Hoje lembrei-me de uma história antiga, nem sei bem porquê.
Tinha um colega chamado Manel, entre amigos conhecido como Manel Serapilheira. Já nem sei se escrevo bem, mas era assim que lhe chamávamos. Era daqueles adeptos ferrenhos, quase doentes, do Salgueiros. Futebol vivido com o corpo todo, sem filtros nem moderação.
O cão dele era uma espécie de relógio fiel. Andava sempre pelo pátio, à espera, sobretudo nos dias de jogo, como se percebesse qualquer coisa do mundo humano que nós fingimos que ele não entende.
Dizem que os cães não distinguem se o dono chega triste ou feliz. Pois… histórias dessas são bonitas para quem nunca viu a realidade de perto.
O Manel bebia uns copos valentes. E quando o Salgueiros perdia e ele chegava a casa carregado da derrota, a frustração tinha sempre destino certo. O cão acabava por pagar uma conta que não era dele. Levava no lombo.
Hoje olho para isto com outra idade e outra cabeça. Era uma história dura, sem poesia nenhuma, só vida crua daquela altura. Não sei se o Manel ainda anda por aí para confirmar isto ou para o negar. Mas ficou-me na memória como ficam as coisas que não encaixam bem naquilo que hoje consideramos aceitável.
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