Olho para trás e vejo o pai que fui. Um pai muitas vezes ausente, não por falta de amor, mas porque a vida assim me levou. Saía à segunda-feira, voltava à sexta. E assim passaram semanas, passaram anos. E depois veio a separação, com tudo o que ela traz: distâncias, silêncios, feridas que nem sempre se dizem, mas que ficam.Hoje sou avô.E ser avô obriga-me a olhar a vida de frente. Tenho netos diferentes, em idades diferentes, em necessidades diferentes. Um já é um homem feito, fechado nas palavras, como eu próprio tantas vezes fui com ele ou talvez com todos. Os outros são crianças, com 6 e 9 anos, a precisarem de presença, de atenção, de orientação, de alguém que saiba estar sem esmagar, de alguém que saiba chegar sem invadir.Não quero substituir os pais. Não me compete. Educar é deles. Mas também sei que um avô não é figura de enfeite. Um avô transmite valores, dá exemplo, deixa marcas. Às vezes dá pequenas coisas que os pais criticam. E ainda bem. Porque os avós também são isso: uma forma de ternura, de liberdade e de raiz.Tento estar presente, sim. Mas sem exagero. Tenho de estar atento, mas sem me meter onde não devo. Tenho de ouvir mais do que falar. Tenho de saber quando abraçar, quando calar e quando apenas estar.Porque ser avô não é mandar. Não é tomar o lugar de ninguém. É ser abrigo. É ser memória. É ser presença quando faz falta.E talvez, no fundo, seja também isto: uma segunda oportunidade de fazer melhor, com mais calma, com mais verdade, com mais coração.
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