quinta-feira, abril 30, 2026

Ser avô hoje

 Olho para trás e vejo o pai que fui.

Um pai muitas vezes ausente. Não por falta de amor, mas porque a vida assim me levou. Saía à segunda-feira, voltava à sexta. E assim passaram semanas, anos.

Depois veio a separação.

Com tudo o que ela traz: distâncias, silêncios, feridas que nem sempre se dizem, mas que ficam.Hoje sou avô.E ser avô obriga-me a olhar a vida de frente.

Tenho netos diferentes, em idades diferentes, com necessidades diferentes.

Um já é um homem feito, fechado nas palavras, como eu tantas vezes fui.

Os outros são crianças. Precisam de presença, de atenção, de alguém que saiba estar sem esmagar. De alguém que saiba chegar sem invadir.

Não quero substituir os pais.

Não me compete. Educar é deles.

Mas um avô não é figura de enfeite.

Um avô transmite valores. Dá exemplo. Deixa marcas.

Às vezes dá pequenas coisas que os pais criticam. E ainda bem.

Porque os avós também são isso: ternura, liberdade, raiz.

Tento estar presente.Mas sem exagero.

Tenho de estar atento, mas sem me meter onde não devo.
Ouvir mais do que falar.
Saber quando abraçar, quando calar e quando apenas estar.

Porque ser avô não é mandar.

Não é tomar o lugar de ninguém.

É ser abrigo.

É ser memória.
É ser presença quando faz falta.

E talvez seja também isto

uma segunda oportunidade.

Fazer melhor.Com mais calma.Com mais verdade.Com mais coração.


quarta-feira, abril 29, 2026

1 de Maio

 


                                  1.º de Maio 

                    Poema em forma de manifesto


O 1.º de Maio chega sempre como quem abre uma janela.

Entra luz, entra poeira, entra memória.

E no ar fica a pergunta antiga:

quem ergueu o chão onde hoje caminhamos?


Há dias que são feriados.

E há dias que são feridas abertas na história.

O 1.º de Maio é os dois.


É o eco das mãos que trabalharam até ao limite,

das vozes que disseram “basta” quando o mundo ainda não sabia ouvir,

dos corpos que se juntaram para lembrar que a dignidade

não é luxo , é raiz.


Hoje, quando falamos de trabalho, falamos de vida.

Da vida que se dobra, que se gasta, que se oferece.

Da vida que merece mais do que sobrevivência.

E é por isso que este dia continua a ser luta:

porque ainda há quem carregue o peso do mundo

sem nunca ser visto.


O 1.º de Maio é um poema escrito a muitas mãos.

Cada verso é uma reivindicação,

cada pausa é um direito conquistado,

cada rima é uma promessa de futuro.


E talvez seja isso que celebramos:

a teimosia luminosa de quem acredita

que o trabalho pode ser justo,

que o tempo pode ser nosso,

que a vida pode caber inteira dentro de um dia.


Hoje, levantamos a voz.

Não para gritar 

mas para lembrar que ainda estamos aqui,

a escrever o resto do poema.


Enquanto por aqui andar não esquecerei o esforço de tantos que nos antecederam . 


O 1.º de Maio é memória, mas também é futuro.

É a voz de quem veio antes e a responsabilidade de quem está agora.

É a certeza de que, enquanto houver desigualdade, silêncio não é opção.E talvez seja isso que mais importa:

continuar a levantar a voz, mesmo quando o mundo parece habituado ao barulho.



quinta-feira, abril 23, 2026

Dia mundial do livro

 Dia Mundial do Livro


O livro é uma porta aberta
para o mundo e para a vida
é um amigo silencioso
que nunca nos vira as costas


Num livro cabem sonhos
cabem lutas e esperanças
cabem verdades difíceis
e também as nossas lembranças


Foi com livros que aprendemos
a pensar e a questionar
a defender a justiça
e a nunca deixar de lutar


Num tempo de ruído e pressa
o livro continua firme
como farol na escuridão
como consciência que não dorme


Hoje celebramos o livro
mas também quem escreve e sente
porque cada palavra honesta
é um ato de coragem na frente


Marcha pela leitura -crianças em Coimbra

 


Nem tudo é mau


Na praça encheu-se o chão de passos pequenos

vozes claras como água a correr

mãos que seguram cartazes

olhos que ainda acreditam


Crianças de mochila às costas

trazem mais do que cadernos

trazem sonhos

trazem palavras por descobrir


Marcham pela leitura

não por obrigação

mas como quem abre uma porta

para um mundo maior


No meio de tantas notícias duras

de tantas preocupações e incertezas

há este sinal sereno

de que a esperança não desistiu


Enquanto houver crianças a ler

haverá futuro

enquanto houver escolas cheias

haverá caminho


Nem tudo é mau

quando vemos uma cidade

cuidar dos seus filhos

e ensinar-lhes o valor das palavras 

Não por mim mas pelos meus

 Desilusão não por mim mas pelos meus 


Não por mim mas pelos meus 

Há dias em que a desilusão pesa mais do que devia. Não por mim , já vivi o suficiente para saber que a vida é feita de curvas, quedas e recomeços. O que me dói é olhar para o que está para vir e perceber que os meus vão herdar um mundo mais duro, mais desigual, mais frio do que aquele que eu sonhei para eles.Dói ver valores a desaparecerem como se fossem opcionais. Dói ver princípios trocados por conveniência. Dói ver respeito transformado em raridade. E dói ainda mais saber que tudo isto não caiu do céu , foi construído, permitido, normalizado ao longo do tempo.A pobreza real continua a crescer, a injustiça continua a repetir-se, e a pobreza de espírito alastra-se como se fosse inevitável. E o que mais me revolta é sentir que podia ter sido diferente. Que podíamos ter exigido mais, participado mais, lutado mais. Que podíamos ter deixado aos nossos um país e um mundo mais justo, mais digno, mais humano.Mas não foi isso que aconteceu. E agora, quando olho para o futuro, não vejo medo por mim , vejo preocupação pelos meus. Pelas gerações que vão ter de enfrentar desafios que nunca deviam ter existido. Pelos que vão pagar o preço das escolhas que não fizemos, das lutas que adiámos, das prioridades que deixámos escapar.Escrevo isto porque a desilusão também é um alerta. Porque ainda há tempo para mudar o rumo, mesmo que seja pouco a pouco. Porque os meus e os teus , merecem mais do que um mundo cansado, dividido e indiferente.Se não for por nós, que seja por eles. Porque o futuro não devia ser um peso. Devia ser uma promessa.


quarta-feira, abril 22, 2026

Avô nos dias de hoje

 



Olho para trás e vejo o pai que fui.  Um pai muitas vezes ausente, não por falta de amor, mas porque a vida assim me levou. Saía à segunda-feira, voltava à sexta. E assim passaram semanas, passaram anos. E depois veio a separação, com tudo o que ela traz: distâncias, silêncios, feridas que nem sempre se dizem, mas que ficam.Hoje sou avô.E ser avô obriga-me a olhar a vida de frente. Tenho netos diferentes, em idades diferentes, em necessidades diferentes. Um já é um homem feito, fechado nas palavras, como eu próprio tantas vezes fui com ele ou talvez com todos. Os outros são crianças, com 6 e 9 anos, a precisarem de presença, de atenção, de orientação, de alguém que saiba estar sem esmagar, de alguém que saiba chegar sem invadir.Não quero substituir os pais. Não me compete. Educar é deles. Mas também sei que um avô não é figura de enfeite. Um avô transmite valores, dá exemplo, deixa marcas. Às vezes dá pequenas coisas que os pais criticam. E ainda bem. Porque os avós também são isso: uma forma de ternura, de liberdade e de raiz.Tento estar presente, sim. Mas sem exagero.  Tenho de estar atento, mas sem me meter onde não devo.  Tenho de ouvir mais do que falar.  Tenho de saber quando abraçar, quando calar e quando apenas estar.Porque ser avô não é mandar.  Não é tomar o lugar de ninguém.  É ser abrigo.  É ser memória.  É ser presença quando faz falta.E talvez, no fundo, seja também isto:  uma segunda oportunidade de fazer melhor, com mais calma, com mais verdade, com mais coração.



sábado, abril 18, 2026

17 de Abril de 1969



17 de Abril de 1969 em Coimbra


Em Coimbra, nessa noite densa
o silêncio deixou de mandar
nas ruas frias da cidade antiga
começou um povo a despertar


Era Abril antes do outro Abril
ainda sem cravos nas mãos
mas já com vozes firmes
e coragem nos corações


Na escadaria e na praça
ergueu-se a força da razão
estudantes de capa traçada
não pediam favor
exigiam dignidade e pão


A polícia veio pesada
com ordens de calar a verdade
mas não se prende uma ideia
nem se algema a liberdade


Coimbra ficou diferente
nessa data que não se esquece
17 de Abril de 1969
foi semente que ainda cresce 🌱


Porque a história não nasce de repente
faz-se de passos pequenos e teimosos
de gente simples e determinada
que se recusa a viver de joelhos


E foi assim em Coimbra
cidade de pedra e memória
que a juventude abriu caminho
para outro dia de liberdade
e escreveu um capítulo da nossa história ✊


sexta-feira, abril 17, 2026

Dizem e desdizem

 Dizem. Desdizem.

20 de julho de 2025

Dizem uma coisa de manhã, desdizem à tarde. E no fim explicam que houve acordo. Esta leveza de palavra e de responsabilidade corrói a confiança na política. Quem governa não pode brincar com o que diz.

Uma história verdadeira

 Uma memória antiga que nunca escrevi

Havia dias em que a vida parecia pesada, mesmo sendo eu ainda novo. Não era tristeza, era consciência. A consciência de que nem todos tinham as mesmas oportunidades, nem a mesma sorte, nem a mesma proteção.

Lembro me de um homem que trabalhava connosco. Trabalhava muito, mais do que muitos, mas era sempre o último a ser ouvido. Não tinha estudos, não tinha influência, não tinha quem falasse por ele. Tinha apenas as mãos calejadas e a vontade de trabalhar.

Um dia houve um problema sério no trabalho. Uma falha que podia ter sido evitada. Não foi ele que errou, mas foi ele que pagou. Chamaram no, apontaram lhe o dedo e fizeram dele o responsável. Eu estava lá. Vi tudo. Vi a injustiça a acontecer diante dos meus olhos.

O que mais me marcou não foi o castigo. Foi o silêncio dos outros. Gente que sabia a verdade, gente que podia ter falado, gente que preferiu ficar calada para não arranjar problemas.

Nesse dia percebi uma coisa que nunca mais esqueci. A injustiça não vive só da mentira. Vive também do silêncio.

Hoje, tantos anos depois, continuo a acreditar na mesma coisa simples. Não vale tudo na vida. E calar perante a injustiça é uma forma de participar nela.

Eu não sou descartável

 Não sou descartável 


Há fases da vida em que um homem se torna mais silencioso.  Não porque desistiu da família, dos amigos ou da sociedade, mas porque a vida mudou e ele próprio também mudou.Às vezes damos por nós mais sós, com mais tempo para pensar, para recordar o que fizemos, o que acertámos e o que errámos.  Fazemos contas à vida, com calma, sem ilusões, mas também sem arrependimentos inúteis.Não vejo isso como um castigo.  Vejo como uma etapa diferente, talvez mais tranquila, mais interior, mais verdadeira.Aprendi muito ao longo dos anos.  Errei, acertei, lutei, trabalhei, amei.  Tudo isso faz parte de quem sou hoje e não tenho vergonha do caminho que fiz.Não sou descartável.  Sou apenas um homem que chegou a uma fase da vida em que o barulho diminuiu, mas a consciência aumentou.

Continuo aqui.  

Com serenidade.  

Com dignidade.  

Com respeito pela vida que vivi  

e com curiosidade serena pelo que ainda está para vir.

quinta-feira, abril 16, 2026

Pensamentos não meus , mas que retive

 Texto que li é que exige maior reflexão 


*Pensamento do dia:* É melhor ser odiado por aquilo que você é, do que ser amado por aquilo que você não é. Ser verdadeiro pode incomodar, pode afastar pessoas e até gerar críticas. Mas a verdade constrói caráter, enquanto a falsidade constrói uma prisão. Quem vive tentando agradar todo mundo perde a própria essência. Já quem assume quem é de verdade pode até enfrentar rejeição, mas caminha com dignidade, liberdade e consciência limpa. No fim das contas, a autenticidade vale mais do que qualquer aplauso falso. Seja quem você é. Quem for de verdade, fica.



*Pensamento do dia:* Cuidado com seus pensamentos, eles se tornam palavras. Cuidado com suas palavras, elas se tornam ações. Cuidado com suas ações, elas se tornam hábitos. Cuidado com seus hábitos, eles se tornam seu destino.

Simplesmente um gesto

 Como tão pouco pode ser tanto


Às vezes

é apenas um gesto.


Uma palavra.

Um silêncio.


Quase nada.


Mas há instantes

em que esse pouco

enche o coração inteiro.


E é aí que percebemos

que a vida verdadeira

quase sempre cabe

nas coisas pequenas.


Falar sobre arte para quem não sabe nada sobre arte

 Reconhecer o trabalho de um artista é também reconhecer um caminho que quase nunca se vê. Neste caso falo do Seixas Peixoto, mas podia falar de tantos outros com quem me fui cruzando ao longo da vida. Alguns já não estão cá e fica o peso de não ter guardado melhor aquelas conversas longas, os copos, as noites e o tabaco partilhado.Quem olha apenas para a obra acabada raramente percebe o que está por trás. O desgaste intelectual, o cansaço físico, a dúvida constante, o recomeço vezes sem conta. Há dias em que uma peça parece finalmente certa depois de tanto tempo e esforço, e de repente é destruída em minutos. E isso dói.Eu não sou especialista em arte. Nem em nada, na verdade. Sou apenas alguém que observa. Gosto ou não gosto. Começo a reconhecer traços, intenções, caminhos. E isso, para mim, já chega.

Pele dura

 Rosto talhado à navalha do tempo

pele dura

marcada por dias sem descanso


Olhos que já viram muito

e não pedem licença a ninguém


Há uma rudez nesta cara

que não é violência

é trabalho

é cansaço

é vida inteira dita sem palavras


Homem de poucas falas

de mãos ásperas

de silêncio pesado


Nesta cara não mora a doçura fácil

mora a verdade

crua

seca

sem enfeites


Como a terra

quando se abre para receber a semente 

O mundo mudou

 O mundo mudou e continua a mudar a uma velocidade que muitas vezes ultrapassa a nossa capacidade de compreender. As guerras na Europa e no Médio Oriente, as tensões entre grandes potências, a luta pelo petróleo e pela influência política não são acontecimentos distantes. Têm impacto direto na vida de cada um de nós, também em Portugal.Sentimos esse impacto quando vamos abastecer o carro e pagamos mais caro, quando a conta da eletricidade aumenta, quando os alimentos sobem de preço e o salário parece cada vez mais curto. Sentimos quando o Estado precisa de gastar mais em defesa e segurança, quando a economia fica mais incerta e quando o futuro parece menos previsível.Portugal é um país pequeno, aberto ao mundo, dependente da estabilidade internacional. Vive do comércio, do turismo, das relações com outros países. Por isso, quando há guerra, instabilidade ou conflito, nós sentimos as consequências, mesmo estando longe dos campos de batalha.Mas o impacto não é apenas económico. É também humano e moral. Assistimos todos os dias a imagens de destruição, de mortes, de crianças vítimas de decisões tomadas por líderes e interesses que muitas vezes ignoram a dignidade da vida humana. Isso cria inquietação, medo e uma sensação de fragilidade do mundo em que vivemos.Perante esta realidade, não podemos viver dominados pelo medo nem pela indiferença. Precisamos de lucidez, sentido crítico e responsabilidade. Defender a paz, o respeito entre povos, a cooperação internacional e a justiça social não é ingenuidade. É uma necessidade para garantir um futuro mais seguro e mais digno.Encarar este mundo exige coragem para ver a realidade como ela é, sem ilusões, mas também sem desistir dos valores que sustentam a convivência humana. A história mostra que os períodos difíceis passam, mas também mostra que o silêncio, a indiferença e o extremismo nunca trouxeram soluções duradouras.O maior desafio do nosso tempo é manter a humanidade num mundo cada vez mais tenso e imprevisível. E isso começa em cada sociedade, em cada comunidade e em cada cidadão, com respeito, responsabilidade e consciência de que todos fazemos parte do mesmo destino comum.

Pensamento do dia

 “ *Pensamento do dia:* Nunca conte às pessoas mais do que elas precisam saber. Pois baú aberto, não protege tesouro! Lembre-se disso. A sabedoria está no silêncio. ”Autor desconhecido 

Com os pés suspensos

 


Com os pés suspensos sobre a vida


Há dias em que me sento à beira da água e fico apenas a olhar.

Sem pressa.

Sem necessidade de provar nada a ninguém.


Setenta e um quase setenta e dois anos dão-me  isso.

Não sabedoria absoluta, mas alguma clareza.

A clareza de quem já trabalhou muito, já lutou muito, já se preocupou mais do que devia.


A minha vida não foi feita de facilidades.

Foi feita de esforço, de responsabilidade, de dias em que era preciso seguir em frente mesmo cansado.

Construí uma família.

Vi crescer as minhas filhas.

Fiz o que estava ao meu alcance para que nunca lhes faltasse o essencial.


Nem sempre acertei.

Mas nunca falhei por falta de vontade.

Nunca virei a cara às dificuldades.


Hoje tenho uma reforma pequena, mas suficiente para viver com dignidade.

Não devo nada a ninguém.

Durmo de consciência tranquila.

E isso, com o passar dos anos, vale mais do que qualquer riqueza.


Olho o mundo com preocupação.

Vejo guerras, injustiças, mentiras repetidas como se fossem verdades.

Vejo pessoas cansadas, outras revoltadas, muitas sem esperança.


Às vezes isso pesa.

Há dias em que me sinto desmotivado, em baixo, a perguntar-me para onde caminhamos.

Mas depois lembro-me do essencial.


Lembro-me das amizades verdadeiras.

Dos almoços simples que aquecem a alma.

Das conversas longas onde se discorda, se aprende e se cresce.

Das pessoas que ficaram ao meu lado quando era preciso.


Percebo então que a vida não se mede pelo barulho do mundo.

Mede-se pela forma como vivemos.

Pela decência.

Pelo respeito pelos outros.

Pela coragem de continuar, mesmo quando o caminho parece difícil.


Entre a pedra e a água, entre o passado e o presente, encontro uma paz discreta.

Não é uma paz de desistência.

É uma paz de quem aceita a vida como ela é, com as suas alegrias e as suas feridas.


Ainda estou aqui.

Com a cabeça a pensar.

Com o coração atento.

Com vontade de compreender o mundo e de deixar alguma palavra que faça sentido.


Não preciso de grandes glórias.

Preciso apenas de dias simples, de justiça, de respeito e de verdade.


E, de vez em quando, de me sentar à beira da água

com os pés suspensos

sobre a vida.

Dureza da vida

 Rosto talhado à navalha do tempo

pele dura

marcada por dias sem descanso


Olhos que já viram muito

e não pedem licença a ninguém


Há uma rudez nesta cara

que não é violência

é trabalho

é cansaço

é vida inteira dita sem palavras


Homem de poucas falas

de mãos ásperas

de silêncio pesado


Nesta cara não mora a doçura fácil

mora a verdade

crua

seca

sem enfeites


Como a terra

quando se abre para receber a semente 

Com base nas cartas de amor

 


O Poema


Todas as cartas de amor são

Ridículas.


Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.


Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.


As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.


Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.


Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.


A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.


Com base neste poema 



Todas as cartas que tentei escrever

Parecem-me

Vãs.


Não seriam cartas de sentimento se não fossem

Vãs.


Também deixei palavras no papel,

No meu tempo,

Como todos,

Vãs.


As cartas de quem sente, se há verdade,

Têm de ser

Vãs.


Mas, no fim,

Só aqueles que nunca ousaram escrever

Cartas de sentimento

São verdadeiramente

Vãos.


Quem me dera voltar ao tempo em que escrevia

Sem perceber

Cartas de emoção

Vãs.


Hoje, olhando para trás,

São as minhas próprias memórias

Dessas tentativas

Que me parecem



Longa conversa com amigo com quem discordo muito

 


Este texto nasce de uma longa conversa hoje com um amigo com quem muitas vezes discordo.Discordamos em ideias, em visões do mundo, em prioridades. Às vezes a discussão é dura, intensa. Mas quando existe respeito, quando existe honestidade intelectual, a discordância deixa de ser um problema e passa a ser uma escola.Aprendo com ele porque me obriga a pensar melhor.Aprendo porque me mostra ângulos que eu não tinha considerado.Aprendo porque me faz sair das certezas fáceis e enfrentar dúvidas reais.Vivemos num tempo em que muitos preferem falar apenas com quem pensa igual. Isso dá conforto, mas empobrece o pensamento. O verdadeiro crescimento nasce do confronto de ideias, da discussão séria, da capacidade de ouvir sem medo.Uma amizade assim não é feita de concordância permanente.É feita de confiança, de respeito e de vontade de compreender. Hoje percebo que discordar não é um sinal de divisão.Pode ser um sinal de maturidade.Hoje parte desta conversa foi Será que Portugal é um país soberano ?Conversa sobre a nossa dependência de Espanha e como a crise de agora não é de agora Portugal é soberano. Mas a forma como exerce essa soberania tem consequências diretas na vida de cada pessoa. Não é teoria. É o quotidiano.Hoje, nenhum país vive isolado. Portugal faz parte da União Europeia, utiliza uma moeda comum gerida pelo Banco Central Europeu e integra uma aliança de defesa como a Organização do Tratado do Atlântico Norte.Isto não elimina a soberania. Mas condiciona decisões. E essas decisões chegam à vida das pessoas de forma muito concreta.O impacto no dinheiro e no custo de vida. O primeiro impacto sente-se no bolso.As taxas de juro, a inflação e o valor do dinheiro são influenciados por decisões que não são tomadas apenas em Lisboa. Quando as taxas sobem, a prestação da casa aumenta. Quando a inflação cresce, o salário ou a reforma perdem valor.A moeda comum trouxe estabilidade e facilitou o comércio.Mas retirou um instrumento importante. Portugal deixou de poder desvalorizar a moeda para responder a crises.Na prática, isto significa , menos margem de manobra nacional, mais dependência da economia europeia.O impacto nas reformas e na proteção social. Para quem vive da reforma, a soberania económica é uma questão muito concreta.Quando a economia cresce pouco, as reformas crescem pouco.Quando o Estado tem dívida elevada, há menos margem para aumentos.Portugal decide como funciona o Serviço Nacional de Saúde, quantos médicos contrata e quanto investe em hospitais.Será que a soberania existe ? A participação na Organização do Tratado do Atlântico Norte significa defesa coletiva.Se um país for atacado, os outros respondem.Na vida das pessoas, isto traduz-se em segurança . A soberania também se mede pela forma como a lei é aplicada .Quando a justiça é lenta ou desigual, as pessoas perdem confiança.Quando funciona com rigor e independência, a sociedade torna-se mais justa .Se os jovens encontram trabalho digno, ficam. Se não encontram, partem. A liberdade de circular dentro da Europa é uma vantagem.Mas a saída de jovens qualificados é um sinal negativo .


E no fim, a pergunta mais honesta não é

se somos soberanos? Penso que não , mas voltarei ao tema