sexta-feira, março 06, 2026

 Fim de tarde ventosa na Figueira 


Lá fora está frio

O vento passa nas ruas

As árvores ficam quietas

O inverno faz o seu trabalho


Aqui dentro a casa está quente

Não só pelo fogo ou pelas paredes

Mas pelo silêncio tranquilo

Pelas memórias que vivem na mesa

Pelo tempo que abranda


Lá fora o mundo corre

Aqui dentro a vida respira


E às vezes é assim

No meio do frio do mundo

Basta uma casa

Um pouco de calor

E alguma paz para ficar. ❄️🔥


domingo, março 01, 2026

Ausência e proximidade

 Ausência e proximidade

Todos os dias acordamos com alguma coisa em mente e eu escrevo o que me vai na alma , sem preocupações estéticas , escrevo para mim . 

Sem plateia. Sem necessidade de aplauso.Noutros tempos havia diários. Cadernos guardados na gaveta, segredos dobrados em papel. Eu nunca os tive. A vida foi feita de folhas de Excel, relatórios, números certos, contas fechadas. Hoje escrevo o que me apetece. Troquei a precisão fria pela palavra que respira. É a arma que escolhi. Não fere ninguém, mas não pede licença.

Dizem que me exponho. Talvez. Mas quem já viveu o suficiente perde o medo do julgamento. Tenho tempo. Uso-o como quero. Escrever é uma forma de estar vivo.

Três filhas. Três caminhos. Cada uma com a sua pressa, a sua vida, os seus compromissos. Sei que gostam de mim. Sinto isso. Mas há uma verdade simples que me acompanha: um clique não é presença. Uma mensagem não é um abraço. A tecnologia encurtou distâncias físicas e, ao mesmo tempo, deixou espaços vazios no que realmente importa.

Há diferença entre amar e estar. Nem sempre coincidem. Não é maldade. É fragilidade humana. Mesmo assim dói.

Penso na minha mãe. Viúva cedo. Dois filhos pequenos. Fiquei até ao fim. Não por heroísmo mas por dever, por gratidão, por amor traduzido em presença concreta. Quem viu esforço não esquece. Quem recebeu cuidado aprende o peso da responsabilidade.

Hoje fala-se em outros tempos. Talvez sejam. Mas às vezes parece apenas uma justificação para a pressa permanente. Cada um corre pela sua pista. Carreira, projetos, contas, distrações. E nós os pais aprendemos a ocupar menos espaço, para não pareceremos exigentes.

Escrevo porque não quero desaparecer por dentro. É um exercício de lucidez. Digo a mim próprio que existo. Que sinto. Que penso. Que não sou apenas memória do que fui.

A idade traz perguntas silenciosas. Que lugar tenho na vida dos que amo. Não é vaidade. É necessidade de vínculo. Todo o ser humano precisa de sentir que conta para alguém.Talvez seja apenas isso. Humanidade imperfeita. Amor que nem sempre sabe traduzir-se em tempo. Continuo a escrever. Não para acusar. Não para pedir. Para me manter inteiro. Para que a minha voz não se apague dentro de mim.

Manhã de domingo calmo , com sol , a ver o mar , com o cafezinho matinal , com quem quero estar e a escrever para ocupar o tempo , desculpem qualquer coisinha e quem não gosta não perca tempo , porque o tempo pode ser curto 

De um lado a barbarie do outro a paz aparente

 O caminho faz-se caminhando

passo a passo

sem atalhos para a consciência


De um lado

a morte

a barbárie

a guerra a rasgar a carne do mundo


Do outro

uma paz aparente

varandas com sol

cafés cheios

vidas a correr como se nada fosse


É bom aproveitar

dizes

e é


Mas a paz que não olha para o sofrimento

é descanso vazio

é conforto sem honra


O mundo não é dividido por fronteiras

é dividido por escolhas


Caminhar é escolher

não a indiferença

mas a vida


Não o silêncio

mas a dignidade


Porque hoje é longe

amanhã pode ser aqui


E o caminho

faz-se caminhando

com consciência

com coragem

com humanidade


Coimbra e as castas

 


      Coimbra e as castas 

Falar de castas é falar de estruturas do poder acumulado ao longo de séculos. A Universidade de Coimbra não é apenas uma instituição de ensino. É o maior empregador qualificado da cidade, é produtora de prestígio simbólico, é rede de contactos nacionais e internacionais. Quem passa por ali integra um circuito que se estende aos tribunais, à administração pública, à política, à advocacia, à magistratura, à comunicação social. Isto cria continuidade de influência.Quando uma cidade depende fortemente de uma única instituição, torna-se uma elite orgânica. Não é necessariamente ilegal nem conspirativa. É estrutural. Professores recomendam alunos. Antigos alunos promovem antigos colegas. Conselhos gerais e fundações cruzam nomes repetidos. O capital académico transforma-se em capital social e depois em poder real.O problema surge quando essa elite se fecha. Quando o recrutamento é pouco transparente. Quando a progressão parece depender mais de proximidade do que de mérito. Quando os cargos circulam sempre entre os mesmos grupos. A perceção de casta nasce aí.Há também a dimensão económica. Coimbra perdeu indústria, perdeu peso empresarial , perdeu peso político  e sem tecido económico diversificado, a universidade torna-se ainda mais central. Quem não está nesse circuito sente menor mobilidade social. Jovens qualificados acabam por sair. Fica a dependência.Historicamente, a própria divisão simbólica entre estudantes e população local consolidou uma hierarquia cultural. A tradição académica tem valor. Mas quando tradição se transforma em barreira social, cria distância.Por outro lado, a universidade trouxe conhecimento, investigação, saúde, cultura. A saúde , os polos tecnológicos, a projeção internacional. Não se pode ignorar isso. O que está em causa não é a existência de uma instituição forte. É o equilíbrio de poder.Uma cidade democrática precisa de diversidade económica, transparência nos cargos públicos, participação cívica ativa, imprensa local forte, escrutínio real. Sem isso, qualquer núcleo dominante cristaliza.A questão central não é se Coimbra tem castas. É se existe mobilidade entre elas. Se um jovem de origem modesta consegue entrar, progredir e decidir. Se a influência serve o interesse comum ou se se protege a si própria.Castas não se combatem com ressentimento. Combatem-se com regras claras, concursos transparentes, limitação de mandatos, abertura à sociedade civil e cultura de prestação de contas.Sem igualdade de oportunidades, a tradição transforma-se em privilégio. E privilégio prolongado gera estagnação. E qual a razão deste texto , porque sinto isso , e porque sou um homem de pensamento livre sem a preocupação de agradar ou afrontar e porque me estou nas tintas para os críticos que por aqui aparecem e me criticam constantemente 

Manhã de domingo com sol , luz , mar e paz

 Manhã de domingo com sol, luz e mar


O sol levanta-se limpo

sem pedir licença a ninguém.

A luz abre o dia

como quem abre uma janela para dentro.


O mar respira fundo.

Vai e vem com firmeza,

sem pressa,

sem medo.


Na areia ficam marcas

que a água apaga com serenidade.

Lição simples

nada é definitivo,

nem a dor, nem a alegria.


O ar cheira a sal e a verdade.

Há crianças que riem,

há passos soltos,

há silêncio suficiente para pensar.


Numa manhã assim

o mundo parece possível.

A luz não é só claridade,

é consciência.


E o mar, vasto e inteiro,

recorda-nos que a liberdade

não é grito,

é espaço aberto para viver com respeito.


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Conversa minha com o meu eu

 Conversa minha com o meu eu 


Eu

Sentes que a velhice 

 te empurra para um canto.


Eu próprio

Empurra se eu deixar. A idade pesa, mas não me tira a cabeça nem a consciência.


Eu

Há dias em que parece que já não contas. Que o mundo anda depressa demais.


Eu próprio

O mundo sempre andou depressa para quem só olha para a superfície. Eu olho para o fundo. Já vi ciclos, entusiasmos e desilusões. Isso não é pouco.


Eu

Mas já não produzes como antes. Já não tens cargo, nem poder formal.


Eu próprio

Produzir não é só receber salário. Penso, escrevo, intervenho. Tenho memória. Tenho liberdade para dizer o que penso sem medo de perder carreira.


Eu

E a solidão. Não falas dela.


Eu próprio

Falo sim. Existe. Há silêncios longos. Mas também há escolha. Posso transformar silêncio em reflexão, ou em amargura. A decisão é minha.


Eu

Temes tornar-te irrelevante.


Eu próprio

Temo acomodar-me. Irrelevante é quem desiste de participar. Enquanto tiver lucidez e voz, não sou sobra de ninguém.


Eu

Então a velhice não é inutilidade.


Eu próprio

A inutilidade é um rótulo que outros colocam quando só valorizam força e velocidade. Eu valorizo consciência e coerência.


Eu

E o futuro.


Eu próprio

O futuro não é só dos novos. É também responsabilidade dos que já viveram. Se me calo, falho. Se participo, continuo presente.


Eu

No fundo, continuas a lutar.


Eu próprio

Sempre. Não contra a idade. Contra a indiferença.

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A velhice

 Quando se chega a uma certa idade

cada manhã tem outro peso


Já não se vive para provar nada

vive-se para sentir


Cada dia a mais

não é rotina

é conquista


O tempo deixa de ser pressa

passa a ser consciência


Olha-se para trás sem ilusões

olha-se para a frente sem arrogância


Há perdas

há silêncios

há ausências que doem


Mas há também lucidez

há memória

há uma liberdade que só a idade dá


Cada dia ganho

é um pequeno acto de resistência

contra o esquecimento

contra a irrelevância

contra o medo


Respira-se fundo

agradece-se o simples

e segue-se


Porque chegar aqui

já é vitória

E continuar

é coragem.


Amadeu Guerra /como é bom ter amigos

 Texto meu crítico e irónico 

A texto que vem a seguir com referência ao papel do Amadeu Guerra com inquérito preventivo


Há um novo inquérito do Ministério Público à construção da casa do primeiro‑ministro, em Espinho. Segundo o semanário Expresso, que avança a notícia, as autoridades suspeitam de uma discrepância entre o custo total da obra e o valor declarado nas faturas.Isto nem parece ser um assunto com muito interesse , as televisões pouco falam , natural , o Amadeu resolve e esconde mais uma , os favores pagam-se 


Para o Manelito

 Há um ditado antigo que diz

que o sono dos justos é leve e tranquilo.

Eu penso nisso quando te vejo dormir, Manelito.


Dormes com as mãos abertas

como quem confia no mundo.

Respiras devagar,

como se o tempo tivesse parado só para ti.


Que o teu sono seja sempre assim,

limpo de medos,

livre de ruídos,

protegido da pressa e da maldade.


Que cresças com a mesma serenidade

com que agora fechas os olhos,

certo de que há braços que te guardam

e valores que te orientam.


Dorme, Manelito.

Que a paz te acompanhe

hoje, amanhã

e em todos os dias da tua vida.

Pensamento

 “ *Pensamento do dia:* Saber ouvir é uma virtude rara: quem escuta com atenção compreende o que as palavras dizem e o que o silêncio revela.”

Primo Toni

 Toni Carriço de pé na margem

a olhar o Rio Mondego como quem lê um livro antigo

cada curva uma memória

cada cheia uma lição


Fala do Baixo Mondego

como quem fala de gente

terra rasgada a direito

valas abertas à força de braço

arrozais que espelham o céu


Diz que o rio nunca foi manso

foi domado

com diques, comportas e paciência

obra pública e suor privado

engenho e teimosia


Recorda as cheias antigas

a água a invadir casas

o medo colado às paredes

e depois a esperança

quando a terra secava fértil


Fala de tratores e de subsídios

de jovens que partem

de campos que ficam

de promessas feitas em gabinetes

longe da lama e do frio da manhã


E pergunta

que futuro cabe nesta planície

se a água faltar

se a gente faltar

se a memória se perder


O Mondego corre

indiferente às nossas certezas

e Toni insiste

que o rio é mais do que água

é trabalho, é comunidade, é dignidade


No silêncio da tarde

a planície escuta

porque o baixo Mondego

não é apenas paisagem

é responsabilidade.

Os marretas no peleiro

 Na mesa do canto do café

junta se a tertúlia dos velhos marretas

cada um com a sua verdade

mais dura que a madeira da bengala


Falam alto

como se o mundo dependesse

daquele ruído de chávenas

e da espuma já morna do café


Um cita governos

outro cita memórias

todos citam o passado

como se o passado fosse tribunal


Ali julga se tudo

o preço do pão

a falta de vergonha

a juventude distraída


Há quem bata com a mão na mesa

há quem sorria de lado

há quem finja indiferença

mas ninguém falta à chamada


São marretas sim

teimosos como pedra antiga

mas guardam nas rugas

mapas de outras lutas


Entre críticas e gargalhadas

há uma coisa séria

o medo de se tornarem silêncio

num mundo que já não os escuta


Quando a tarde cai

levantam se devagar

cada um leva a sua convicção

como quem leva um estandarte invisível


E no dia seguinte

voltam

porque a tertúlia não é só conversa

é resistência.

Uma nomeação oportuna

 



Primeiro,  Luís Neves  construiu o seu percurso na Polícia Judiciária, com trabalho feito , agora  assume a pasta da Administração Interna, no governo O padrão Margarida Blasco , Amadeu Guerra e agora Luís Neves . Não está em causa a competência pessoal de ninguém. O problema é político e institucional.Quando responsáveis máximos pela investigação criminal transitam para funções governativas na área da segurança, a linha entre poder político e aparelho de investigação fica mais sensível. Mesmo que tudo seja legal, a democracia não vive apenas de legalidade formal. Vive de confiança pública e de separação clara de poderes.Acresce que o primeiro ministro tem enfrentado escrutínio mediático e averiguações preliminares. Nesse contexto, qualquer escolha para áreas como Justiça ou Administração Interna deve ser ainda mais transparente e fundamentada. Não por suspeição automática, mas por exigência democrática. A pergunta legítima não é se há algo escondido. É se o sistema garante distância suficiente entre quem governa e quem investiga. A democracia protege- se com instituições fortes e independentes. Sempre que essa fronteira parece estreitar-se, o debate é não só legítimo como necessário.Desejo um bom mandato a Luís Neves com alguma ingenuidade , mas sem hipocrisia , afirmo  que ainda acredito na responsabilidade individual e no serviço ao bem comum. Mas ao acreditar não dispensa a  vigilância cívica. Pelo contrário. É essa vigilância que protege a democracia.


segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Coimbra

 Coimbra entre memória e futuro


Coimbra vive muito da sua tradição.

A força simbólica da Universidade de Coimbra é inegável.

O Rio Mondego marca a paisagem e a identidade.

A saúde, com o polo hospitalar e académico, sempre foi um dos seus pilares.


Mas tradição não chega.


Durante décadas, Coimbra acomodou-se ao estatuto histórico. Outras universidades tornaram-se mais ágeis, mais internacionais, menos corporativas. Outras cidades investiram em inovação, tecnologia, indústria criativa, captação de talento. Modernizaram-se sem perder identidade.


Coimbra perdeu influência relativa. Não porque não tenha qualidade, mas porque o mundo acelerou e a cidade nem sempre acompanhou esse ritmo.


Há problemas estruturais:


• pouca massa crítica empresarial

• dificuldade em fixar jovens qualificados

• excessiva dependência do setor público

• redes fechadas de interesses e famílias

• fraca afirmação política a nível nacional


Sem capacidade de influência junto de quem decide, perde-se investimento, infraestruturas, centralidade.


O futuro exige escolhas claras.

1. Ligar a universidade ao tecido económico real. Investigação que se transforme em empresas, inovação aplicada, empregos qualificados.

2. Romper com lógicas corporativas e fechadas. Mérito, transparência, abertura ao exterior.

3. Apostar forte na área da saúde como cluster estratégico internacional.

4. Atrair talento estrangeiro e reter talento local com condições de vida, habitação acessível e mobilidade eficiente.

5. Liderança política competente, com visão e capacidade de negociação nacional.


Conciliar tradição e modernidade não é negar o passado. É usar a história como base para construir o que ainda não existe.


Se Coimbra quiser voltar a ser influente, tem de deixar de viver apenas da memória.

Tem de assumir que o mundo mudou e que a exigência hoje é maior.


Identidade sem estratégia é nostalgia.

Estratégia com valores é futuro.

Redes sociais e desinformação

 Esta historia das redes sociais é interessante . 

Comecei a participar quando me reformei e foi uma forma de manter activos contactos com ex colegas , amigos e todos aqueles com quem privei em 40 anos de actividade . Lá surgem a lembrança do dia de anos das mortes e da vida . Depois começaram a aparecer os  amigos dos amigos . O algoritmo a funcionar  com os amigos dos amigos . Depois aparecem algumas compras pelas redes , um telemóvel , um carro e mais uma vez o logaritmo a funcionar  somos massacrados com produtos semelhantes aqueles que procuramos . 

Com 70 anos já não me preocupo com o que escrevo , sem filtros , sem amarras , sou livre , não pertenço a nenhum partido , tenho as minhas opções que os meus amigos conhecem , os outros que apareceram percebem de que lado eu estou . Os textos são meus e sou o único responsável pelo que lá escrevo . Não tenho preocupações estéticas ou linguísticas ou outras de qualquer tipo . 

Exponho-me , sem problemas , estou numa idade em que não tenho nada a esconder , nem escrevo para agradar e para os likes . Não fujo de uma boa discussão , não tenho pensamento único , aceito a pluralidade , desde que tratada com elevação , estou a ficar intolerante à má educação , à mentira . Tento não passar nenhuma fake new , já tive que me retratar por ter publicado notícias que depois de confirmadas não eram verdadeiras . 

Para que fique claro defendo um país melhor , com menos intolerância , sem radicalismos uma sociedade mais justa , com igualdade de oportunidades , em que ninguém fique para trás , defendo um estado social , defendo uma saúde para todos , uma escola para todos em que a meritocracia  seja o elevador e não os cartões partidários ou outros tipos de organizações , em que quem é pobre não fique estigmatizado à nascença .  

No fundo estou a escrever este texto porque ultimamente aparecem comentários populistas , demagógicos que manifestamente não posso suportar , má educação e falta de civismo democrático que não irei tolerar mais . Escrevi este texto porque me apeteceu e quero contribuir para uma discussão aberta e livre com opiniões diferentes respeitando sempre quem não pensa como eu , mas vou ser exigente em relação a quem não respeita . Bom fim de semana 


 *Pensamento do dia:* “O segredo dos que governam não está apenas no que mostram, mas principalmente no que conseguem fazer o povo ignorar.” Inspirado em Noam Chomsky

Carnaval

 O carnaval 


O Carnaval não veio este ano

A chuva lavou as ruas

O vento levou os palcos

As intempéries serviram de razão


Nunca gostei do Carnaval

Confesso sem rodeios

Há qualquer coisa que me inquieta


Miúdos vestidos de adultos

Adultos a fingirem que voltam a ser crianças

Rapazes de saias

Raparigas de bigode pintado

Fardas de bombeiro

Fardas de polícia

Tudo a brincar ao que é sério


Talvez o problema seja meu

Talvez me falte leveza


Sei que o povo precisa de rir

Precisa de esquecer contas

Doenças

Preocupações

Precisa de rua

De música

De barulho


A alegria também é um direito

Mesmo quando não é a nossa


E talvez o Carnaval seja isso

Uma pausa consentida

Um dia em que o mundo vira ao contrário

Para que no dia seguinte

Volte ao lugar

Como se nada fosse

Coincidências

 Coincidências 

Há um novo inquérito do Ministério Público à construção da casa do primeiro-ministro em Espinho. O semanário Expresso fala numa discrepância entre o custo real da obra e o que foi declarado nas faturas.

Nada de especial, ao que parece. Não é tema que aqueça debates inflamados nem abra telejornais durante dias. Há assuntos que pesam mais do que outros, depende sempre de quem está envolvido.

O Ministério Público anuncia, averigua, arquiva ou segue caminho. Tudo dentro da normalidade institucional. Transparência garantida, dizem. Confiança nas instituições, repetem.

E depois há sempre quem assegure que está tudo sob controlo. Amadeu Guerra tratará do assunto com o zelo habitual. A máquina funciona, discreta e eficiente. No fim, como tantas vezes, ficará a sensação de que não havia nada para ver.

Os favores não existem, claro. São apenas coincidências. E as coincidências, em Portugal, têm um talento especial para proteger quem nunca se engana.

 Há um ditado antigo que diz

que o sono dos justos é leve e tranquilo.

Eu penso nisso quando te vejo dormir, Manelito.


Dormes com as mãos abertas

como quem confia no mundo.

Respiras devagar,

como se o tempo tivesse parado só para ti.


Que o teu sono seja sempre assim,

limpo de medos,

livre de ruídos,

protegido da pressa e da maldade.


Que cresças com a mesma serenidade

com que agora fechas os olhos,

certo de que há braços que te guardam

e valores que te orientam.


Dorme, Manelito.

Que a paz te acompanhe

hoje, amanhã

e em todos os dias da tua vida.