quinta-feira, abril 16, 2026

 


A caminho da irrelevância



                 A caminho da ir relevância

 O que me leva a escrever estas palavras é, acima de tudo, um sentimento de desilusão. Desilusão com o rumo que vejo no mundo e, em particular, no meu país. Não é uma desilusão feita de raiva nem de ressentimento. É uma desilusão tranquila, mas persistente, de quem acredita na democracia e teme vê-la perder qualidade, pouco a pouco, quase sem dar por isso.Ao longo da vida nunca fui homem de fidelidades partidárias cegas. Votei algumas vezes no Partido Socialista, como votei noutras forças políticas, sempre guiado pela consciência e pela ideia simples de que a política deve servir o interesse coletivo. Nunca me senti dono de um partido, nem prisioneiro de uma sigla. A minha lealdade sempre foi para com os princípios, não para com as estruturas. Escrevo sobre o Partido Socialista não por proximidade ideológica nem por nostalgia política, mas porque reconheço o papel histórico que teve na construção do Portugal democrático. Durante décadas foi um dos pilares do equilíbrio institucional, um espaço onde muitos portugueses encontraram uma defesa razoável do Estado social, do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social e de uma legislação laboral que procurava proteger quem trabalha.Hoje, porém, olho para esse partido com preocupação. Vejo sinais de desgaste, de perda de energia política e, sobretudo, de falta de rumo claro. Um partido não se torna irrelevante de um dia para o outro. A irrelevância instala-se lentamente, quando deixa de mobilizar, quando deixa de entusiasmar e quando deixa de representar uma esperança concreta para a sociedade.Um partido perde força quando passa a ser percebido como previsível, hesitante ou demasiado parecido com os seus adversários. A política vive de diferenças claras, de escolhas assumidas e de coragem para defender um caminho próprio. Quando essas diferenças desaparecem, o eleitorado começa a afastar-se, não por hostilidade, mas por falta de confiança.José Luís Carneiro parece-me um homem sério. Transmite sentido de responsabilidade, respeito pelas instituições e uma forma de estar na política que merece consideração. Num tempo em que o ruído muitas vezes substitui a substância, a seriedade continua a ser um valor raro e necessário.Mas a política não se esgota na seriedade. Um líder político tem de oferecer direção, visão e capacidade de mobilizar uma sociedade cansada de promessas vagas. Tem de ser capaz de marcar uma diferença clara e de mostrar, com convicção, que existe um caminho alternativo.Não vejo, até agora, essa força mobilizadora. Não por falta de caráter, mas por falta de contraste político. Quando um líder se aproxima demasiado do modelo tradicional do seu principal adversário, corre o risco de diluir a identidade do seu próprio partido. E quando a identidade se dilui, a relevância começa a desaparecer.Uma democracia saudável precisa de equilíbrio. Precisa de governo, mas precisa igualmente de oposição forte, credível e preparada. Sem uma oposição sólida, o poder governa com menos escrutínio, com menos pressão e, inevitavelmente, com menos exigência. Isso fragiliza a democracia, independentemente de quem esteja no poder.A minha preocupação não é partidária. É cívica. Preocupa-me a erosão lenta das instituições, a perda de confiança dos cidadãos e a sensação crescente de que a política se afasta da vida real das pessoas. Preocupa-me ver partidos fechados sobre si próprios, mais atentos à gestão interna do que às necessidades do país.O Partido Socialista, pela sua história e pelo seu peso na democracia portuguesa, não pode permitir-se esse caminho. Não pode viver apenas da memória do passado nem da herança política que construiu. Tem de provar, todos os dias, que continua a ser necessário, útil e capaz de responder aos desafios do presente.No fundo, a questão não é saber se um líder é sério ou competente. A questão é saber se consegue mobilizar esperança, oferecer um rumo claro e dar às pessoas razões para acreditar que a política ainda pode ser um instrumento de mudança.Sem isso, qualquer partido, por maior que seja a sua história, corre o risco de se tornar irrelevante. E quando um partido essencial ao equilíbrio democrático se torna irrelevante, não é apenas esse partido que perde. É a própria democracia que fica mais pobre.


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