Uma jovem a pedir na baixa da cidade.
Jovem obesa, aparentemente com algum atraso, grávida, sentada no chão, embalando o corpo para trás e para a frente, enquanto cantarolava músicas quase indecifráveis. À sua frente, uma pequena caixa para esmolas e um cartaz feito à mão onde se lia:
“Estou a pedir porque estou grávida. Estou a viver na rua…”
Não consegui ficar indiferente a uma situação destas.
Dei comigo a pensar: terá família? O que a levou até aqui? Que caminhos, abandonos, sofrimentos ou falhas a empurraram para esta realidade? O Estado terá feito tudo o que podia? E nós, sociedade, fazemos realmente alguma coisa além de passar ao lado?
Acabei por lhe dar uma esmola. Normalmente não dou. Mas naquele momento não foi a moeda que importou. O importante foi o choque de perceber como situações destas continuam a existir diante dos nossos olhos.
E depois há o mais inquietante: a indiferença. Uns passam e nem olham, como se fosse uma paisagem normal da cidade. Outros olham por segundos e seguem caminho, talvez para não se sentirem desconfortáveis. Como é possível habituarmo-nos à miséria humana?
Vivemos numa sociedade onde uns têm tanto e outros não têm absolutamente nada. Onde se fala de progresso, crescimento e modernidade, enquanto uma jovem grávida, claramente vulnerável, tenta sobreviver sentada numa rua qualquer à espera que alguém repare nela.
O que mais me ficou não foi a esmola que dei. Foi a pergunta que continua dentro de mim:
que sociedade é esta quando a dor dos mais frágeis já quase não nos incomoda?
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