terça-feira, fevereiro 10, 2026

Spinuvivando

 Lá vão eles de fato preto e gravata preta

Ar fechado, passo ensaiado

As televisões sempre perto

À espera do silêncio certo


Não choram, representam

A dor é medida, controlada

Cada olhar é um comunicado

Cada gesto, uma encenação


O luto vira palco

A morte, oportunidade

Falam baixo para parecer respeito

Mas pensam alto em proveito


Passam sérios, importantes

Graves como a ocasião exige

O povo vê, a câmara grava

E a verdade fica fora do enquadramento


Fato preto, gravata preta

Consciência branca

E no fim do cortejo

Segue tudo igual

O sucesso dá muito trabalho

 O sucesso dá muito trabalho


Não cai do céu

Não é sorte

Não é talento puro


É levantar quando dói

É insistir quando ninguém vê

É errar, assumir, corrigir


É disciplina sem aplauso

É cansaço acumulado

É dizer não ao fácil


O sucesso cobra tempo

Cobra escolhas

Cobra solidão


E não perdoa desculpas


Por isso poucos chegam

Não por falta de capacidade

Mas por falta de coragem para aguentar o caminho

Socialismo

 



Socialismo” é daquelas palavras empurradas para o canto, tratada como fantasma de outro tempo. Falam dela como ameaça, nunca como memória do que conquistámos juntos.   Entre PS e PSD já quase só mudam as caras e o slogan. A vida real fica para segundo plano, enquanto se trocam promessas de mercado livre, menos Estado, mais “eficiência”, como se a sociedade fosse apenas uma empresa à procura de lucro.   Até que vem a ventania. O telhado voa, a rua alaga, o fogo aproxima-se. E, de repente, já ninguém pergunta pelo “empreendedorismo”: querem-se ambulâncias, bombeiros, escolas que acolham, serviços públicos que respondam. Quer-se alguém que não deixe ninguém cair.  Chamam-lhe socialismo, como se fosse um insulto. Mas, nesses dias de medo, não é ideologia: é só a lembrança de que ninguém se salva sozinho. E de que a tal palavra proibida é, talvez, outra forma de dizer: não te vamos deixar para trás.  

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Votar ou não votar

 Dia de eleições 


Nunca tinha votado antes do 25 de Abril. Tinha vinte anos e outras preocupações. Andava desligado da política, mas não da vida. Já havia inquietações sociais, já havia medo. O vizinho da frente era da PIDE. Comprava a Seara Nova a meias com outro vizinho. Estava atento à possibilidade de ir para a guerra. A tropa acabou por não se concretizar. Inspeções a 19 de Abril de 1974. Passagem à reserva territorial. Sem cunhas, coisa rara nesses tempos.


Digo isto hoje por uma razão simples. Vou votar. E sabe bem. Sabe bem poder escolher. Sabe bem cumprir um dever que durante décadas nos foi negado.


Voto em quem acredito, mesmo sabendo que quase sempre me enganam. Admito sem rodeios que aqueles em quem voto nunca ganharam nada. Mesmo assim continuo. Chova ou faça sol, vou sempre. Teimosamente. Porque acredito que votar é uma obrigação cívica, não um favor que faço a ninguém.


Estou farto das promessas. Farto das palavras ocas. Farto de políticos que mentem. Mentem antes, durante e depois. Todos, sem exceção. Ainda assim, não abdico. Não desisto. Porque desistir é entregar tudo de mão beijada.


Vou hoje cumprir os meus deveres cívicos. Façam o mesmo. Não por entusiasmo, mas por responsabilidade. Porque a democracia não morre de repente. Vai-se gastando. E um dia, quando dermos por isso, as próximas eleições podem mesmo ser as últimas.

A Fábrica -atelier

 



Coimbra precisa de espaços onde se possa estar, ler, pensar, conversar, beber um copo em companhia. Espaços onde a arte acontece de verdade. Onde há teatro, música, apresentações de livros, pintura, artistas no geral, coros, gente viva.

Alguns chamam-lhes espaços alternativos, como se isso fosse um rótulo menor. Não é. É um estigma. Estes espaços são plurais, abertos, diferentes. São necessários.


Há quem diga que em Coimbra não se passa nada. A pergunta é simples. Quantas vezes foram a sítios como A Fábrica. Quantas vezes saíram do conforto da queixa para a curiosidade de participar.


Uma cidade que não valoriza a arte e os artistas empobrece. Empobrece culturalmente, socialmente e politicamente. A cidade, a sociedade e os autarcas deviam olhar com mais atenção e mais respeito para quem cria, para quem arrisca, para quem constrói estes lugares contra a indiferença.


A Fábrica é um desses lugares. Um espaço de encontro, de pensamento, de liberdade. Hoje há Vegan Market. Há vida. Há pessoas. Há cultura.


Parabéns, Elia. E parabéns a quem faz acontecer quando tantos preferem dizer que não acontece nada.

Sair ou desertar

 



Sair ou desertar

Estar numa organização não é um compromisso eterno. A melhor altura para sair é quando já não estamos bem. Sem dramas. Sem culpas. Sem acusações. Com lucidez. Aceitar que os ciclos acabam é um ato de maturidade, não de fraqueza.Sair não é um gesto contra alguém. Não é contra os amigos que ficam, nem contra as pessoas com quem partilhámos caminhos. É algo mais fundo. Uma ruptura com o papel, com a utilidade, com o sentido da própria organização. Quando deixamos de perceber para que serve, ou quando percebemos que já não serve aquilo em que acreditamos, algo essencial desaparece. A permanência passa a ser apenas formal.Muitas vezes ficamos não por convicção, mas por carência. Carência de amigos. Carência de espaços onde ainda seja possível conversar a sério, pensar, discordar, trocar ideias sem medo. Isso prende-nos. Mas também nos engana. Confunde pertença com sentido. Quando o tempo deixa de parecer infinito, essa pergunta pesa mais. Vale a pena ficar por hábito, por conforto, por receio do vazio. Ou vale mais sair com respeito e clareza, libertando tempo e energia para o que ainda faz sentido.Cortar não é falhar. É reconhecer limites. É escolher com honestidade. Às vezes, sair é o gesto mais leal que se pode ter consigo próprio e também com os outros.  Permanecer  sem acreditar é que seria uma forma de deslealdade.Esta não é uma decisão súbita nem impulsiva. É uma reflexão antiga, pensada e repensada, consciente da sua dificuldade. É uma decisão pessoal, não discutida, que me pertence por inteiro. E por isso mesmo é assumida sem ruído.A saída nunca será um fim. Será um recomeço. Porque fechar um ciclo com dignidade é, muitas vezes, a única forma de abrir outro com verdade.

Informação e desinformação

 Os media hoje vivem num conflito permanente entre informar e disputar atenção. A lógica do tempo longo, da verificação e do contexto foi empurrada para segundo plano. O que manda é a velocidade, o impacto, o clique. Isso abriu espaço à desinformação, mas também a uma informação fraca, incompleta ou enviesada que se apresenta como neutra.A informação continua a existir. Há bons jornalistas, bom trabalho de investigação e sentido de responsabilidade. O problema é o ruído. A desinformação não precisa de ser uma mentira descarada. Basta omitir partes, exagerar outras, escolher títulos que empurram o leitor para uma conclusão pré-fabricada. A fronteira entre informar e manipular ficou mais difusa.O papel dos jornalistas é hoje mais exigente do que nunca. Não basta relatar factos. É preciso explicar, contextualizar, resistir à pressão política, económica e editorial. Também é preciso assumir limites e conflitos de interesse. A ideia do jornalista como mero transmissor neutro é uma ilusão. O que se pode exigir é honestidade intelectual, rigor e transparência.Comentadores isentos não existem. Cada comentador traz uma visão do mundo, interesses, ideologia, lealdades e ressentimentos. O problema não é terem posição. O problema é fingirem que não têm. Quando a opinião se mascara de análise técnica, o público é enganado.As redes sociais mudaram tudo. Democratizaram a palavra, mas destruíram filtros. Todos falam, poucos verificam. Emoção vale mais do que verdade. Indignação espalha-se mais depressa do que factos. Mentiras simples viajam melhor do que explicações complexas.Os algoritmos não são neutros. São desenhados para maximizar tempo de ecrã, lucro e influência. Mostram-nos o que confirma crenças, reforça medos e radicaliza posições. Criam bolhas, alimentam conflitos e empurram narrativas que servem interesses económicos e políticos. Não nos informam. Condicionam-nos.Nada disto é inevitável, mas exige literacia, espírito crítico e coragem para desconfiar. A democracia depende disso. Sem cidadãos informados, o espaço fica livre para a manipulação, o autoritarismo e o cinismo. Aqui não há neutralidade possível. Ou se está do lado do esclarecimento, ou se é parte do problema.

Lesley e agora a Marta

 


Primeiro foi o Lesley. Agora a Marta. Amanhã não sei.

Houve estragos. Alguns. Nada comparável ao que se vê noutros lados.


Fica a sensação de impotência perante a força do tempo. Não controlamos a natureza e ela lembra-nos isso sem pedir licença.


E, ainda assim, sinto uma calma estranha. Um silêncio interior. Talvez porque penso em Gaza, na Ucrânia, no Sudão, no Minnesota e em tantos outros lugares onde a destruição não vem do clima, mas da desumanidade, da ganância, do ódio, da mentira e da desinformação.


Penso também em quem nega as alterações climáticas e em quem tenta normalizar o que está a acontecer no mundo. Como se fosse inevitável. Como se não houvesse responsabilidade. Há escolhas. E há consequências.


No meio disto tudo, reconheço-me como um privilegiado. Não por mérito especial, mas por circunstância. Essa consciência não traz culpa. Traz dever.


Hoje, depois de uma noite bem dormida, senti vontade de escrever. Sem pretensão. Sem mágoa. Com esperança.


Num dia especial, fica este registo. Simples. Humano. Necessário.



Eu e a amizade canina

 


Primeiro foi o Joca. Agora é o Hermes.


A tristeza no olhar quando saio de casa.

A alegria descontrolada quando chego.

Saltos, beijos, uma festa sem cálculo.


Isto tem um valor que só quem vive com animais entende.


O amor canino talvez se aproxime do amor pelos nossos.

As minhas filhas e netos não vão gostar desta comparação, mas paciência.

A vida também é isto. Dizer o que se sente.


Depois do enfarte comecei a valorizar outras coisas.

Os amigos diminuíram. Alguns afastaram-se. Outros fugiram.

Ficaram os de sempre. Esses não falham. Mesmo quando não concordamos.


Aqui entra outra coisa importante.

O sentido de utilidade.

Saber que somos necessários a alguém. Todos os dias.


Todos os dias penso em escrever.

Quase sempre esqueço-me.

Agora acordo e escrevo tópicos.


Escrevo para mim.

Escrevo para os meus.

Não por vaidade nem por pretensão.


Escrevo para memória futura.

Para que um dia saibam como eu via a vida.

E quem eu fui, quando abrandei e comecei a prestar atenção ao que realmente importa.


Será que o tempo faz sentido

 Será que o tempo faz sentido 


Chega um tempo em que o passado deixa de ser memória solta e passa a ser matéria de balanço. Não por fraqueza, mas por consciência. Quem nunca se interroga vive à superfície.

Os amores e os desamores não são erros nem acertos. São marcas. As boas e as más decisões não se anulam. Constroem quem somos. As participações, políticas ou outras, mesmo quando falharam, deram aprendizagem, deram chão, deram sentido em determinado momento. Nada disso é desperdício.

Esses pensamentos martelam -me porque estou lúcido . Porque o tempo deixou de parecer infinito. Quando percebo que o tempo que resta é menor do que o vivido, a pergunta muda. Já não é o que conquistei, é o que faço com o que sou.

Viver com peso não é obrigação. O balanço não serve para castigo. Serve para escolha. Há ainda muito para fazer, mesmo em menos tempo. Às vezes até mais importante. Mais limpo. Mais verdadeiro.

Mais um dia é um dia ganho. Não por produtividade. Por presença. Por não desistir de estar vivo por dentro.

A dúvida metódica é saudável. Mas a resposta já a tenho .Se voltasse atrás, faria tudo igual. Não por teimosia, mas porque cada momento foi vivido com as ferramentas que tinha naquele instante. Não há tribunal mais justo do que esse.

O sentido não está em reescrever o passado. Está em libertá-lo para não me prender o futuro.

E isso também é coragem.

Não tapei os olhos

 Não tapei os olhos

Foi consciente


Votação presidencial 

Vi o abuso

Vi o desrespeito

Vi o ruído a ocupar o lugar do silêncio devido


Não tapei os olhos

Porque tapar os olhos é colaborar


Escolhi ver

Mesmo quando ver incomoda

Mesmo quando ver isola


Foi consciente

Não confundi cargo com grandeza

Nem poder com razão


Enquanto pediam silêncio

Escolhi lucidez


Não tapei os olhos

Fiquei de pé

E isso também é uma escolha política

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
Guerra Junqueiro

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Texto de Mário de Andrade -revejo-me completamente

O Valioso Tempo dos Maduros
Mário de Andrade
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Reconhecem o espaço do Teatro Gil Vicente

domingo, fevereiro 21, 2010

Estar desempregado aos 55 anos

Depois de 30 anos numa mesma empresa , sem um dia de baixa , com a camisola vestida chegou a hora desemprego, coisa estranha , esquisita , sensação de desconforto , palavras de circunstância e agora .
Ir à Junta de Freguesia de 15 em 15 dias , esperar na fila , dizer que estou vivo e presente , dar papel receber carimbo , não se esqueça de vir cá daqui a 15 dias .
Parece que matei alguém , não fui eu o causador da situação , não haverá outro sistema menos traumático.

Estou farto

Os telejornais , jornais , comentadores comentam recomentam , é a face oculta , é a independente , é Freeport , chega .
Os tribunais devem funcionar , se existem dúvidas que precisam de ser esclarecidas devem funcionar as policias.
Eu não sou defensor do Sócrates , nunca votei nele , que o homem não é santo para mim é claro , que ele gosta do poder também é claro que os outros também querem o poder também é claro .
A situação é demasiado grave para brincadeiras de mau gosto.
Deixem-se de tretas e trabalhem preocupem-se com o que verdadeiramente interessa

segunda-feira, setembro 14, 2009

Votar na Figueira da Foz

Será que vale a pena votar na Figueira da Foz
Mais do mesmo
3 candidaturas da área do PSD
Duarte Silva , Ataide , Daniel
3 faces a mesma moeda
eu não vou
não participo

Eleições -novas promessas

O dia 27 está aí
tanta promessa
tanta fartura
tanta mentira
votar será um dever civíco
e não votar não é também
estou farto
estamos fartos

domingo, outubro 01, 2006

Ana 2006

Ana com o seu ar mais serio


 Posted by Picasa

domingo, agosto 27, 2006

Figueira da Foz

É preciso que os Figueirenses se unam e peçam responsabilidades .
Praias interditas .................
Etar que não funciona ..................
O mar a ganhar espaço na costa ...............
Quem são os responsaveis por não tomarem as medidas necessárias para que estas coisas não aconteçam .