1.º de Maio
Poema em forma de manifesto
O 1.º de Maio chega sempre como quem abre uma janela.
Entra luz, entra poeira, entra memória.
E no ar fica a pergunta antiga:
quem ergueu o chão onde hoje caminhamos?
Há dias que são feriados.
E há dias que são feridas abertas na história.
O 1.º de Maio é os dois.
É o eco das mãos que trabalharam até ao limite,
das vozes que disseram “basta” quando o mundo ainda não sabia ouvir,
dos corpos que se juntaram para lembrar que a dignidade
não é luxo , é raiz.
Hoje, quando falamos de trabalho, falamos de vida.
Da vida que se dobra, que se gasta, que se oferece.
Da vida que merece mais do que sobrevivência.
E é por isso que este dia continua a ser luta:
porque ainda há quem carregue o peso do mundo
sem nunca ser visto.
O 1.º de Maio é um poema escrito a muitas mãos.
Cada verso é uma reivindicação,
cada pausa é um direito conquistado,
cada rima é uma promessa de futuro.
E talvez seja isso que celebramos:
a teimosia luminosa de quem acredita
que o trabalho pode ser justo,
que o tempo pode ser nosso,
que a vida pode caber inteira dentro de um dia.
Hoje, levantamos a voz.
Não para gritar
mas para lembrar que ainda estamos aqui,
a escrever o resto do poema.
Enquanto por aqui andar não esquecerei o esforço de tantos que nos antecederam .
O 1.º de Maio é memória, mas também é futuro.
É a voz de quem veio antes e a responsabilidade de quem está agora.
É a certeza de que, enquanto houver desigualdade, silêncio não é opção.E talvez seja isso que mais importa:
continuar a levantar a voz, mesmo quando o mundo parece habituado ao barulho.
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