra, essa,

limpa o rosto,

estica as costas,

e volta ao normal 

como quem diz:

“Pronto, meus queridos,

já se divertiram.

Agora deixem-me respirar.



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