terça-feira, agosto 18, 2026

como não tendo nada se tem tudo

Como não tendo nada se tem tudo


Há quem pense que ter é possuir,

ter muito, guardar, acumular.

Mas eu aprendi que a vida

também se pode ganhar

quando pouco se tem

e muito se sabe amar.


Não tenho riquezas para deixar,

nem grandes coisas para mostrar.

Tenho memórias, tenho afectos,

tenho gente que posso abraçar.


Tenho o silêncio de uma tarde,

o cheiro da terra depois da chuva,

um café bebido devagar,

uma palavra amiga,

um olhar que não precisa falar.


Não tenho tudo o que quis,

nem tudo o que a vida prometeu.

Mas tenho aquilo que importa,

e isso ninguém me ofereceu,

foi a vida que me ensinou

a reconhecer o que é meu.


Tenho família, tenho amizade,

tenho liberdade para pensar.

Tenho consciência tranquila

e ainda vontade de sonhar.


E talvez seja essa a riqueza

que ninguém consegue comprar:

quando se aprende a viver com pouco,

descobre-se que se pode ter tudo

sem precisar de possuir quase nada.


Porque, no fim,

não é o que temos que nos define.

É aquilo que damos,

é aquilo que sentimos,

é quem fica ao nosso lado

quando o resto desaparece.


E assim vou caminhando,

sem grandes certezas,

mas com uma certeza profunda:


às vezes,

é precisamente quando pensamos

que não temos nada

que descobrimos

que temos tudo.

eu não quero saber quanto tempo faltab-outra versão

Eu quero saber quanto tempo falta

ou talvez não queira saber,

porque saber o fim

pode mudar a forma de viver.


Quanto tempo falta para um abraço,

para um beijo, para um olhar,

quanto tempo falta para dizer

aquilo que ficou por falar?


Quanto tempo falta para os meus,

para a família, para os amigos,

para os dias que ainda quero viver,

para os sonhos que ficaram comigo?


Se soubesse que faltam dez anos,

diria que ainda há tempo.

Se fossem dois, talvez tivesse pressa.

Se fossem poucos dias,

talvez parasse o mundo por dentro.


Não quero contar os dias,

quero viver cada um.

Não quero saber a chegada,

quero continuar a caminhar.


Eu quero saber quanto tempo falta

ou talvez não queira saber.

Porque enquanto não souber,

cada manhã pode ser começo,

cada abraço pode ser inteiro,

cada dia pode valer.


E talvez seja essa a verdade:

não importa quanto tempo falta,

importa o que ainda fazemos

com o tempo que temos.

“Eu quero saber quanto tempo falta.”

Hoje li uma frase que me ficou na cabeça:


“Eu quero saber quanto tempo falta.”


Fiquei a pensar nela. Não sei se quero verdadeiramente saber.Quanto tempo falta para quê? Para morrer? Para deixar de fazer? Para deixar de pensar? Para deixar de estar com quem gosto?

Talvez seja uma pergunta que todos fazemos em algum momento da vida, principalmente quando começamos a perceber que o tempo já não é infinito. Durante muitos anos vivemos como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Depois percebemos que não.

Mas eu não sei se queria conhecer a resposta.

Se soubesse que faltavam dez anos, talvez pensasse que ainda tenho muito tempo. Se fossem dois, talvez começasse a contar os dias. Se fossem poucos meses, provavelmente olharia para tudo de outra maneira.

E eu não quero viver a contar o tempo.

Quero viver o tempo que tenho.

Continuar a pensar, porque ainda não me reformei de pensar. Continuar a perguntar, a discordar, a tentar perceber este mundo tantas vezes estranho e injusto. Continuar a gostar das pessoas que amo, da família, dos amigos, das pequenas coisas que muitas vezes damos como garantidas.

Tenho consciência de que o tempo passa. Não tenho medo de o reconhecer. Tenho medo, isso sim, de passar pelo tempo sem o viver.

Talvez seja essa a questão.

Não saber quanto tempo falta, mas saber o que fazemos com o tempo que temos.

Por isso, depois de pensar nesta frase, continuo sem saber se quero saber quanto tempo falta.

Talvez prefira outra pergunta:

O que ainda quero fazer com o tempo que tenho?

Essa, sim, vale a pena responder.

ideias avulsas

Ideias avulsas 

Quem construiu uma carreira com mérito não merece crítica por ter vencido.


Quem venceu porque trabalhou, lutou e aproveitou as oportunidades que teve também não merece crítica.


Quem nasceu numa família com dinheiro e, através do seu trabalho, construiu a sua própria vida também não merece crítica. Ninguém tem culpa da família onde nasceu.


Mas quem venceu usando meios pouco claros merece ser questionado.


Quem venceu através de meios ilícitos merece crítica.


Quem chegou a lugares importantes apenas porque teve padrinhos, amigos ou portas abertas pela política merece ser questionado.


Quem passou pelas juventudes partidárias e construiu depois uma carreira com competência e mérito não merece crítica por isso.


Mas quem fez da política uma escada para chegar a lugares para os quais não tinha mérito ou competência merece crítica.


Quem serviu alguém, um partido ou um grupo de interesses e foi recompensado com lugares de poder merece ser questionado.


Eu não tenho inveja de quem vence.


Tenho é dificuldade em aceitar que se confunda mérito com privilégio, oportunidade com favorecimento e sucesso com poder conquistado através de relações.


Não critico quem chegou ao topo.


Quero apenas saber como chegou lá.


Porque o problema não está em vencer.


O problema está na forma como se vence.

domingo, junho 07, 2026

Este país não é para velhos

 


Este país não é para velhos,


dizem os que vendem o futuro
a preço de saldo.


Os velhos são um encargo,
um custo nas folhas de Excel do Ministério das Finanças,
uma linha vermelha
que os técnicos de Bruxelas
gostariam de apagar
com uma caneta invisível.


Este país não é para velhos,


porque os velhos lembram-se
de quando a saúde era um direito
e não um produto de luxo,
com o SNS a enfraquecer
e portas a fechar-se todos os dias.


Lembram-se de quando a pensão
significava dignidade
e não uma esmola calculada
por fórmulas frias
que transformam vidas
em estatística.


Este país não é para velhos,


porque os velhos sabem
que o 25 de Abril não foi feito para isto:


para haver crianças com fome
enquanto os bancos acumulam lucros;


para os jovens serem empurrados para a emigração
em busca de um salário justo;


para os mais velhos ficarem sós,
com a medicação racionada
e a esperança adiada
para o próximo Orçamento do Estado.


Este país não é para velhos,


porque os velhos são perigosos.


Sabem ler nas entrelinhas,
reconhecem a retórica vazia
quando se fala em “esforço partilhado”,
enquanto os mais ricos beneficiam
e os mais pobres suportam o peso maior.


Sabem que a austeridade
não é uma fatalidade.
É uma escolha política.


Sabem que há dinheiro
quando existe vontade de o encontrar.


Os jovens ouvem dizer
que o futuro lhes pertence.


Mas quem detém o poder
tem tido o cuidado de não o partilhar.


Ergueram muros de vidro e algoritmos,
cercas digitais onde muitos velhos
não têm senha,
não têm acesso,
não contam.


E nós, os velhos,


ficamos.


Não como pedintes,
não como um fardo,
mas como memória viva
de um país que alguns gostariam de apagar.


A pensão que não chega ao fim do mês
é uma greve silenciosa.


A solidão de muitos dias
é um protesto sem bandeira.


Cada poema escrito à noite,
cada palavra de indignação,
cada gesto de resistência,
é uma recusa em desistir.


Este país não é para velhos?


Então teremos de o transformar
num país para todos.


Porque, sem justiça para os mais velhos,
não haverá futuro para os mais novos.


Os velhos não são o passado.


Somos a memória,
a experiência
e a consciência crítica
que o poder nunca consegue calar.


E enquanto houver um velho
capaz de lembrar
o que foi prometido
e o que ficou por cumprir,


a revolução continuará inacabada.


E a esperança continuará viva.