quinta-feira, abril 16, 2026

 Uma visita inesperada e não por um bom motivo a Aguiar da Beira

Escrevi este texto porque serei até ao fim um inconformado com as injustiças, com as pobrezas de espírito e com as pobrezas de vida.É isso que me move. Nada mais.Não pretendo agradar a ninguém.Pretendo ser apenas eu.

Ontem, por volta das três da tarde, estive em Aguiar da Beira, entre Viseu e Guarda.Uma vila do interior, com história, mas com um silêncio que inquieta.Andei pelas ruas e vi pouco movimento, poucas lojas abertas, quase ninguém.Não era hora de descanso.Era simplesmente falta de gente, falta de vida.E dei por mim a pensar.O que leva alguém do litoral a vir viver para o interior .Não é o salário.Não são as oportunidades.Não são os serviços.Muitas vezes é apenas a terra onde nasceu ou a teimosia de não abandonar as raízes.Mas depois olho à volta e percebo outra coisa.O interior não está a morrer por acaso.Está a ser abandonado, decisão atrás de decisão.Fecharam os correios.Fecharam os bancos.Retiraram as caixas multibanco.Foram-se os serviços públicos que criavam contacto humano e resolviam problemas simples.E quem sofre mais com isto são quase sempre os mesmos.Pessoas mais velhas.Pessoas com instrução básica.Pessoas que trabalharam uma vida inteira e agora são empurradas para um mundo digital que não escolheram e que muitas vezes não entendem.Dizem que é modernização.Dizem que é eficiência.Mas no fundo é afastamento do Estado das pessoas.A desertificação do interior não começa quando as casas ficam vazias.Começa quando o Estado fecha a porta e vai embora.Começa quando se tiram serviços essenciais e se pede às pessoas que se desenrasquem sozinhas.E depois admiram-se que os jovens partam.Que as aldeias envelheçam.Que as terras fiquem em silêncio.Eu próprio pergunto a mim mesmo que país estamos a construir quando deixamos uma parte do território para trás , quando tratamos o interior como um peso e não como parte da nossa identidade coletiva . O interior não precisa de discursos nem de promessas em campanha.Precisa de respeito.Precisa de presença.Precisa de políticas sérias que não abandonem as pessoas só porque vivem longe dos grandes centros. Porque um país que abandona o seu interior está, no fundo, a abandonar uma parte de si próprio.

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