Com os pés suspensos sobre a vida
Há dias em que me sento à beira da água e fico apenas a olhar.
Sem pressa.
Sem necessidade de provar nada a ninguém.
Setenta e um quase setenta e dois anos dão-me isso.
Não sabedoria absoluta, mas alguma clareza.
A clareza de quem já trabalhou muito, já lutou muito, já se preocupou mais do que devia.
A minha vida não foi feita de facilidades.
Foi feita de esforço, de responsabilidade, de dias em que era preciso seguir em frente mesmo cansado.
Construí uma família.
Vi crescer as minhas filhas.
Fiz o que estava ao meu alcance para que nunca lhes faltasse o essencial.
Nem sempre acertei.
Mas nunca falhei por falta de vontade.
Nunca virei a cara às dificuldades.
Hoje tenho uma reforma pequena, mas suficiente para viver com dignidade.
Não devo nada a ninguém.
Durmo de consciência tranquila.
E isso, com o passar dos anos, vale mais do que qualquer riqueza.
Olho o mundo com preocupação.
Vejo guerras, injustiças, mentiras repetidas como se fossem verdades.
Vejo pessoas cansadas, outras revoltadas, muitas sem esperança.
Às vezes isso pesa.
Há dias em que me sinto desmotivado, em baixo, a perguntar-me para onde caminhamos.
Mas depois lembro-me do essencial.
Lembro-me das amizades verdadeiras.
Dos almoços simples que aquecem a alma.
Das conversas longas onde se discorda, se aprende e se cresce.
Das pessoas que ficaram ao meu lado quando era preciso.
Percebo então que a vida não se mede pelo barulho do mundo.
Mede-se pela forma como vivemos.
Pela decência.
Pelo respeito pelos outros.
Pela coragem de continuar, mesmo quando o caminho parece difícil.
Entre a pedra e a água, entre o passado e o presente, encontro uma paz discreta.
Não é uma paz de desistência.
É uma paz de quem aceita a vida como ela é, com as suas alegrias e as suas feridas.
Ainda estou aqui.
Com a cabeça a pensar.
Com o coração atento.
Com vontade de compreender o mundo e de deixar alguma palavra que faça sentido.
Não preciso de grandes glórias.
Preciso apenas de dias simples, de justiça, de respeito e de verdade.
E, de vez em quando, de me sentar à beira da água
com os pés suspensos
sobre a vida.
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