Quadra Popular Malandra
No Cortejo há brincadeira,
beijo roubado na brincadeira;
Coimbra finge ar de recato…
mas sabe bem da bandalheira.
Coimbra Finge Que Não Viu
Coimbra acorda cedo,
mas hoje faz de conta que não.
É dia de Cortejo:
a cidade põe tampões nos ouvidos
e um sorriso nos lábios,
como quem recebe visitas barulhentas
e diz que está tudo bem.
Os carros passam,
cada um mais absurdo que o anterior,
pintados com as cores das faculdades
como se a sabedoria viesse em pantone.
Lá em cima, futuros doutores
bebem como se estivessem a estudar
para um exame de resistência alcoólica.
E passam.
E acenam.
E tropeçam na própria importância.
Os pais aplaudem,
orgulhosos, emocionados,
como se ver o filho em cima de um carro
a beber às onze da manhã
fosse o auge da vida académica.
E talvez seja.
Quem sabe.
A cidade, coitada,
aguenta firme.
Finge que não vê a cerveja no chão,
os cânticos desafinados,
as filosofias de bêbedo
que duram até à próxima esquina.
Coimbra é paciente:
já viu gerações inteiras
a jurar que “é só hoje”.
E é verdade:
a loucura passa,
a bebedeira evapora-se,
o orgulho parental adormece.
Amanhã, todos acordam sérios,
responsáveis,
adultos outra vez.
Ou pelo menos tentam.
Coimbra, essa,
limpa o rosto,
estica as costas,
e volta ao normal
como quem diz:
“Pronto, meus queridos,
já se divertiram.
Agora deixem-me respirar.
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