De vez em quando volto a encontrar amigos que já partiram.
Não na rua, nem à mesa de um café qualquer.
Encontro-os dentro da memória.
Vejo-lhes o rosto com uma nitidez estranha, quase cruel.
Oiço as gargalhadas, as discussões, os silêncios.
Lembro-me das palavras que ficaram suspensas no ar sem sabermos que seriam das últimas.
E às vezes dou comigo a falar com eles.
Como se ainda estivessem aqui.
Como se fossem responder a qualquer momento com aquela frase que já conhecia de cor.
Não sei explicar isto a quem nunca perdeu amigos verdadeiros.
Há pessoas que partem fisicamente, mas continuam sentadas connosco em pequenos pedaços da vida.
Num banco de jardim.
Numa música antiga.
Num copo partilhado noutra época.
Num domingo mais silencioso.
Talvez seja esta a forma que o coração encontra para resistir ao desaparecimento.
Guardar vozes.
Guardar afectos.
Guardar presença onde já existe ausência.
E no fundo, enquanto continuarmos a lembrar-nos deles assim, talvez nunca partam completamente.
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