segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A velhice

 Quando se chega a uma certa idade

cada manhã tem outro peso


Já não se vive para provar nada

vive-se para sentir


Cada dia a mais

não é rotina

é conquista


O tempo deixa de ser pressa

passa a ser consciência


Olha-se para trás sem ilusões

olha-se para a frente sem arrogância


Há perdas

há silêncios

há ausências que doem


Mas há também lucidez

há memória

há uma liberdade que só a idade dá


Cada dia ganho

é um pequeno acto de resistência

contra o esquecimento

contra a irrelevância

contra o medo


Respira-se fundo

agradece-se o simples

e segue-se


Porque chegar aqui

já é vitória

E continuar

é coragem.


Amadeu Guerra /como é bom ter amigos

 Texto meu crítico e irónico 

A texto que vem a seguir com referência ao papel do Amadeu Guerra com inquérito preventivo


Há um novo inquérito do Ministério Público à construção da casa do primeiro‑ministro, em Espinho. Segundo o semanário Expresso, que avança a notícia, as autoridades suspeitam de uma discrepância entre o custo total da obra e o valor declarado nas faturas.Isto nem parece ser um assunto com muito interesse , as televisões pouco falam , natural , o Amadeu resolve e esconde mais uma , os favores pagam-se 


Para o Manelito

 Há um ditado antigo que diz

que o sono dos justos é leve e tranquilo.

Eu penso nisso quando te vejo dormir, Manelito.


Dormes com as mãos abertas

como quem confia no mundo.

Respiras devagar,

como se o tempo tivesse parado só para ti.


Que o teu sono seja sempre assim,

limpo de medos,

livre de ruídos,

protegido da pressa e da maldade.


Que cresças com a mesma serenidade

com que agora fechas os olhos,

certo de que há braços que te guardam

e valores que te orientam.


Dorme, Manelito.

Que a paz te acompanhe

hoje, amanhã

e em todos os dias da tua vida.

Pensamento

 “ *Pensamento do dia:* Saber ouvir é uma virtude rara: quem escuta com atenção compreende o que as palavras dizem e o que o silêncio revela.”

Primo Toni

 Toni Carriço de pé na margem

a olhar o Rio Mondego como quem lê um livro antigo

cada curva uma memória

cada cheia uma lição


Fala do Baixo Mondego

como quem fala de gente

terra rasgada a direito

valas abertas à força de braço

arrozais que espelham o céu


Diz que o rio nunca foi manso

foi domado

com diques, comportas e paciência

obra pública e suor privado

engenho e teimosia


Recorda as cheias antigas

a água a invadir casas

o medo colado às paredes

e depois a esperança

quando a terra secava fértil


Fala de tratores e de subsídios

de jovens que partem

de campos que ficam

de promessas feitas em gabinetes

longe da lama e do frio da manhã


E pergunta

que futuro cabe nesta planície

se a água faltar

se a gente faltar

se a memória se perder


O Mondego corre

indiferente às nossas certezas

e Toni insiste

que o rio é mais do que água

é trabalho, é comunidade, é dignidade


No silêncio da tarde

a planície escuta

porque o baixo Mondego

não é apenas paisagem

é responsabilidade.

Os marretas no peleiro

 Na mesa do canto do café

junta se a tertúlia dos velhos marretas

cada um com a sua verdade

mais dura que a madeira da bengala


Falam alto

como se o mundo dependesse

daquele ruído de chávenas

e da espuma já morna do café


Um cita governos

outro cita memórias

todos citam o passado

como se o passado fosse tribunal


Ali julga se tudo

o preço do pão

a falta de vergonha

a juventude distraída


Há quem bata com a mão na mesa

há quem sorria de lado

há quem finja indiferença

mas ninguém falta à chamada


São marretas sim

teimosos como pedra antiga

mas guardam nas rugas

mapas de outras lutas


Entre críticas e gargalhadas

há uma coisa séria

o medo de se tornarem silêncio

num mundo que já não os escuta


Quando a tarde cai

levantam se devagar

cada um leva a sua convicção

como quem leva um estandarte invisível


E no dia seguinte

voltam

porque a tertúlia não é só conversa

é resistência.

Uma nomeação oportuna

 



Primeiro,  Luís Neves  construiu o seu percurso na Polícia Judiciária, com trabalho feito , agora  assume a pasta da Administração Interna, no governo O padrão Margarida Blasco , Amadeu Guerra e agora Luís Neves . Não está em causa a competência pessoal de ninguém. O problema é político e institucional.Quando responsáveis máximos pela investigação criminal transitam para funções governativas na área da segurança, a linha entre poder político e aparelho de investigação fica mais sensível. Mesmo que tudo seja legal, a democracia não vive apenas de legalidade formal. Vive de confiança pública e de separação clara de poderes.Acresce que o primeiro ministro tem enfrentado escrutínio mediático e averiguações preliminares. Nesse contexto, qualquer escolha para áreas como Justiça ou Administração Interna deve ser ainda mais transparente e fundamentada. Não por suspeição automática, mas por exigência democrática. A pergunta legítima não é se há algo escondido. É se o sistema garante distância suficiente entre quem governa e quem investiga. A democracia protege- se com instituições fortes e independentes. Sempre que essa fronteira parece estreitar-se, o debate é não só legítimo como necessário.Desejo um bom mandato a Luís Neves com alguma ingenuidade , mas sem hipocrisia , afirmo  que ainda acredito na responsabilidade individual e no serviço ao bem comum. Mas ao acreditar não dispensa a  vigilância cívica. Pelo contrário. É essa vigilância que protege a democracia.


segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Coimbra

 Coimbra entre memória e futuro


Coimbra vive muito da sua tradição.

A força simbólica da Universidade de Coimbra é inegável.

O Rio Mondego marca a paisagem e a identidade.

A saúde, com o polo hospitalar e académico, sempre foi um dos seus pilares.


Mas tradição não chega.


Durante décadas, Coimbra acomodou-se ao estatuto histórico. Outras universidades tornaram-se mais ágeis, mais internacionais, menos corporativas. Outras cidades investiram em inovação, tecnologia, indústria criativa, captação de talento. Modernizaram-se sem perder identidade.


Coimbra perdeu influência relativa. Não porque não tenha qualidade, mas porque o mundo acelerou e a cidade nem sempre acompanhou esse ritmo.


Há problemas estruturais:


• pouca massa crítica empresarial

• dificuldade em fixar jovens qualificados

• excessiva dependência do setor público

• redes fechadas de interesses e famílias

• fraca afirmação política a nível nacional


Sem capacidade de influência junto de quem decide, perde-se investimento, infraestruturas, centralidade.


O futuro exige escolhas claras.

1. Ligar a universidade ao tecido económico real. Investigação que se transforme em empresas, inovação aplicada, empregos qualificados.

2. Romper com lógicas corporativas e fechadas. Mérito, transparência, abertura ao exterior.

3. Apostar forte na área da saúde como cluster estratégico internacional.

4. Atrair talento estrangeiro e reter talento local com condições de vida, habitação acessível e mobilidade eficiente.

5. Liderança política competente, com visão e capacidade de negociação nacional.


Conciliar tradição e modernidade não é negar o passado. É usar a história como base para construir o que ainda não existe.


Se Coimbra quiser voltar a ser influente, tem de deixar de viver apenas da memória.

Tem de assumir que o mundo mudou e que a exigência hoje é maior.


Identidade sem estratégia é nostalgia.

Estratégia com valores é futuro.

Redes sociais e desinformação

 Esta historia das redes sociais é interessante . 

Comecei a participar quando me reformei e foi uma forma de manter activos contactos com ex colegas , amigos e todos aqueles com quem privei em 40 anos de actividade . Lá surgem a lembrança do dia de anos das mortes e da vida . Depois começaram a aparecer os  amigos dos amigos . O algoritmo a funcionar  com os amigos dos amigos . Depois aparecem algumas compras pelas redes , um telemóvel , um carro e mais uma vez o logaritmo a funcionar  somos massacrados com produtos semelhantes aqueles que procuramos . 

Com 70 anos já não me preocupo com o que escrevo , sem filtros , sem amarras , sou livre , não pertenço a nenhum partido , tenho as minhas opções que os meus amigos conhecem , os outros que apareceram percebem de que lado eu estou . Os textos são meus e sou o único responsável pelo que lá escrevo . Não tenho preocupações estéticas ou linguísticas ou outras de qualquer tipo . 

Exponho-me , sem problemas , estou numa idade em que não tenho nada a esconder , nem escrevo para agradar e para os likes . Não fujo de uma boa discussão , não tenho pensamento único , aceito a pluralidade , desde que tratada com elevação , estou a ficar intolerante à má educação , à mentira . Tento não passar nenhuma fake new , já tive que me retratar por ter publicado notícias que depois de confirmadas não eram verdadeiras . 

Para que fique claro defendo um país melhor , com menos intolerância , sem radicalismos uma sociedade mais justa , com igualdade de oportunidades , em que ninguém fique para trás , defendo um estado social , defendo uma saúde para todos , uma escola para todos em que a meritocracia  seja o elevador e não os cartões partidários ou outros tipos de organizações , em que quem é pobre não fique estigmatizado à nascença .  

No fundo estou a escrever este texto porque ultimamente aparecem comentários populistas , demagógicos que manifestamente não posso suportar , má educação e falta de civismo democrático que não irei tolerar mais . Escrevi este texto porque me apeteceu e quero contribuir para uma discussão aberta e livre com opiniões diferentes respeitando sempre quem não pensa como eu , mas vou ser exigente em relação a quem não respeita . Bom fim de semana 


 *Pensamento do dia:* “O segredo dos que governam não está apenas no que mostram, mas principalmente no que conseguem fazer o povo ignorar.” Inspirado em Noam Chomsky

Carnaval

 O carnaval 


O Carnaval não veio este ano

A chuva lavou as ruas

O vento levou os palcos

As intempéries serviram de razão


Nunca gostei do Carnaval

Confesso sem rodeios

Há qualquer coisa que me inquieta


Miúdos vestidos de adultos

Adultos a fingirem que voltam a ser crianças

Rapazes de saias

Raparigas de bigode pintado

Fardas de bombeiro

Fardas de polícia

Tudo a brincar ao que é sério


Talvez o problema seja meu

Talvez me falte leveza


Sei que o povo precisa de rir

Precisa de esquecer contas

Doenças

Preocupações

Precisa de rua

De música

De barulho


A alegria também é um direito

Mesmo quando não é a nossa


E talvez o Carnaval seja isso

Uma pausa consentida

Um dia em que o mundo vira ao contrário

Para que no dia seguinte

Volte ao lugar

Como se nada fosse

Coincidências

 Coincidências 

Há um novo inquérito do Ministério Público à construção da casa do primeiro-ministro em Espinho. O semanário Expresso fala numa discrepância entre o custo real da obra e o que foi declarado nas faturas.

Nada de especial, ao que parece. Não é tema que aqueça debates inflamados nem abra telejornais durante dias. Há assuntos que pesam mais do que outros, depende sempre de quem está envolvido.

O Ministério Público anuncia, averigua, arquiva ou segue caminho. Tudo dentro da normalidade institucional. Transparência garantida, dizem. Confiança nas instituições, repetem.

E depois há sempre quem assegure que está tudo sob controlo. Amadeu Guerra tratará do assunto com o zelo habitual. A máquina funciona, discreta e eficiente. No fim, como tantas vezes, ficará a sensação de que não havia nada para ver.

Os favores não existem, claro. São apenas coincidências. E as coincidências, em Portugal, têm um talento especial para proteger quem nunca se engana.

 Há um ditado antigo que diz

que o sono dos justos é leve e tranquilo.

Eu penso nisso quando te vejo dormir, Manelito.


Dormes com as mãos abertas

como quem confia no mundo.

Respiras devagar,

como se o tempo tivesse parado só para ti.


Que o teu sono seja sempre assim,

limpo de medos,

livre de ruídos,

protegido da pressa e da maldade.


Que cresças com a mesma serenidade

com que agora fechas os olhos,

certo de que há braços que te guardam

e valores que te orientam.


Dorme, Manelito.

Que a paz te acompanhe

hoje, amanhã

e em todos os dias da tua vida.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Gostar do poleiro

 Gostar do 


Gostam do poleiro

do tacho, do cartão partidário

da porta giratória


Lá de cima falam de contas certas

com a saúde em lista de espera 

e a habitação fora do alcance 



Pedem sacrifícios

sempre aos mesmos

salários baixos, pensões contadas


Chamam estabilidade

à resignação

chamam consenso

ao medo de perder o lugar


Prometem Abril em campanha

e governam Novembro

cinzento, obediente


Quando o povo protesta

dizem que não há alternativa

e passam a mão

pelo bolso dos de sempre




Violas paradas

 Sem  enfeites nem rodeios:


Violas paradas


As violas estão paradas

não por falta de mãos

mas por falta de chão


Quem tocava emigrou

quem ficou cala

porque tocar já não chega

para viver


As cordas ainda sabem

as modas antigas

o suor

a dignidade


Mas o silêncio pesa mais

quando o trabalho não vale

quando a cultura é adorno

e não sustento


Violas paradas

num país que se diz inteiro

mas deixa morrer

o que o fez ser povo




Dia de chuva exterior e interior

 Tempo de chuva

Tempo de solidão


A chuva cai sem pedir licença

lava as ruas

não lava o vazio


As horas arrastam-se lentas

como gotas presas no vidro

uma

duas

mil vezes o mesmo silêncio


Dentro de casa

o tempo pesa

os relógios fingem que andam

mas tudo está parado


A solidão não faz barulho

instala-se

senta-se ao lado

e fica


Chove lá fora

e cá dentro também


Populismo e outras coisas

 Nos Estados Unidos, a disfunção política, social e institucional dos últimos anos não caiu do céu. Resulta de uma convergência clara entre o poder das big tech e o projeto político de Donald Trump.As big tech não são neutras. Controlam infraestruturas essenciais do espaço público digital. Plataformas onde se forma opinião, se mobiliza raiva, se espalha mentira e se transforma conflito em negócio. O seu modelo assenta em atenção, polarização e amplificação do que divide. Não é acidente. É estrutural. Algoritmos premiam choque, ressentimento e medo porque isso gera cliques, dados e lucro.Trump percebeu isso antes de muitos. Usou as plataformas como arma política direta. Falou por cima das instituições, dos media tradicionais e da mediação democrática. Transformou redes sociais em comícios permanentes. Normalizou a mentira, o insulto e a deslegitimação do adversário. Não criou a lógica das plataformas, mas explorou-a até ao limite.Houve cumplicidade. As empresas sabiam o que estava a acontecer. Sabiam do impacto na radicalização, na desinformação e na violência política. Preferiram crescer, vender publicidade e adiar responsabilidades. Só reagiram quando o custo reputacional e institucional se tornou demasiado alto. O resultado foi a erosão da confiança democrática. Eleições permanentemente sob suspeita. Instituições tratadas como inimigas. Ciência, jornalismo e justiça desacreditados. A ideia de verdade substituída por lealdade tribal.Trump não é um acidente. É um produto. Um produto de um ecossistema tecnológico sem regulação séria, de um capitalismo de vigilância sem limites e de elites económicas que aceitaram brincar com o fogo enquanto lucravam.A lição é simples. Democracia não sobrevive quando o espaço público é controlado por empresas privadas sem escrutínio e usado por líderes que vivem do caos. Sem regras, sem responsabilidade e sem ética, a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser arma.

Não é uma nova ordem mundial no sentido clássico. Não há um plano único, nem um centro de comando. O que existe é algo mais perigoso: uma desordem global que corrói a democracia por dentro.A democracia não cai de um dia para o outro. Vai sendo esvaziada. Mantêm-se eleições, parlamentos e tribunais, mas perde-se substância. A verdade deixa de contar. O medo passa a mandar. A política transforma-se em espetáculo permanente. É aqui que entram as big tech e líderes como Trump.O poder deslocou-se. Estados eleitos perderam capacidade face a plataformas privadas que controlam informação, dados e atenção. Essas empresas não respondem ao voto, não prestam contas e moldam comportamentos à escala global. Quando este poder se cruza com projetos autoritários, o risco é real.Trump representa a normalização do ataque à democracia em nome do povo. Deslegitimar eleições. Tratar opositores como inimigos. Enfraquecer imprensa, justiça e instituições independentes. Tudo isto já aconteceu dentro do quadro formal democrático. É assim que as democracias morrem hoje. Mas não é inevitável. A história mostra que a democracia resiste quando há regulação séria,  separação  de poderes, jornalismo forte e cidadãos informados. A União Europeia, com todas as suas falhas, é hoje um dos poucos espaços a tentar impor limites às plataformas e defender direitos.Portanto, não é o fim automático da democracia. É um ponto de rutura. Ou as sociedades recuperam controlo político sobre tecnologia, economia e informação, ou a democracia continuará a existir apenas como fachada. A escolha ainda existe. Mas o tempo não é infinito.A Europa está numa posição decisiva. Não lidera o poder tecnológico nem o militar, mas ainda tem algo que os outros estão a perder: uma ideia clara de limites, direitos e interesse público.O papel da Europa é político, não messiânico. Defender a democracia quando ela deixa de ser útil para os mais fortes. Regular onde outros desregulam. Proteger cidadãos quando o mercado os trata como produto.A União Europeia foi a primeira a enfrentar as big tech com regras concretas. Proteção de dados, limites ao abuso algorítmico, responsabilidade sobre conteúdos, concorrência. Não é perfeito, é lento e muitas vezes tímido, mas é real. Nos Estados Unidos regula-se pouco porque o poder económico manda. Na China controla-se tudo porque o Estado manda. A Europa tenta um terceiro caminho.O problema europeu é a falta de músculo político e unidade. Depende tecnologicamente dos EUA, energeticamente de fora, militarmente da NATO. E internamente cresce uma extrema-direita que copia o discurso trumpista e mina por dentro aquilo que diz defender.Se a Europa ceder ao medo, ao nacionalismo e à lógica do homem forte, torna-se irrelevante. Se alinhar com o modelo americano de desregulação total ou com o modelo autoritário, perde a alma.O papel da Europa é simples e difícil. Manter direitos quando dão trabalho. Defender regras quando incomodam. Provar que liberdade, igualdade e justiça social não são fraquezas. Se falhar, não haverá alternativa democrática à escala global. Se resistir, pode não dominar o mundo, mas evita que o mundo deslize para o cinismo autoritário.É verdade. A Europa está dividida e muitos dos seus líderes são fracos. Não por falta de inteligência, mas por falta de coragem política.A União Europeia foi construída para gerir consensos, não para enfrentar choques. Funciona bem em tempos normais. Em crise, revela limites. Decisões lentas, linguagem ambígua, medo de confronto com interesses económicos e com os Estados Unidos. Isso passa uma imagem de hesitação e alimenta a ideia de irrelevância.A divisão interna é real. Leste e Oeste. Norte e Sul. Países que viveram ditaduras recentes e outros que nunca as sentiram na pele. Estados que dependem de fundos europeus mas atacam o próprio projeto europeu. Esta fragmentação é explorada por potências externas e por forças populistas internas.Mas convém dizer isto sem ilusões nem derrotismo. A fraqueza europeia não é inevitável nem permanente. Resulta de escolhas políticas concretas. Falta liderança com visão comum. Falta assumir conflito quando ele é necessário. Falta dizer não a Washington quando os interesses europeus são sacrificados. Falta travar a extrema-direita com políticas sociais sérias, não com imitações do seu discurso.A Europa não precisa de homens fortes. Precisa de instituições fortes e líderes responsáveis. A história europeia mostra onde levam os salvadores da pátria. O risco não é a falta de força muscular. É a perda de sentido político.Se a Europa continuar a gerir o presente com medo do futuro, encolhe. Se aceitar o conflito democrático, investir na coesão social, regular o poder económico e defender a verdade, pode voltar a pesar. O problema não é não ter poder. É não decidir usá-lo.Não há solução mágica nem atalhos. O avanço do populismo combate-se com política a sério, não com slogans nem com moralismos, justiça social real. O populismo cresce onde há insegurança, salários baixos, serviços públicos degradados e sensação de abandono. Enquanto a política falar de números e não de vidas concretas, o terreno é deles. Estado social forte não é ideologia. É defesa da democracia e verdade e conflito claro. Fingir que todos os lados são iguais só legitima quem mente. A democracia tem de voltar a dizer o que é aceitável e o que não é. Mentira sistemática, ataque às instituições, racismo e ódio não são opiniões. São ameaças. Regular o poder económico e tecnológico. Sem enfrentar big tech, finança desregulada e concentração de riqueza, não há democracia funcional. Quem manda sem ser eleito tem de ser limitado por lei. Ponto.Lideranças com coragem. Não tecnocratas escondidos atrás de comunicados. Líderes que assumam escolhas, expliquem custos e enfrentem interesses instalados. A ausência de liderança cria espaço para os demagogos.Participação cívica e educação política. Democracia não é consumo passivo. Exige cidadãos informados, escola pública forte, jornalismo independente e memória histórica. Sem isso, o medo vence. Europa a sério. Mais integração onde faz sentido. Política industrial comum. Fiscalidade justa. Defesa comum. Coesão social. Sem isso, cada país sozinho é presa fácil de populistas e potências externas.O populismo não é uma força imparável. Alimenta-se do vazio, da cobardia e da desigualdade. Quando a democracia volta a proteger, a decidir e a falar verdade, o populismo perde o oxigénio. É difícil. Dá trabalho. Mas é a única saída que não acaba em autoritarismo disfarçado.


Ódio e violência social e o ICE

Radicalização como projeto político

A radicalização deixou de ser um efeito colateral e passou a ser um instrumento. Alimenta-se a ideia de ameaça permanente para manter mobilizada uma base fiel. O debate político transforma-se numa luta existencial. Já não há adversários, há inimigos.Questão ideológica reduzida ao bem contra o mal

A realidade é simplificada de forma grosseira. O país é dividido entre os bons e os maus. Quem discorda é tratado como traidor, antipatriota ou corrupto. Esta lógica elimina o compromisso democrático e legitima qualquer excesso em nome de uma suposta salvação nacional.

 ICE será a guarda  pretoriana do regime

Surgem grupos políticos, mediáticos e sociais que funcionam como força de proteção do líder e da narrativa. Não defendem instituições nem Constituição. Defendem pessoas, símbolos e ressentimentos. Justificam abusos, relativizam crimes e normalizam a violência verbal e física.

Clima de ódio e violência social

O discurso político contamina o quotidiano. A desconfiança instala-se entre vizinhos, colegas, famílias. A violência simbólica abre caminho à violência real. Ataques, ameaças e intimidação tornam-se aceitáveis porque o outro deixa de ser visto como cidadão.

Radicalização interna e territorial

A narrativa de que o problema está apenas em certos estados, cidades ou eleitores cria uma geografia do inimigo. Nos Estados Unidos isso é visível na demonização dos estados democratas, apresentados como decadentes, perigosos ou ilegítimos. O país deixa de ser um todo e passa a ser um campo de batalha interno.

Emigração e fuga interna

Quando o clima político se torna irrespirável, quem pode sai. Há emigração externa, mas também migração interna por medo, insegurança ou rejeição do ambiente social. Isto empobrece a democracia e concentra ainda mais as bolhas ideológicas.

Modelo de construção de um regime autocrático

O processo repete padrões conhecidos.

Deslegitimação da imprensa e da justiça

Ataque sistemático às instituições

Culto da personalidade

Polarização extrema

Normalização da mentira

Aceitação da violência como resposta política

Nada disto surge de um dia para o outro. Avança passo a passo, sempre apresentado como defesa da liberdade, da ordem ou da nação.

Conclusão

O que se passa nos Estados Unidos não é apenas uma crise política. É uma crise moral e democrática. Quando o ódio organiza identidades e a política abandona regras básicas de convivência, o caminho para a autocracia fica aberto. A história mostra que ignorar estes sinais tem sempre um custo alto.

Dedicado a um amigo

 


Amigo,


Sei que a doença pesa. Sei que há dias difíceis, limitações reais, cansaço e medo. Não estou a fingir que isso não existe. Existe. E é sério.


Mas também sei isto: fechar-te em casa não te protege. Só te encolhe o mundo. O isolamento não cura, não fortalece, não resolve. Só adia a vida.


Tu não deixaste de ser pessoa por estares doente. Não deixaste de ter direito a conviver, a rir, a discutir, a estar com os outros. As limitações impõem cuidados, não impõem desaparecimento.


Ninguém te pede heroísmos. Ninguém te pede que ignores o que sentes. Pede-se apenas que não transformes a doença na tua identidade inteira. Que saias um pouco. Que apanhes ar. Que vejas gente. Que continues a existir fora das quatro paredes.A vida não espera que estejas perfeito. Espera apenas que apareças.Não estou aqui para te julgar. Estou aqui porque me importo. Porque prefiro incomodar-te a perder-te. Porque a amizade também é isto: chamar à razão quando o medo começa a mandar.Não estás sozinho. Mas tens de dar o passo. Um de cada vez. O mundo ainda é teu. Não o entregues ao silêncio.


Votar sempre em consciência


O ponto de partida tem de ser simples. Um voto é um ato político, não um diagnóstico moral da pessoa inteira. Confundir uma escolha circunstancial com a essência de alguém é um erro lógico e ético.

As pessoas não mudam de carácter por depositarem um boletim diferente. O mesmo indivíduo pode, ao longo da vida, votar BE, PCP, PS, PSD ou Ventura, movido por razões distintas em momentos distintos. Medo, revolta, desilusão, protesto, experiência pessoal. Nada disso apaga automaticamente valores como honestidade, solidariedade ou sentido de justiça.

Quando transformamos o voto num rótulo moral absoluto, cometemos duas falhas. Primeiro, elevamos o nosso juízo particular a verdade universal, ignorando o nosso próprio viés . Segundo, deixamos de compreender a realidade política, porque trocamos análise por condenação.O desacordo político é, por natureza, relativo e contextual. A prova disso é que pessoas igualmente informadas e de boa fé avaliam de forma oposta fenómenos como Ventura, BE ou PCP. Se o juízo fosse absoluto, essa divergência não existiria.Dizer que votar no BE não faz de ninguém uma má pessoa, mas que votar Ventura faz, é incoerente do ponto de vista racional. Revela mais sobre a nossa necessidade de superioridade moral do que sobre quem vota.A pergunta politicamente séria não é quem são essas pessoas, mas porquê. O que falhou no sistema político, social e económico para que uma parte da população veja naquela opção uma resposta. Que frustrações não foram tratadas. Que problemas foram ignorados. Que discursos ficaram vazios. Desumanizar os eleitores não combate o fenómeno. Apenas o alimenta. A democracia enfraquece quando substituímos compreensão por julgamento moral e crítica política por insulto.Isto não significa aceitar ideias que consideramos erradas. Significa recusar a tentação fácil de reduzir pessoas a votos. Esse é um princípio básico de respeito, lucidez e maturidade democrática.