segunda-feira, fevereiro 16, 2026

 Há um ditado antigo que diz

que o sono dos justos é leve e tranquilo.

Eu penso nisso quando te vejo dormir, Manelito.


Dormes com as mãos abertas

como quem confia no mundo.

Respiras devagar,

como se o tempo tivesse parado só para ti.


Que o teu sono seja sempre assim,

limpo de medos,

livre de ruídos,

protegido da pressa e da maldade.


Que cresças com a mesma serenidade

com que agora fechas os olhos,

certo de que há braços que te guardam

e valores que te orientam.


Dorme, Manelito.

Que a paz te acompanhe

hoje, amanhã

e em todos os dias da tua vida.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Gostar do poleiro

 Gostar do 


Gostam do poleiro

do tacho, do cartão partidário

da porta giratória


Lá de cima falam de contas certas

com a saúde em lista de espera 

e a habitação fora do alcance 



Pedem sacrifícios

sempre aos mesmos

salários baixos, pensões contadas


Chamam estabilidade

à resignação

chamam consenso

ao medo de perder o lugar


Prometem Abril em campanha

e governam Novembro

cinzento, obediente


Quando o povo protesta

dizem que não há alternativa

e passam a mão

pelo bolso dos de sempre




Violas paradas

 Sem  enfeites nem rodeios:


Violas paradas


As violas estão paradas

não por falta de mãos

mas por falta de chão


Quem tocava emigrou

quem ficou cala

porque tocar já não chega

para viver


As cordas ainda sabem

as modas antigas

o suor

a dignidade


Mas o silêncio pesa mais

quando o trabalho não vale

quando a cultura é adorno

e não sustento


Violas paradas

num país que se diz inteiro

mas deixa morrer

o que o fez ser povo




Dia de chuva exterior e interior

 Tempo de chuva

Tempo de solidão


A chuva cai sem pedir licença

lava as ruas

não lava o vazio


As horas arrastam-se lentas

como gotas presas no vidro

uma

duas

mil vezes o mesmo silêncio


Dentro de casa

o tempo pesa

os relógios fingem que andam

mas tudo está parado


A solidão não faz barulho

instala-se

senta-se ao lado

e fica


Chove lá fora

e cá dentro também


Populismo e outras coisas

 Nos Estados Unidos, a disfunção política, social e institucional dos últimos anos não caiu do céu. Resulta de uma convergência clara entre o poder das big tech e o projeto político de Donald Trump.As big tech não são neutras. Controlam infraestruturas essenciais do espaço público digital. Plataformas onde se forma opinião, se mobiliza raiva, se espalha mentira e se transforma conflito em negócio. O seu modelo assenta em atenção, polarização e amplificação do que divide. Não é acidente. É estrutural. Algoritmos premiam choque, ressentimento e medo porque isso gera cliques, dados e lucro.Trump percebeu isso antes de muitos. Usou as plataformas como arma política direta. Falou por cima das instituições, dos media tradicionais e da mediação democrática. Transformou redes sociais em comícios permanentes. Normalizou a mentira, o insulto e a deslegitimação do adversário. Não criou a lógica das plataformas, mas explorou-a até ao limite.Houve cumplicidade. As empresas sabiam o que estava a acontecer. Sabiam do impacto na radicalização, na desinformação e na violência política. Preferiram crescer, vender publicidade e adiar responsabilidades. Só reagiram quando o custo reputacional e institucional se tornou demasiado alto. O resultado foi a erosão da confiança democrática. Eleições permanentemente sob suspeita. Instituições tratadas como inimigas. Ciência, jornalismo e justiça desacreditados. A ideia de verdade substituída por lealdade tribal.Trump não é um acidente. É um produto. Um produto de um ecossistema tecnológico sem regulação séria, de um capitalismo de vigilância sem limites e de elites económicas que aceitaram brincar com o fogo enquanto lucravam.A lição é simples. Democracia não sobrevive quando o espaço público é controlado por empresas privadas sem escrutínio e usado por líderes que vivem do caos. Sem regras, sem responsabilidade e sem ética, a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser arma.

Não é uma nova ordem mundial no sentido clássico. Não há um plano único, nem um centro de comando. O que existe é algo mais perigoso: uma desordem global que corrói a democracia por dentro.A democracia não cai de um dia para o outro. Vai sendo esvaziada. Mantêm-se eleições, parlamentos e tribunais, mas perde-se substância. A verdade deixa de contar. O medo passa a mandar. A política transforma-se em espetáculo permanente. É aqui que entram as big tech e líderes como Trump.O poder deslocou-se. Estados eleitos perderam capacidade face a plataformas privadas que controlam informação, dados e atenção. Essas empresas não respondem ao voto, não prestam contas e moldam comportamentos à escala global. Quando este poder se cruza com projetos autoritários, o risco é real.Trump representa a normalização do ataque à democracia em nome do povo. Deslegitimar eleições. Tratar opositores como inimigos. Enfraquecer imprensa, justiça e instituições independentes. Tudo isto já aconteceu dentro do quadro formal democrático. É assim que as democracias morrem hoje. Mas não é inevitável. A história mostra que a democracia resiste quando há regulação séria,  separação  de poderes, jornalismo forte e cidadãos informados. A União Europeia, com todas as suas falhas, é hoje um dos poucos espaços a tentar impor limites às plataformas e defender direitos.Portanto, não é o fim automático da democracia. É um ponto de rutura. Ou as sociedades recuperam controlo político sobre tecnologia, economia e informação, ou a democracia continuará a existir apenas como fachada. A escolha ainda existe. Mas o tempo não é infinito.A Europa está numa posição decisiva. Não lidera o poder tecnológico nem o militar, mas ainda tem algo que os outros estão a perder: uma ideia clara de limites, direitos e interesse público.O papel da Europa é político, não messiânico. Defender a democracia quando ela deixa de ser útil para os mais fortes. Regular onde outros desregulam. Proteger cidadãos quando o mercado os trata como produto.A União Europeia foi a primeira a enfrentar as big tech com regras concretas. Proteção de dados, limites ao abuso algorítmico, responsabilidade sobre conteúdos, concorrência. Não é perfeito, é lento e muitas vezes tímido, mas é real. Nos Estados Unidos regula-se pouco porque o poder económico manda. Na China controla-se tudo porque o Estado manda. A Europa tenta um terceiro caminho.O problema europeu é a falta de músculo político e unidade. Depende tecnologicamente dos EUA, energeticamente de fora, militarmente da NATO. E internamente cresce uma extrema-direita que copia o discurso trumpista e mina por dentro aquilo que diz defender.Se a Europa ceder ao medo, ao nacionalismo e à lógica do homem forte, torna-se irrelevante. Se alinhar com o modelo americano de desregulação total ou com o modelo autoritário, perde a alma.O papel da Europa é simples e difícil. Manter direitos quando dão trabalho. Defender regras quando incomodam. Provar que liberdade, igualdade e justiça social não são fraquezas. Se falhar, não haverá alternativa democrática à escala global. Se resistir, pode não dominar o mundo, mas evita que o mundo deslize para o cinismo autoritário.É verdade. A Europa está dividida e muitos dos seus líderes são fracos. Não por falta de inteligência, mas por falta de coragem política.A União Europeia foi construída para gerir consensos, não para enfrentar choques. Funciona bem em tempos normais. Em crise, revela limites. Decisões lentas, linguagem ambígua, medo de confronto com interesses económicos e com os Estados Unidos. Isso passa uma imagem de hesitação e alimenta a ideia de irrelevância.A divisão interna é real. Leste e Oeste. Norte e Sul. Países que viveram ditaduras recentes e outros que nunca as sentiram na pele. Estados que dependem de fundos europeus mas atacam o próprio projeto europeu. Esta fragmentação é explorada por potências externas e por forças populistas internas.Mas convém dizer isto sem ilusões nem derrotismo. A fraqueza europeia não é inevitável nem permanente. Resulta de escolhas políticas concretas. Falta liderança com visão comum. Falta assumir conflito quando ele é necessário. Falta dizer não a Washington quando os interesses europeus são sacrificados. Falta travar a extrema-direita com políticas sociais sérias, não com imitações do seu discurso.A Europa não precisa de homens fortes. Precisa de instituições fortes e líderes responsáveis. A história europeia mostra onde levam os salvadores da pátria. O risco não é a falta de força muscular. É a perda de sentido político.Se a Europa continuar a gerir o presente com medo do futuro, encolhe. Se aceitar o conflito democrático, investir na coesão social, regular o poder económico e defender a verdade, pode voltar a pesar. O problema não é não ter poder. É não decidir usá-lo.Não há solução mágica nem atalhos. O avanço do populismo combate-se com política a sério, não com slogans nem com moralismos, justiça social real. O populismo cresce onde há insegurança, salários baixos, serviços públicos degradados e sensação de abandono. Enquanto a política falar de números e não de vidas concretas, o terreno é deles. Estado social forte não é ideologia. É defesa da democracia e verdade e conflito claro. Fingir que todos os lados são iguais só legitima quem mente. A democracia tem de voltar a dizer o que é aceitável e o que não é. Mentira sistemática, ataque às instituições, racismo e ódio não são opiniões. São ameaças. Regular o poder económico e tecnológico. Sem enfrentar big tech, finança desregulada e concentração de riqueza, não há democracia funcional. Quem manda sem ser eleito tem de ser limitado por lei. Ponto.Lideranças com coragem. Não tecnocratas escondidos atrás de comunicados. Líderes que assumam escolhas, expliquem custos e enfrentem interesses instalados. A ausência de liderança cria espaço para os demagogos.Participação cívica e educação política. Democracia não é consumo passivo. Exige cidadãos informados, escola pública forte, jornalismo independente e memória histórica. Sem isso, o medo vence. Europa a sério. Mais integração onde faz sentido. Política industrial comum. Fiscalidade justa. Defesa comum. Coesão social. Sem isso, cada país sozinho é presa fácil de populistas e potências externas.O populismo não é uma força imparável. Alimenta-se do vazio, da cobardia e da desigualdade. Quando a democracia volta a proteger, a decidir e a falar verdade, o populismo perde o oxigénio. É difícil. Dá trabalho. Mas é a única saída que não acaba em autoritarismo disfarçado.


Ódio e violência social e o ICE

Radicalização como projeto político

A radicalização deixou de ser um efeito colateral e passou a ser um instrumento. Alimenta-se a ideia de ameaça permanente para manter mobilizada uma base fiel. O debate político transforma-se numa luta existencial. Já não há adversários, há inimigos.Questão ideológica reduzida ao bem contra o mal

A realidade é simplificada de forma grosseira. O país é dividido entre os bons e os maus. Quem discorda é tratado como traidor, antipatriota ou corrupto. Esta lógica elimina o compromisso democrático e legitima qualquer excesso em nome de uma suposta salvação nacional.

 ICE será a guarda  pretoriana do regime

Surgem grupos políticos, mediáticos e sociais que funcionam como força de proteção do líder e da narrativa. Não defendem instituições nem Constituição. Defendem pessoas, símbolos e ressentimentos. Justificam abusos, relativizam crimes e normalizam a violência verbal e física.

Clima de ódio e violência social

O discurso político contamina o quotidiano. A desconfiança instala-se entre vizinhos, colegas, famílias. A violência simbólica abre caminho à violência real. Ataques, ameaças e intimidação tornam-se aceitáveis porque o outro deixa de ser visto como cidadão.

Radicalização interna e territorial

A narrativa de que o problema está apenas em certos estados, cidades ou eleitores cria uma geografia do inimigo. Nos Estados Unidos isso é visível na demonização dos estados democratas, apresentados como decadentes, perigosos ou ilegítimos. O país deixa de ser um todo e passa a ser um campo de batalha interno.

Emigração e fuga interna

Quando o clima político se torna irrespirável, quem pode sai. Há emigração externa, mas também migração interna por medo, insegurança ou rejeição do ambiente social. Isto empobrece a democracia e concentra ainda mais as bolhas ideológicas.

Modelo de construção de um regime autocrático

O processo repete padrões conhecidos.

Deslegitimação da imprensa e da justiça

Ataque sistemático às instituições

Culto da personalidade

Polarização extrema

Normalização da mentira

Aceitação da violência como resposta política

Nada disto surge de um dia para o outro. Avança passo a passo, sempre apresentado como defesa da liberdade, da ordem ou da nação.

Conclusão

O que se passa nos Estados Unidos não é apenas uma crise política. É uma crise moral e democrática. Quando o ódio organiza identidades e a política abandona regras básicas de convivência, o caminho para a autocracia fica aberto. A história mostra que ignorar estes sinais tem sempre um custo alto.

Dedicado a um amigo

 


Amigo,


Sei que a doença pesa. Sei que há dias difíceis, limitações reais, cansaço e medo. Não estou a fingir que isso não existe. Existe. E é sério.


Mas também sei isto: fechar-te em casa não te protege. Só te encolhe o mundo. O isolamento não cura, não fortalece, não resolve. Só adia a vida.


Tu não deixaste de ser pessoa por estares doente. Não deixaste de ter direito a conviver, a rir, a discutir, a estar com os outros. As limitações impõem cuidados, não impõem desaparecimento.


Ninguém te pede heroísmos. Ninguém te pede que ignores o que sentes. Pede-se apenas que não transformes a doença na tua identidade inteira. Que saias um pouco. Que apanhes ar. Que vejas gente. Que continues a existir fora das quatro paredes.A vida não espera que estejas perfeito. Espera apenas que apareças.Não estou aqui para te julgar. Estou aqui porque me importo. Porque prefiro incomodar-te a perder-te. Porque a amizade também é isto: chamar à razão quando o medo começa a mandar.Não estás sozinho. Mas tens de dar o passo. Um de cada vez. O mundo ainda é teu. Não o entregues ao silêncio.


Votar sempre em consciência


O ponto de partida tem de ser simples. Um voto é um ato político, não um diagnóstico moral da pessoa inteira. Confundir uma escolha circunstancial com a essência de alguém é um erro lógico e ético.

As pessoas não mudam de carácter por depositarem um boletim diferente. O mesmo indivíduo pode, ao longo da vida, votar BE, PCP, PS, PSD ou Ventura, movido por razões distintas em momentos distintos. Medo, revolta, desilusão, protesto, experiência pessoal. Nada disso apaga automaticamente valores como honestidade, solidariedade ou sentido de justiça.

Quando transformamos o voto num rótulo moral absoluto, cometemos duas falhas. Primeiro, elevamos o nosso juízo particular a verdade universal, ignorando o nosso próprio viés . Segundo, deixamos de compreender a realidade política, porque trocamos análise por condenação.O desacordo político é, por natureza, relativo e contextual. A prova disso é que pessoas igualmente informadas e de boa fé avaliam de forma oposta fenómenos como Ventura, BE ou PCP. Se o juízo fosse absoluto, essa divergência não existiria.Dizer que votar no BE não faz de ninguém uma má pessoa, mas que votar Ventura faz, é incoerente do ponto de vista racional. Revela mais sobre a nossa necessidade de superioridade moral do que sobre quem vota.A pergunta politicamente séria não é quem são essas pessoas, mas porquê. O que falhou no sistema político, social e económico para que uma parte da população veja naquela opção uma resposta. Que frustrações não foram tratadas. Que problemas foram ignorados. Que discursos ficaram vazios. Desumanizar os eleitores não combate o fenómeno. Apenas o alimenta. A democracia enfraquece quando substituímos compreensão por julgamento moral e crítica política por insulto.Isto não significa aceitar ideias que consideramos erradas. Significa recusar a tentação fácil de reduzir pessoas a votos. Esse é um princípio básico de respeito, lucidez e maturidade democrática.

Spinuvivando

 Lá vão eles de fato preto e gravata preta

Ar fechado, passo ensaiado

As televisões sempre perto

À espera do silêncio certo


Não choram, representam

A dor é medida, controlada

Cada olhar é um comunicado

Cada gesto, uma encenação


O luto vira palco

A morte, oportunidade

Falam baixo para parecer respeito

Mas pensam alto em proveito


Passam sérios, importantes

Graves como a ocasião exige

O povo vê, a câmara grava

E a verdade fica fora do enquadramento


Fato preto, gravata preta

Consciência branca

E no fim do cortejo

Segue tudo igual

O sucesso dá muito trabalho

 O sucesso dá muito trabalho


Não cai do céu

Não é sorte

Não é talento puro


É levantar quando dói

É insistir quando ninguém vê

É errar, assumir, corrigir


É disciplina sem aplauso

É cansaço acumulado

É dizer não ao fácil


O sucesso cobra tempo

Cobra escolhas

Cobra solidão


E não perdoa desculpas


Por isso poucos chegam

Não por falta de capacidade

Mas por falta de coragem para aguentar o caminho

Socialismo

 



Socialismo” é daquelas palavras empurradas para o canto, tratada como fantasma de outro tempo. Falam dela como ameaça, nunca como memória do que conquistámos juntos.   Entre PS e PSD já quase só mudam as caras e o slogan. A vida real fica para segundo plano, enquanto se trocam promessas de mercado livre, menos Estado, mais “eficiência”, como se a sociedade fosse apenas uma empresa à procura de lucro.   Até que vem a ventania. O telhado voa, a rua alaga, o fogo aproxima-se. E, de repente, já ninguém pergunta pelo “empreendedorismo”: querem-se ambulâncias, bombeiros, escolas que acolham, serviços públicos que respondam. Quer-se alguém que não deixe ninguém cair.  Chamam-lhe socialismo, como se fosse um insulto. Mas, nesses dias de medo, não é ideologia: é só a lembrança de que ninguém se salva sozinho. E de que a tal palavra proibida é, talvez, outra forma de dizer: não te vamos deixar para trás.  

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Votar ou não votar

 Dia de eleições 


Nunca tinha votado antes do 25 de Abril. Tinha vinte anos e outras preocupações. Andava desligado da política, mas não da vida. Já havia inquietações sociais, já havia medo. O vizinho da frente era da PIDE. Comprava a Seara Nova a meias com outro vizinho. Estava atento à possibilidade de ir para a guerra. A tropa acabou por não se concretizar. Inspeções a 19 de Abril de 1974. Passagem à reserva territorial. Sem cunhas, coisa rara nesses tempos.


Digo isto hoje por uma razão simples. Vou votar. E sabe bem. Sabe bem poder escolher. Sabe bem cumprir um dever que durante décadas nos foi negado.


Voto em quem acredito, mesmo sabendo que quase sempre me enganam. Admito sem rodeios que aqueles em quem voto nunca ganharam nada. Mesmo assim continuo. Chova ou faça sol, vou sempre. Teimosamente. Porque acredito que votar é uma obrigação cívica, não um favor que faço a ninguém.


Estou farto das promessas. Farto das palavras ocas. Farto de políticos que mentem. Mentem antes, durante e depois. Todos, sem exceção. Ainda assim, não abdico. Não desisto. Porque desistir é entregar tudo de mão beijada.


Vou hoje cumprir os meus deveres cívicos. Façam o mesmo. Não por entusiasmo, mas por responsabilidade. Porque a democracia não morre de repente. Vai-se gastando. E um dia, quando dermos por isso, as próximas eleições podem mesmo ser as últimas.

A Fábrica -atelier

 



Coimbra precisa de espaços onde se possa estar, ler, pensar, conversar, beber um copo em companhia. Espaços onde a arte acontece de verdade. Onde há teatro, música, apresentações de livros, pintura, artistas no geral, coros, gente viva.

Alguns chamam-lhes espaços alternativos, como se isso fosse um rótulo menor. Não é. É um estigma. Estes espaços são plurais, abertos, diferentes. São necessários.


Há quem diga que em Coimbra não se passa nada. A pergunta é simples. Quantas vezes foram a sítios como A Fábrica. Quantas vezes saíram do conforto da queixa para a curiosidade de participar.


Uma cidade que não valoriza a arte e os artistas empobrece. Empobrece culturalmente, socialmente e politicamente. A cidade, a sociedade e os autarcas deviam olhar com mais atenção e mais respeito para quem cria, para quem arrisca, para quem constrói estes lugares contra a indiferença.


A Fábrica é um desses lugares. Um espaço de encontro, de pensamento, de liberdade. Hoje há Vegan Market. Há vida. Há pessoas. Há cultura.


Parabéns, Elia. E parabéns a quem faz acontecer quando tantos preferem dizer que não acontece nada.

Sair ou desertar

 



Sair ou desertar

Estar numa organização não é um compromisso eterno. A melhor altura para sair é quando já não estamos bem. Sem dramas. Sem culpas. Sem acusações. Com lucidez. Aceitar que os ciclos acabam é um ato de maturidade, não de fraqueza.Sair não é um gesto contra alguém. Não é contra os amigos que ficam, nem contra as pessoas com quem partilhámos caminhos. É algo mais fundo. Uma ruptura com o papel, com a utilidade, com o sentido da própria organização. Quando deixamos de perceber para que serve, ou quando percebemos que já não serve aquilo em que acreditamos, algo essencial desaparece. A permanência passa a ser apenas formal.Muitas vezes ficamos não por convicção, mas por carência. Carência de amigos. Carência de espaços onde ainda seja possível conversar a sério, pensar, discordar, trocar ideias sem medo. Isso prende-nos. Mas também nos engana. Confunde pertença com sentido. Quando o tempo deixa de parecer infinito, essa pergunta pesa mais. Vale a pena ficar por hábito, por conforto, por receio do vazio. Ou vale mais sair com respeito e clareza, libertando tempo e energia para o que ainda faz sentido.Cortar não é falhar. É reconhecer limites. É escolher com honestidade. Às vezes, sair é o gesto mais leal que se pode ter consigo próprio e também com os outros.  Permanecer  sem acreditar é que seria uma forma de deslealdade.Esta não é uma decisão súbita nem impulsiva. É uma reflexão antiga, pensada e repensada, consciente da sua dificuldade. É uma decisão pessoal, não discutida, que me pertence por inteiro. E por isso mesmo é assumida sem ruído.A saída nunca será um fim. Será um recomeço. Porque fechar um ciclo com dignidade é, muitas vezes, a única forma de abrir outro com verdade.

Informação e desinformação

 Os media hoje vivem num conflito permanente entre informar e disputar atenção. A lógica do tempo longo, da verificação e do contexto foi empurrada para segundo plano. O que manda é a velocidade, o impacto, o clique. Isso abriu espaço à desinformação, mas também a uma informação fraca, incompleta ou enviesada que se apresenta como neutra.A informação continua a existir. Há bons jornalistas, bom trabalho de investigação e sentido de responsabilidade. O problema é o ruído. A desinformação não precisa de ser uma mentira descarada. Basta omitir partes, exagerar outras, escolher títulos que empurram o leitor para uma conclusão pré-fabricada. A fronteira entre informar e manipular ficou mais difusa.O papel dos jornalistas é hoje mais exigente do que nunca. Não basta relatar factos. É preciso explicar, contextualizar, resistir à pressão política, económica e editorial. Também é preciso assumir limites e conflitos de interesse. A ideia do jornalista como mero transmissor neutro é uma ilusão. O que se pode exigir é honestidade intelectual, rigor e transparência.Comentadores isentos não existem. Cada comentador traz uma visão do mundo, interesses, ideologia, lealdades e ressentimentos. O problema não é terem posição. O problema é fingirem que não têm. Quando a opinião se mascara de análise técnica, o público é enganado.As redes sociais mudaram tudo. Democratizaram a palavra, mas destruíram filtros. Todos falam, poucos verificam. Emoção vale mais do que verdade. Indignação espalha-se mais depressa do que factos. Mentiras simples viajam melhor do que explicações complexas.Os algoritmos não são neutros. São desenhados para maximizar tempo de ecrã, lucro e influência. Mostram-nos o que confirma crenças, reforça medos e radicaliza posições. Criam bolhas, alimentam conflitos e empurram narrativas que servem interesses económicos e políticos. Não nos informam. Condicionam-nos.Nada disto é inevitável, mas exige literacia, espírito crítico e coragem para desconfiar. A democracia depende disso. Sem cidadãos informados, o espaço fica livre para a manipulação, o autoritarismo e o cinismo. Aqui não há neutralidade possível. Ou se está do lado do esclarecimento, ou se é parte do problema.

Lesley e agora a Marta

 


Primeiro foi o Lesley. Agora a Marta. Amanhã não sei.

Houve estragos. Alguns. Nada comparável ao que se vê noutros lados.


Fica a sensação de impotência perante a força do tempo. Não controlamos a natureza e ela lembra-nos isso sem pedir licença.


E, ainda assim, sinto uma calma estranha. Um silêncio interior. Talvez porque penso em Gaza, na Ucrânia, no Sudão, no Minnesota e em tantos outros lugares onde a destruição não vem do clima, mas da desumanidade, da ganância, do ódio, da mentira e da desinformação.


Penso também em quem nega as alterações climáticas e em quem tenta normalizar o que está a acontecer no mundo. Como se fosse inevitável. Como se não houvesse responsabilidade. Há escolhas. E há consequências.


No meio disto tudo, reconheço-me como um privilegiado. Não por mérito especial, mas por circunstância. Essa consciência não traz culpa. Traz dever.


Hoje, depois de uma noite bem dormida, senti vontade de escrever. Sem pretensão. Sem mágoa. Com esperança.


Num dia especial, fica este registo. Simples. Humano. Necessário.



Eu e a amizade canina

 


Primeiro foi o Joca. Agora é o Hermes.


A tristeza no olhar quando saio de casa.

A alegria descontrolada quando chego.

Saltos, beijos, uma festa sem cálculo.


Isto tem um valor que só quem vive com animais entende.


O amor canino talvez se aproxime do amor pelos nossos.

As minhas filhas e netos não vão gostar desta comparação, mas paciência.

A vida também é isto. Dizer o que se sente.


Depois do enfarte comecei a valorizar outras coisas.

Os amigos diminuíram. Alguns afastaram-se. Outros fugiram.

Ficaram os de sempre. Esses não falham. Mesmo quando não concordamos.


Aqui entra outra coisa importante.

O sentido de utilidade.

Saber que somos necessários a alguém. Todos os dias.


Todos os dias penso em escrever.

Quase sempre esqueço-me.

Agora acordo e escrevo tópicos.


Escrevo para mim.

Escrevo para os meus.

Não por vaidade nem por pretensão.


Escrevo para memória futura.

Para que um dia saibam como eu via a vida.

E quem eu fui, quando abrandei e comecei a prestar atenção ao que realmente importa.


Será que o tempo faz sentido

 Será que o tempo faz sentido 


Chega um tempo em que o passado deixa de ser memória solta e passa a ser matéria de balanço. Não por fraqueza, mas por consciência. Quem nunca se interroga vive à superfície.

Os amores e os desamores não são erros nem acertos. São marcas. As boas e as más decisões não se anulam. Constroem quem somos. As participações, políticas ou outras, mesmo quando falharam, deram aprendizagem, deram chão, deram sentido em determinado momento. Nada disso é desperdício.

Esses pensamentos martelam -me porque estou lúcido . Porque o tempo deixou de parecer infinito. Quando percebo que o tempo que resta é menor do que o vivido, a pergunta muda. Já não é o que conquistei, é o que faço com o que sou.

Viver com peso não é obrigação. O balanço não serve para castigo. Serve para escolha. Há ainda muito para fazer, mesmo em menos tempo. Às vezes até mais importante. Mais limpo. Mais verdadeiro.

Mais um dia é um dia ganho. Não por produtividade. Por presença. Por não desistir de estar vivo por dentro.

A dúvida metódica é saudável. Mas a resposta já a tenho .Se voltasse atrás, faria tudo igual. Não por teimosia, mas porque cada momento foi vivido com as ferramentas que tinha naquele instante. Não há tribunal mais justo do que esse.

O sentido não está em reescrever o passado. Está em libertá-lo para não me prender o futuro.

E isso também é coragem.

Não tapei os olhos

 Não tapei os olhos

Foi consciente


Votação presidencial 

Vi o abuso

Vi o desrespeito

Vi o ruído a ocupar o lugar do silêncio devido


Não tapei os olhos

Porque tapar os olhos é colaborar


Escolhi ver

Mesmo quando ver incomoda

Mesmo quando ver isola


Foi consciente

Não confundi cargo com grandeza

Nem poder com razão


Enquanto pediam silêncio

Escolhi lucidez


Não tapei os olhos

Fiquei de pé

E isso também é uma escolha política