Este país não é para velhos,
dizem os que vendem o futuro
a preço de saldo.
Os velhos são um encargo,
um custo nas folhas de Excel do Ministério das Finanças,
uma linha vermelha
que os técnicos de Bruxelas
gostariam de apagar
com uma caneta invisível.
Este país não é para velhos,
porque os velhos lembram-se
de quando a saúde era um direito
e não um produto de luxo,
com o SNS a enfraquecer
e portas a fechar-se todos os dias.
Lembram-se de quando a pensão
significava dignidade
e não uma esmola calculada
por fórmulas frias
que transformam vidas
em estatística.
Este país não é para velhos,
porque os velhos sabem
que o 25 de Abril não foi feito para isto:
para haver crianças com fome
enquanto os bancos acumulam lucros;
para os jovens serem empurrados para a emigração
em busca de um salário justo;
para os mais velhos ficarem sós,
com a medicação racionada
e a esperança adiada
para o próximo Orçamento do Estado.
Este país não é para velhos,
porque os velhos são perigosos.
Sabem ler nas entrelinhas,
reconhecem a retórica vazia
quando se fala em “esforço partilhado”,
enquanto os mais ricos beneficiam
e os mais pobres suportam o peso maior.
Sabem que a austeridade
não é uma fatalidade.
É uma escolha política.
Sabem que há dinheiro
quando existe vontade de o encontrar.
Os jovens ouvem dizer
que o futuro lhes pertence.
Mas quem detém o poder
tem tido o cuidado de não o partilhar.
Ergueram muros de vidro e algoritmos,
cercas digitais onde muitos velhos
não têm senha,
não têm acesso,
não contam.
E nós, os velhos,
ficamos.
Não como pedintes,
não como um fardo,
mas como memória viva
de um país que alguns gostariam de apagar.
A pensão que não chega ao fim do mês
é uma greve silenciosa.
A solidão de muitos dias
é um protesto sem bandeira.
Cada poema escrito à noite,
cada palavra de indignação,
cada gesto de resistência,
é uma recusa em desistir.
Este país não é para velhos?
Então teremos de o transformar
num país para todos.
Porque, sem justiça para os mais velhos,
não haverá futuro para os mais novos.
Os velhos não são o passado.
Somos a memória,
a experiência
e a consciência crítica
que o poder nunca consegue calar.
E enquanto houver um velho
capaz de lembrar
o que foi prometido
e o que ficou por cumprir,
a revolução continuará inacabada.
E a esperança continuará viva.
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