terça-feira, agosto 18, 2026

hipocrisia 2 versões

A hipocrisia


Falam pela frente,

sorriem, apertam a mão,

dizem aquilo que queremos ouvir.


Depois viram as costas,

mudam a conversa,

desdizem o que disseram,

e dizem de nós aquilo

que nunca tiveram coragem

de dizer na nossa presença.


A hipocrisia não precisa de máscara,

já aprendeu a sorrir.


Eu prefiro a verdade,

mesmo quando dói.

Prefiro uma palavra dura pela frente

a mil elogios ditos por interesse.


Porque quem fala diferente

conforme a pessoa que tem diante de si

não é prudente,

é apenas falso.


E há silêncios que dizem tudo 




A arte de falar pela frente e desdizer por trás


Há pessoas que têm um talento especial. Pela frente dizem uma coisa, sorriem, concordam, dão razão e até parecem nossos melhores amigos.


Depois viram a esquina e começa outra conversa.


É uma espécie de dupla personalidade social. Não é preciso mudar de opinião, basta mudar de companhia.


O curioso é que estas pessoas conseguem dizer exatamente aquilo que o outro quer ouvir. Se estão com A, concordam com A. Se estão com B, concordam com B. Se encontram C, descobrem que afinal sempre pensaram como C.


É uma verdadeira democracia de conveniência.


Pela frente, respeito. Por trás, crítica.


Pela frente, amizade. Por trás, veneno.


Pela frente, confiança. Por trás, desconfiança.


E depois ainda ficam admiradas quando alguém percebe.


Eu cá continuo a preferir outra coisa. Dizer pela frente aquilo que penso, mesmo sabendo que posso não agradar. Porque uma verdade dita com respeito vale muito mais do que uma mentira acompanhada por um sorriso.


A hipocrisia pode ser uma excelente estratégia para sobreviver em certos ambientes.


Mas há uma coisa que ela nunca consegue esconder durante muito tempo.

A falta de carácter 

a cunha

A cunha


Depois de escrever tudo isto, assaltou-me outra palavra.


A cunha.


Uma palavra tão portuguesa, tão banalizada, tão presente na nossa vida que quase já nem damos por ela.


“Conheces alguém?”


“Não tens lá um amigo?”


“Fala com fulano.”


“Eu tenho um conhecido que talvez possa ajudar.”


E muitas vezes isto é dito sem qualquer intenção criminosa. É quase uma coisa normal. Uma pessoa tenta resolver um problema e procura alguém que conheça alguém.


Mas talvez seja precisamente essa normalidade que devêssemos discutir.


Porque uma coisa é ter amigos, relações pessoais, conhecer pessoas e pedir uma opinião.


Outra coisa é quando ter o amigo certo, o contacto certo ou o telefone certo passa a significar ter acesso a uma porta que permanece fechada para os outros.


É aí que a cunha deixa de ser apenas uma pequena ajuda entre amigos.


Pode transformar-se numa teia.


Uma pessoa conhece outra. Essa conhece alguém numa instituição. Outra trabalha numa empresa. Outra tem influência política. Outra conhece quem decide. E, pouco a pouco, vai-se formando uma rede de relações que simplifica processos, facilita negócios, abre oportunidades e resolve problemas.


Nada disto precisa necessariamente de acontecer de forma ilegal.


E talvez seja esse um dos problemas mais difíceis de discutir.


Porque nem tudo o que é legal é necessariamente justo.


E nem tudo o que é injusto é necessariamente crime.


Há uma zona cinzenta onde vivem os favores, as relações, as portas abertas, os telefonemas, os convites, os conhecimentos e aquela frase aparentemente inocente:


“Deixa comigo, eu conheço uma pessoa.”


O cidadão comum também conhece pessoas. Também tem amigos. Também pede ajuda.


Mas existe uma diferença enorme entre conhecer alguém e ter acesso a uma rede de pessoas com capacidade para influenciar decisões, acelerar processos, criar oportunidades ou aproximar negócios.


É aqui que volto à desigualdade.


Porque quem não tem essa rede parte muitas vezes de trás.


Espera.


Cumpre os procedimentos.


Preenche os formulários.


Aguarda.


Volta a aguardar.


Enquanto isso, alguém pode ter apenas de fazer um telefonema.


Não digo que todos os telefonemas sejam ilegítimos.


Não digo que todas as relações sejam suspeitas.


Não digo sequer que exista sempre má intenção.


Digo apenas que uma democracia não pode aceitar como normal que o acesso às instituições dependa demasiado da proximidade que cada um tem ao poder.


Porque quando a cunha se transforma numa forma habitual de funcionamento, deixa de ser apenas um favor.


Passa a ser um sistema informal de acesso.


E esse sistema favorece sempre mais quem já tem relações, dinheiro, influência ou conhecimento.


É talvez por isso que a palavra “cunha” me ficou na cabeça depois de escrever este texto.


Porque ela explica uma parte daquilo que tento perceber.


Não explica tudo.


Não prova nada.


Mas ajuda a fazer perguntas.


Quantos negócios começaram numa relação pessoal?


Quantos processos foram facilitados por um telefonema?


Quantas oportunidades chegaram primeiro a quem já estava perto de alguém?


Quantas pessoas competentes ficaram simplesmente de fora porque não conheciam ninguém?


E quantas vezes aquilo que chamamos mérito é apenas o resultado de uma combinação entre competência, oportunidade e acesso?


Não quero viver num país onde conhecer pessoas seja um pecado.


As relações humanas fazem parte da vida.


Quero é viver num país onde uma pessoa possa avançar sem precisar de conhecer a pessoa certa.


Onde a regra seja mais importante do que o contacto.


Onde o mérito não precise de padrinhos.


Onde os negócios sejam feitos com transparência.


Onde as instituições não tenham portas diferentes conforme quem bate.


Talvez seja esta uma das perguntas que ficam depois de todos estes casos.


Não apenas quem cometeu um crime.


Mas como funciona o país antes de o crime, quando existe.


Como se constroem as relações.


Como circula a influência.


Como se abrem as portas.


Como se fazem os negócios.


Como se criam as oportunidades.


Porque os grandes casos podem passar.


Os protagonistas podem desaparecer.


Os processos podem terminar.


Mas se a teia de relações que permite determinadas práticas continuar intacta, o padrão permanece.


E é isso que me interessa perceber.


Não encontrar culpados antes dos tribunais.


Não alimentar teorias da conspiração.


Não transformar suspeitas em certezas.


Mas perceber se, por baixo dos casos que passam, existe uma cultura de relações, favores e proximidades que continua a funcionar.


Porque talvez o verdadeiro problema não seja existir uma cunha.


Talvez seja termos chegado ao ponto de acharmos normal precisar dela.

o mundo avesso

O mundo do avesso


Vejo o amor, não tem preço

Vejo o mundo do avesso

Vejo gente a correr

Sem saber para onde vai


Vejo abraços esquecidos

Vejo sonhos interrompidos

Vejo quem tem quase tudo

E ainda quer sempre mais


Vejo a guerra a fazer contas

Vejo a fome atrás das portas

Vejo a mentira a crescer

Vestida de verdade


Mas também vejo uma mão

Um gesto simples, um coração

Vejo gente que ainda acredita

Na palavra amizade


Vejo o amor, não tem preço

Mesmo num mundo do avesso

Porque enquanto houver alguém

Que saiba amar e cuidar


Há sempre uma luz acesa

Mesmo no meio da tristeza

E um mundo novo por nascer

Se aprendermos a olhar.

como não tendo nada se tem tudo

Como não tendo nada se tem tudo


Há quem pense que ter é possuir,

ter muito, guardar, acumular.

Mas eu aprendi que a vida

também se pode ganhar

quando pouco se tem

e muito se sabe amar.


Não tenho riquezas para deixar,

nem grandes coisas para mostrar.

Tenho memórias, tenho afectos,

tenho gente que posso abraçar.


Tenho o silêncio de uma tarde,

o cheiro da terra depois da chuva,

um café bebido devagar,

uma palavra amiga,

um olhar que não precisa falar.


Não tenho tudo o que quis,

nem tudo o que a vida prometeu.

Mas tenho aquilo que importa,

e isso ninguém me ofereceu,

foi a vida que me ensinou

a reconhecer o que é meu.


Tenho família, tenho amizade,

tenho liberdade para pensar.

Tenho consciência tranquila

e ainda vontade de sonhar.


E talvez seja essa a riqueza

que ninguém consegue comprar:

quando se aprende a viver com pouco,

descobre-se que se pode ter tudo

sem precisar de possuir quase nada.


Porque, no fim,

não é o que temos que nos define.

É aquilo que damos,

é aquilo que sentimos,

é quem fica ao nosso lado

quando o resto desaparece.


E assim vou caminhando,

sem grandes certezas,

mas com uma certeza profunda:


às vezes,

é precisamente quando pensamos

que não temos nada

que descobrimos

que temos tudo.